quarta-feira, 29 de abril de 2026

5 a 4: privilegiado quem jogou, afortunado quem assistiu, FSP

 Luís Curro

"Foi o melhor jogo de futebol em que estive envolvido."

A declaração do português Vitinha, um dos volantes portugueses do Paris Saint-Germain, reflete o que não só ele, mas muito possivelmente a maioria dos jogadores envolvidos na partida, vivenciou nesta terça-feira (28) no estádio Parque dos Príncipes, em Paris.

Vitinha considera-se um privilegiado por ter participado, e com o privilégio extra de seu time ter vencido, de PSG 5 x 4 Bayern de Munique, jogo de ida de uma das semifinais da Champions League, o principal interclubes europeu.

Isso somente duas semanas depois de o mesmo Bayern ter estado, como vencedor diante do Real Madrid, em um outro thriller, 4 a 3, nas quartas de final.

Dois jogadores de futebol do time Paris Saint-Germain comemoram. Um deles, com a camisa número 87 e nome João Neves, está de costas, enquanto o outro, de frente, que é Vitinha, levanta os braços para cumprimentar. O fundo está desfocado, indicando um estádio à noite.
O português Vitinha comemora com João Neves, também volante, o gol do compatriota na vitória do PSG sobre o Bayern na Liga dos Campeões da Europa - Franck Fife - 28.abr.26/AFP

Eu também posso me considerar afortunado, pois assisti a um dos melhores jogos da história. Quisera ter sido não pela TV e sim no estádio, que tive a feliz oportunidade de conhecer meses atrás.

PUBLICIDADE

Não foi em dia de jogo (era intertemporada na Europa), então fiz um tour, em um dia quente e ensolarado do verão francês. O campo vazio tem seu encanto, os assentos sem a torcida parecem ampliar a grandiosidade da arena, que é muito bonita, colorida de vermelho, azul e branco.

Circulei nas proximidades do gramado, tirei várias fotos, havia centenas de visitantes e uma espécie de gincana para as crianças no espaço atrás de um dos gols. Sentei-me nas cadeiras e imaginei como seria fantástico algum dia ver jogadores de alto nível desfilarem o futebol ali, metros à frente.

Vale muito a visita, assim como vale conhecer Roland Garros, palco de um dos Grand Slams do tênis, outra parada minha na Cidade Luz.

Jogadores do Bayern de Munique em campo, alguns com mãos unidas em aplauso, vestindo uniforme vermelho e branco. Estádio com público ao fundo em ambiente noturno.
Harry Kane aplaude os fãs do Bayern quje estiveram no estádio Parque dos Príncipes para ver o épico jogo de 9 gols na semifinal da Champions League - Stephanie Lecocq - 28.abr.26/Reuters

Usei o adjetivo fantástico e o repito: fantástico em uma noite primaveril de clima ameno e seco foi para os 48.853 afortunados que presenciaram "in loco" o espetáculo exibido do começo ao fim pelas equipes francesa e alemã no Parque dos Príncipes. Um futebol majestoso.

(Um parêntesis: o estádio, erguido em 1897 e que é a casa do PSG desde 1974, é assim chamado porque nos séculos 16 a 18 os filhos do rei da França brincavam e caçavam naquela área.)

Uma partida cheia de alternativas, com Bayern na frente, virada do PSG, empate do Bayern, goleada provisória do PSG (5 a 2), reação do Bayern, insuficiente para a igualdade mas suficiente para criar uma expectativa imensa para o confronto de volta, na Alemanha.

Pouquíssimos passes errados, lançamentos precisos, ataques bem articulados, contra-ataques de qualidade, gols em abundância, faltas em falta. Reclamações mínimas à arbitragem, lealdade nas disputas de bola, zero de catimba ou cera. É de sorrir de lado a lado por 90 minutos mais acréscimos.

Dois jogadores do time de futebol vestindo uniforme azul escuro comemoram no campo. Doué está no chão segurando o outro, que é Dembélé e está no ar com expressão de alegria. O fundo mostra parte do estádio e um jogador adversário com uniforme vermelho.
Dembélé, dois gols no 5 a 4 do PSG sobre o Bayern em Paris, abraça Doué depois de fazer o 5º gol da equipe da casa em semifinal da Champions - Alain Jocard - 28.abr.26/AFP

Será que a Libertadores, a "Champions da América do Sul", terá neste ano uma semifinal nesse nível de disputa e de artilharia, com nove gols? Difícil alimentar essa esperança quando, ao olhar para as semifinais de 2025, as mais recentes (Flamengo x Racing e Palmeiras x LDU), todos os quatro jogos somados tiveram um gol a menos que PSG x Bayern.

É necessário voltar cinco décadas no tempo, a 1976, para o nosso primeiro 5 a 4. A Libertadores daquele ano teve, na fase de grupos, um Cruzeiro 5 x 4 Internacional no Mineirão, em Belo Horizonte.

Joãozinho e Palhinha, com dois gols cada um, conduziram a Raposa à vitória contra o Colorado do zagueiro chileno Elias Figueroa e de um jovem Paulo Roberto Falcão, o futuro Rei de Roma. Nelinho, de pênalti, aos 40 minutos do segundo tempo, fez o nono gol dessa histórica partida, vista no estádio Governador Magalhães Pinto por 65.463 pessoas.

Talvez o melhor time que o Cruzeiro já teve, dirigido por Zezé Moreira (1907-1998), depois de enfiar um 7 a 1 na fase semifinal no Alianza de Lima, derrotou o River Plate na decisão, em campo neutro, no Chile, em um eletrizante 3 a 2 (cinco bolas na rede!), com o gol do título, de Joãozinho, a dois minutos do fim.

Dois jogadores do Corinthians, Vampeta e Luizão, correm no gramado com as mãos próximas à boca, comemorando um gol. Ambos vestem uniforme branco com detalhes pretos e o logo da Pepsi na frente. Ao fundo, o gol desfocado.
Vampeta e Luizão (dir.) comemoram no Pacaembu um dos gols do Corinthians no 5 a 4 contra o Olimpia (Paraguai) na Libertadores de 2000 - Fernando Santos - 19.abr.00/Folhapress

Depois, passados 24 anos, no ano que encerrou o século 20, o Corinthians campeão mundial (de Dida, Vampeta, Ricardinho, Marcelinho Carioca e Edílson Capetinha) registraria no estádio do Pacaembu, em São Paulo, mais um 5 a 4, tendo como adversário o paraguaio Olimpia na fase de grupos. Luizão marcou três gols.

E mais recentemente, em 2019, também na fase de grupos, Universidad de Concepción, que ganhou o jogo, e Sporting Cristal, do Peru, repetiram esse placar em partida no Chile.

Ou seja, já conseguimos, o futebol sul-americano, ser páreo com a Champions de hoje. Falta levar esse patamar de emoção, um 5 a 4, para uma fase aguda, para uma semifinal.

Nenhum comentário: