domingo, 14 de fevereiro de 2021

'Menudo' de ACM Neto, novo ministro de Bolsonaro tem raízes em PE, ascendeu na BA e busca caminho próprio, FSP

 João Pedro Pitombo

SALVADOR

Com raízes na elite política de Pernambuco, João Roma Neto (Republicanos-BA) chegou ao Congresso Nacional como representante da Bahia pelas mãos de ACM Neto, ex-prefeito de Salvador e atual presidente nacional do DEM.

Nesta sexta-feira (12), pelas mãos do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), foi nomeado para o Ministério da Cidadania, indicando que começará a trilhar um caminho político independente de seu talvez ex-padrinho político.

A nomeação ao ministério, por indicação do comando nacional do Republicanos, foi marcada por rusgas públicas com ACM Neto, acusações de traição e críticas dos oposicionistas, que creem em jogo combinado para chegar à Esplanada dos Ministérios.

O deputado João Roma e o ex-prefeito ACM Neto, presidente nacional do DEM
O deputado João Roma e o ex-prefeito ACM Neto, presidente nacional do DEM - João Roma/Facebook

Chefe de gabinete da Prefeitura de Salvador de 2013 a 2018, João Roma faz parte de um grupo de ex-assessores do presidente do DEM que ascenderam nos oito anos de gestão do prefeito em Salvador, que ficou conhecido localmente como “os menudos”.

Além de Roma, o grupo inclui o atual prefeito de Salvador, Bruno Reis (DEM), e o secretário de Saúde da cidade, Leonardo Prates (PDT).

Os três têm em comum o fato de terem conseguido seus primeiros cargos eletivos com apoio ostensivo de ACM Neto. Nas palavras de um cacique do partido, são políticos que “saíram da costela” do ex-prefeito de Salvador.

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Roma, Reis e Prates fizeram parte do projeto do ex-prefeito de Salvador de formar o seu próprio grupo político. O movimento representou uma mudança geracional dentro do DEM da Bahia e acabou deixando para trás alguns parlamentares mais antigos do partido que perderam parte de suas bases eleitorais.

Mas ao contrário de Reis e Prates, que surgiram na política como assessores diretos de ACM Neto, João Roma vem da burocracia do antigo PFL e trilhou um caminho próprio a partir de Pernambuco.

Sua família tem tradição bicentenária na política: o deputado é descendente de sétima geração do Padre Roma, um dos líderes da Revolução Pernambucana de 1817, movimento de caráter separatista.

O avô do novo ministro, também chamado João Roma, foi deputado federal por Pernambuco três mandados nos anos 1950 e 1960, filiado ao PDS e Arena.

A família perdeu espaço na política pernambucana no pós-ditadura, mas João Roma Neto conquistou seu espaço próprio no PFL. Foi presidente da juventude do partido em Pernambuco nos anos 1990 e chegou a comandar nacionalmente o PFL Jovem em 2003.

Ocupou cargos secundários no governo Fernando Henrique Cardoso e, no início dos anos 2000, foi morar na Bahia, sendo nomeado para chefiar o escritório local da Agência Nacional do Petróleo.

Permaneceu no cargo no início do governo Lula, quando a ANP era chefiada por Haroldo Lima, membro da velha guarda do PC do B da Bahia.

Depois que saiu da ANP, João Roma permaneceu nos bastidores da burocracia do DEM da Bahia até ser nomeado chefe de gabinete de ACM Neto em 2013.

Nos cargos que ocupou, ficou conhecido pela capacidade de articulação política e também por saber agradar quem pudesse ajudá-lo em sua caminhada.

No Congresso, chegou rapidamente à relatoria de projetos importantes e postos de protagonismos em comissões temáticas. Acompanhou Jair Bolsonaro em quase todas as suas agendas na Bahia. Em agosto do ano passado, chegou a viajar para Sergipe para acompanhar o presidente.

Sua filiação ao Republicanos em 2016 fez parte de uma jogada para entrar na disputa pelo posto de vice-prefeito de Salvador na reeleição de ACM Neto.

A disputa interna foi vencida por Bruno Reis, mas o acordo com o Republicanos na época envolveu a permanência de Roma no partido e a promessa de apoio ostensivo de ACM Neto para elegê-lo deputado federal em 2018.

A filiação de Roma ajudou o Republicanos a ampliar sua bancada federal, mas também foi crucial no movimento do partido de diversificar seus quadros e se desvencilhar da pecha de braço político da Igreja Universal do Reino de Deus.

Também pesou na sua escolha para o ministério o fato de a primeira suplente da sua coligação ser a ex-deputada Tia Eron, também do Republicanos da Bahia. Com isso, o tamanho da bancada por partido se manterá inalterada.

João Roma (Republicanos-BA), em sessão da Câmara dos Deputados - Luis Macedo/Câmara dos Deputados

Ao aceitar o posto de ministro, João Roma busca um caminho político próprio, o que pode significar a implosão de sua relação com ACM Neto.

Folha apurou que a ordem é avançar sobre as bases eleitorais que elegeram João Roma e mantê-las sob o domínio do DEM. Neste sábado (13), um dos secretários da gestão do prefeito Bruno Reis que era ligado a Roma, Luiz Galvão, foi exonerado do cargo.

Após a nomeação, ACM Neto afirmou considerar lamentável que João Roma tenha topado chefiar ministério e disse que a decisão o surpreendia por desconsiderar “a relação política e a amizade pessoal” entre ambos.

“Se a intenção do Palácio do Planalto é me intimidar, limitar a expressão das minhas opiniões ou reduzir as minhas críticas, serviu antes para reforçar a minha certeza de que me manter distante do governo federal é o caminho certo a ser trilhado, pelo bem do Brasil”, disse.

Mesmo tendo um aliado em um dos ministérios mais estratégicos do governo federal, a nomeação de Roma representou dois reveses para ACM Neto: um no campo político e outro no da sua imagem.

Ele terá que enfrentar o desgaste de ver um aliado próximo como ministro de Bolsonaro, que possui alta rejeição na Bahia, especialmente em Salvador. Também terá como desafio enfrentar a narrativa de que a nomeação de seu aliado faz parte de um jogo combinado entre ambos.

Por outro lado, caso se sobreponha a tese que houve traição de seu aliado, ACM Neto tende a perder força política dentro do DEM e no campo das oposições ao governo Rui Costa (PT) na Bahia.

A avaliação de aliados é que, se o ex-prefeito de Salvador não conseguiu ter controle nem sobre um aliado tão próximo, dificilmente terá controle pleno sobre o seu partido e sobre o seu grupo político na Bahia.

Para ser candidato ao Governo da Bahia em 2022, conforme é o seu plano, terá que negociar e reforçar as articulações políticas para tentar unificar as oposições.

À coluna Painel, da Folha, João Roma afirmou nesta sexta-feira que precisava “cumprir a missão” do Republicanos de aceitar chefiar o ministério e que está sendo afetado por uma briga entre ACM Neto e o ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

“Ele [ACM Neto] está aborrecido com minha decisão. Estou sendo afetado por uma briga entre Neto e Rodrigo”, afirmou Roma.

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