Tanto se falou da redação parnasiano-dadaísta da Fuvest que tratar dela aqui pode parecer chutar cachorro morto —ou pontapear canídeo fenecido, para usar registro mais próximo do estilo desse clássico instantâneo da língua portuguesa.
Nem tudo foi dito sobre o "Perpassa em altivez, pela procela...". A nota zero dada à peça é justificada, sim, pelas razões expostas nos últimos dias por incontáveis comentaristas profissionais e amadores da língua, que aliás estão de parabéns pelo trabalho. Mas que tal ver ali também um sintoma?
Aquele trololó oco é uma bela caricatura, tão cômica quanto pungente, de certa brasilidade. Radicalização demente de um modo de usar a cultura letrada como ornamento e carteirada social que tem raízes fundas em nossa sociedade de bacharéis, aquela que Machado de Assis e Lima Barreto satirizaram.
Por se confundirem com a lei e a administração pública numa terra que até um punhado de décadas atrás tinha sólida maioria analfabeta, as letras —oratória incluída— sempre tiveram por aqui papel mais de cifrar, impressionar e intimidar do que de decifrar, debater e produzir conhecimento.
Para produzir ofuscamento, o hermetismo da linguagem mais ridiculamente preciosista é uma qualidade. Quanto menos a população entender, melhor —mais aparvalhada e submissa ficará diante do demiurgo capaz de esgrimir tamanho poder.
Este se confunde com o poder propriamente dito, aquele garantido pelas armas, que pode destruir sua vida, confiscar suas posses, jogá-lo na cadeia. Imagine o pavor que isso provoca numa maioria despossuída, filha e neta de despossuídos. Qual é a saída?
Para parte desse grupo, a saída é estudar para adotar o jargão do pessoal de terno e toga e, sendo mais realista que o rei, usá-lo para oprimir em vez de ser oprimido. É a fórmula do mulato pernóstico clássico que João Ubaldo fixou na figura de Amleto em "Viva o Povo Brasileiro".
Os Amletos, claro, reforçam o sistema de exclusão em que a língua, inventada sob o signo do compartilhamento, é empregada como criptografia.
É por isso que a turma que domina o juridiquês jura ter o direito natural de afanar do Tesouro quantos penduricalhos forem suficientes para aplacar sua fome de casta superior —agora com o vergonhoso selo de "legalidade" de um Supremo cambaleante, necessitado como nunca do apoio da corporação.
Nem seria preciso acrescentar que, pelas mesmas razões, aquele poeta-filósofo-asceta genial de Botucatu que destilou o sentido da vida em meia dúzia de livros magros morreu anônimo e na miséria —e de sua obra não se conhece nenhuma linha.
Agora é só cruzar esse velho traço da nacionalidade com o novo ambiente informacional planetário em que cada vez mais tudo é tratado como narrativa, como se não houvesse no mundo nenhuma substância moral ou material fora do âmbito das narrativas, e pronto.
Chegamos ao vácuo cognitivo em que a casca sem recheio do vestibulando faz fronteira com o terço de brasileiros que não acredita que o homem pisou na Lua. Perpassa, realmente. Ô se perpassa.

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