Zumbi dos Palmares é um dos principais símbolos da resistência do povo preto contra a escravidão no Brasil. Há mais de 20 anos, o herói nacional também nomeia uma instituição de ensino criada com o intuito de mudar a realidade dos negros por meio do acesso à educação formal.
Pioneira na América Latina, a Universidade Zumbi dos Palmares surgiu em 2004, em São Paulo, a partir de um desejo coletivo de ver mais pessoas negras conquistando espaços de destaque na sociedade.
Principal responsável pela criação da UniPalmares e atual reitor da instituição, o advogado e ativista José Vicente tem agora sua história contada no livro "O Sol Brilhou à Noite".
A obra, escrita pelo jornalista Ricardo Viveiros e publicada pela editora DisrupTalks, narra a trajetória do menino negro de família pobre do interior de São Paulo que se tornou uma das pessoas mais respeitadas no debate da inclusão racial no Brasil.
Reticente quanto à necessidade de transpor sua história de vida para um livro, José Vicente conta que foi convencido após insistência de Viveiros, seu amigo de longa data.
"Conversando com ele, entendi que minha trajetória traz algumas nuances muito curiosas, que poderiam não só permitir que as pessoas conhecessem como as coisas aconteceram nos bastidores, mas sobretudo até se apropriarem de algumas dessas dimensões em ações futuras", diz ele.
De acordo com ele, a importância do livro é motivar mais pessoas a pensar em alternativas para superar obstáculos criados pela estrutura social. "É como um estímulo para que as pessoas continuem otimistas e acreditando nas suas utopias."
O título da obra, "O Sol Brilhou à Noite", traduz bem essa ideia. O trabalho realizado por ele e pelas pessoas que o acompanharam nesse percurso possibilitou que algo muito improvável se tornasse realidade.
Nascido em novembro de 1959 e filho mais novo de seis irmãos, José Vicente perdeu o pai aos dois anos. Criado pela mãe, Izabel, ele cresceu no morro do Querosene, em Marília, interior de São Paulo. Trabalhou como boia-fria, engraxate e fez bicos como pintor de paredes, até virar soldado da Polícia Militar e se mudar para a capital.
Já em São Paulo, ingressou na faculdade de direito e percebeu que, na instituição em que estudava, apenas ele e outros três ou quatro eram negros. Começou ali a atuar no movimento estudantil.
Anos mais tarde, ao começar uma nova graduação na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, notou que a realidade era quase a mesma, em termos raciais. Essa foi uma das principais motivações para o surgimento da ONG Afrobras, ainda nos anos 1990, que posteriormente serviria de pilar para a fundação da Universidade Zumbi dos Palmares.
Em mais de 20 anos, a instituição já formou cerca de 6.000 profissionais, sendo que 80% deles se declaram negros. "A gente estava falando de uma universidade negra antes mesmo de existirem cotas no país. Isso foi revolucionário e se tornou realidade", diz José Vicente.
Segundo Ricardo Viveiros, o biógrafo, o livro cumpre um papel de documentar todo o trabalho de José Vicente como um registro histórico para o movimento negro. O escritor diz esperar que a biografia também seja lida por pessoas brancas, para que elas conheçam um pouco mais das lutas da população preta.
Viveiros afirma que, mesmo conhecendo o biografado há cerca de 40 anos, o processo de escrita do livro o fez perceber que ainda tinha muito para descobrir sobre o amigo.
"Eu entrevistei muitas pessoas que conviveram com ele ao longo de todo esse tempo. Tem gente de todo tipo, de direita e de esquerda, que conhece e respeita a luta dele, porque o José é uma pessoa de muita esperança e que luta por uma sociedade mais respeitosa."
O livro também traz relatos de personalidades brasileiras sobre o trabalho de José Vicente. Entre as figuras ouvidas estão o presidente Lula e seu vice, Geraldo Alckmin, o ex-presidente Michel Temer, o ministro do STF Luiz Fux, os cantores Martinho da Vila e Netinho de Paula, o sociólogo Edson Santos e o banqueiro Pedro Moreira Salles.

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