Se há um viés cognitivo de ampla penetração, é a falácia do mundo justo —a ideia de que, no final, as pessoas receberão o que merecem. Somos condicionados desde criancinhas a crer nessa lorota. Ela está presente nas histórias infantis (vilões são sempre punidos), nas religiões (papai do céu recompensa os bons e castiga os maus) e até em justificações ideológicas (discurso da meritocracia). Aparece também em eleições.
Lula e os petistas estão mordidos. Não entendem como bons indicadores econômicos obtidos nesta gestão e o pacote de generosidades patrocinado pelo governo não se convertem em avaliação positiva e intenções de voto para Lula. E, sempre que a expectativa de justiça cósmica não se realiza, nós nos colocamos a caçar os responsáveis, não pela injustiça, que não pode por definição se materializar, mas pelo adiamento do grande acerto de contas.
No caso do PT, os "culpados" oscilam. Vão das falhas de comunicação do próprio governo aos altos índices de endividamento provocados pelas malévolas bets, passando pelas guerras de Trump com seu impacto inflacionário.
A resposta invariável do governo é mais programas (e gastos) que possam comprar a boa vontade do eleitor. Não foi muito diferente em 2022, quando Bolsonaro era o presidente. A democracia funciona bem para algumas coisas, mas não para responsabilizar adequadamente governantes por suas ações.
Não que a responsabilização seja zero, mas só de vez em quando ela é adequada. Fenômenos muito abrangentes, como crises econômicas, costumam ter forte impacto eleitoral, mas não necessariamente foi o governante que provocou a crise ou para ela contribuiu. O mundo é um lugar, digamos, multifatorial. É frequente que políticos colham os louros por aquilo que não fizeram e que sejam cobrados por eventos aos quais não deram causa. Meu exemplo favorito são os ataques de tubarões em Nova Jersey que quase custaram a reeleição a Woodrow Wilson em 1916.
No mundo e em eleições, o papel do acaso é bem maior do que gostamos de acreditar.

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