O desempenho do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas pesquisas eleitorais talvez seja surpreendente até para ele. Numa das mais recentes, o pré-candidato presidencial da ultradireita aparece numericamente à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, embora em situação considerada de empate técnico. Como uma figura que, até há pouco, só era conhecida por ser filho de quem é (do ex-presidente Jair Bolsonaro) e de quem herdou o sobrenome, mas não por ideias ou atuação parlamentar, conseguiu chegar tão alto e tão depressa?
Algumas explicações podem ser encontradas na edição de sexta-feira passada do Estadão. O desconhecimento público é uma delas. Como pouca gente sabe quem Flávio Bolsonaro é, mas boa parte do eleitorado não quer renovar o mandato de Lula, o semidesconhecido tem boa aceitação. Outro fator é ter o sobrenome que encanta fatia expressiva do eleitorado. E o terceiro motivo é que nem as candidaturas estão formalizadas nem a campanha começou, de modo que pouco se sabe o que cada candidato pretende fazer se eleito. Com a campanha, será possível ao eleitor escolher a melhor proposta.
Isso será bom para Flávio Bolsonaro? No artigo Cadê o ‘Posto Ipiranga’?, publicado na mesma edição do Estadão (17/4, B7), o economista Fabio Giambiagi parece sugerir que não. “O ‘júnior’ escreveu que adotará um ‘tesouraço’, o que demonstra que não sabe o que está falando, por ignorar as restrições fiscais que enfrentará”, escreveu Giambiagi. “A rigor, o que fica claro para qualquer pessoa que não se deixe arrastar pela polarização em que vivemos é que Flávio Bolsonaro simplesmente não tem a menor ideia do que propor para o Brasil.”
Pelo que se conhece (ou não se conhece) de Flávio Bolsonaro, o artigo está certo. Talvez, porém, pior do que não ter ideia sobre o que propor seja quando, ocasionalmente, Flávio Bolsonaro tenta mostrar que tem ideias e propostas.
É muito provável que Bolsonaro filho saiba o que é praseodímio. Trata-se do elemento químico de símbolo Pr e número atômico 59, que pertencente à série dos lantanídeos. É um dos 17 elementos químicos que formam o grupo que vem sendo chamado de terras raras. Afinal, foi sobre terras raras que Flávio Bolsonaro falou durante discurso que pronunciou no fim de março, em evento no Estado norte-americano do Texas que reuniu ultraconservadores numa conferência que se autoexplica no nome: Conservative Political Action Conference, ou CPAC.
“O Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras raras e minerais críticos”, disse Flávio Bolsonaro. Foi didático na justificativa: “Sem esses componentes, a inovação tecnológica americana torna-se impossível e a produção do sistema militar avançado que mantém a superioridade americana cai nas mãos dos adversários. Quando os Estados Unidos ficam vulneráveis, todo o mundo livre fica vulnerável”. Seria um discurso normal, se feito por um político norte-americano conservador e militarista. Mas sendo um cidadão brasileiro detentor de mandato popular quem disse isso, a fala deixa claro seu desprezo pelos interesses nacionais e sua sabujice diante de alguém como o presidente Donald Trump, que a História haverá de colocar no devido lugar.
Terras raras, de fato, importam, tanto para os Estados Unidos quanto para a China e para o Brasil. A exploração e o refino de metais raros e críticos são processos complexos e caros, mas altamente compensatórios pelo emprego desses materiais. Ímãs permanentes e de grande poder, motores elétricos miniaturizados, inteligência artificial, geradores de energia eólica, acumuladores de energia, infraestrutura de datacenters são exemplos disso. Mas praticamente só um país tem e explora terras raras: a China, par desgosto de Flávio Bolsonaro, responde por 90% do refino de terras raras no mundo.
E o Brasil com isso? Pois o Brasil detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo. Essa reserva é estimada em 25 milhões de toneladas (a da China é de 45 milhões de toneladas). Com essas dimensões, dá para entender o interesse de Flávio Bolsonaro em entregar tudo para os Estados Unidos e para Trump. Só não dá para concordar.
Na sexta-feira passada, ao assinar em Barcelona, com o primeiro-ministro Pedro Sánchez, um acordo com a Espanha para estudo sobre minerais críticos e terras raras, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que seu governo estabelecerá parcerias “com quem quiser construir, nos ajudar, levar tecnologia e compartilhar conosco”, reforçando que a transformação desses minerais em produtos de alto valor agregado seja feita no Brasil.
Seu governo já age nessa direção. Em janeiro, o Ministério de Minas e Energia selecionou o consórcio liderado pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) para realizar estudos que apoiarão o governo na formulação de diretrizes, metas e instrumentos que orientem a elaboração da Estratégia Nacional de Terras Raras.

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