terça-feira, 21 de abril de 2026

A eleição e o Brasil 'queridinho' dos donos do dinheiro grosso, VTF FSP

 O Brasil seria agora o "queridinho" dos donos do dinheiro grosso do mundo, lê-se por aí, entre outras expressões constrangedoras de cafonas e exageradas. A medida principal desse amor é a valorização do real em relação ao dólar, desde o início do ano a maior entre 35 moedas mais relevantes. O tutu está entrando, pela finança e pelo comércio externo.

Convém prestar atenção a variações grandes da taxa de câmbio, que têm efeito político, pois batem em preços e juros. Bom lembrar também que muita vez essas variações têm pouco a ver com decisões tomadas aqui dentro. Desde o início de 2025, o real se valorizou basicamente porque os donos do dinheiro do mundo decidiram reorganizar suas aplicações.

Cédula de dólar entre notas de R$ 50 - Amanda Perobelli -30.jan.26/Reuters

A entrada de dólares tem achatado temores com o grande problema fiscal (déficit persistente, dívida que cresce sem limite). Ignora a eleição apertada entre candidatos muito diferentes a presidente. O dinheiro grande vai se importar apenas quando souber do novo ministro da Fazenda, no final do ano? Difícil antecipar razões, rapinas e desrazões do capital.

Entre outros motivos da onda de valorização de agora está a avaliação de que o Brasil viria a se estrepar menos com a guerra. O país: 1) Exporta petróleo; 2) Tem matriz energética diversificada e com muitos renováveis; 3) Exporta várias commodities, entre elas comida; 4) Tem juros muito mais altos do que os do resto do mundo relevante; 5) Terá mais receita fiscal, engordada pelos impostos do petróleo; 6) Está longe de zonas de conflito; 7) Por comparação, tem política menos conturbada (pois é) e governo mais estável.

A explicação parece razoável, depois de sabermos que o real se valorizou, assim como ocorreu em 2025: meio análise de obra feita. As previsões para taxa de câmbio, quase sempre muito furadas, eram de dólar mais caro.

Desde o início de 2025, parece que quase 50% da valorização do real se deveu à onda global de mudanças de fluxo de dinheiro causada pelo descrédito dos EUA, obra de Donald Trump. O restante seria devido em um terço à diferença de juros entre o Brasil e o resto do mundo relevante, em particular os EUA; no mais, à exportação de commodities.

"Parece". Há meios um pouco diferentes de se fazer essa conta, que de resto é uma decomposição de motivos baseada em dados disponíveis, não uma explicação cravada.

O preço do dólar está perto de R$ 5,06, na média de abril até esta terça (21). Com um empurrãozinho extra, em termos reais voltaríamos ao patamar de fevereiro de 2020, mês anterior ao do início dos fechamentos da Covid. Entre as três dúzias de moedas mais relevantes, o real levou o maior tombo no início da epidemia e quase sempre caído ficou, desde então.

Entre fins de 2024 e janeiro de 2025, houve o pico mundial recente do valor do dólar: era o cúmulo dos delírios otimistas com a política econômica de Trump. Desde meados de 2024, o descrédito da política fiscal de Lula ajudava a derrubar o real (uns dois terços da queda de 2024 se deveram ao problema de gastos e dívida públicos). O efeito combinado dessas duas pressões provocou um pânico no mercado brasileiro no final de 2024 e o Selicaço do Banco Central.

Ao longo de 2025, pegamos a onda de valorização das moedas dos emergentes, que muito contribuiu para derrubar a inflação; em 2026, estamos no alto dessa onda, que deve atenuar a carestia causada pela guerra (combustíveis, fertilizantes etc.). Deve salvar uns votos para Lula 4.

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