Nestor Goulart Reis Filho foi um dos responsáveis por estruturar o estudo das cidades no Brasil e manteve até o fim da vida uma rotina guiada pelo trabalho e pela curiosidade intelectual.
Fundador do campo disciplinar da história da urbanização no país, o professor teve trajetória indissociável da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, onde ajudou a consolidar o ensino, a pesquisa e a pós-graduação.
Ao longo de décadas, formou gerações de arquitetos e urbanistas e contribuiu para estabelecer uma leitura sistemática das cidades brasileiras, articulando espaço, sociedade e tempo.
Paulistano, filho de um médico gaúcho e de uma mãe mineira de Cataguases, era chamado de Nestor pela família, mas, fora de casa, era simplesmente Professor. A forma de tratamento atravessava ambientes e permanecia mesmo fora da universidade. "Até as cuidadoras o chamavam assim", relata a filha, Renata Monteiro Reis Fávaro.
De bom humor constante, mantinha o hábito de brincar mesmo em situações adversas. Já internado na UTI, respondeu a um médico que lhe perguntou se sabia onde estava: "Sei sim. Estou num estúdio fotográfico. Vamos tirar umas chapas. Mas acho que agora o filme queimou!", disse, no relato da filha, arrancando risos de quem o acompanhava.
Gentil no trato, também sabia ser firme quando necessário. No ambiente familiar, era visto como uma figura capaz de acalmar situações de tensão e conduzir conversas para soluções mais racionais. "Era um pai muito ponderado, que fazia a gente pensar até chegar a uma solução sensata", afirma a filha.
A dedicação ao trabalho era um traço central. Mesmo durante férias, mantinha uma rotina de escrita, frequentemente retomada ao anoitecer, após períodos na praia, de que gostava.
Nos últimos anos, essa relação se intensificou. "O trabalho virou uma obsessão que o mantinha vivo. Tanto que, já no hospital, falava sem parar disso, muito preocupado com o legado", afirma. Segundo ela, ele demonstrou tranquilidade após a visita de uma ex-aluna, a professora Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno, que lhe assegurou que sua produção acadêmica estavam em ordem.
A historiadora, considerada filha acadêmica de Nestor, conviveu com ele por décadas. "Ainda aluna, comecei a trabalhar com ele aos 23 anos. Fiz doutorado direto e nunca mais paramos. Desde 1989", conta.
Foram cerca de 40 livros e inúmeros estudos, com impacto na formulação de políticas de preservação do patrimônio e na compreensão das transformações urbanas no Brasil. A atuação de Nestor também passou por órgãos como o Condephaat e o Iphan (órgãos de patrimônio estadual e federal).
Ele havia completado 95 anos no último d ia 4 de março e estava internado no Hospital Sírio-Libanês quando morreu por complicações da idade. Viúvo de Salette Monteiro Reis, morta há cerca de dois anos, deixa a filha, um neto, uma neta e um bisneto.

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