domingo, 19 de agosto de 2018

A persistência dos dinossauros, FSP


Na política, tolerância e autocontenção são regras a serem observadas


Oskar Lange foi um importante economista dos anos 1930 e 1940. Era também socialista e elogiava Stálin. Seu principal objetivo era estudar em que medida uma economia planejada poderia ser tão eficiente como as economias de mercado.
Em 1938, a Universidade de Chicago contratou Lange, o que não deixou de provocar polêmica. Na véspera da Segunda Guerra, a Rússia era aliada da Alemanha nazista. Chicago, por sua vez, já era liderada por economistas liberais como Frank Knight.
“Não conclua precipitadamente”, dizia Aaron Director, professor na escola que veio a revolucionar a pesquisa em economia embasada pela análise cuidadosa dos dados.
Na mesma época, Winston Churchill redimia seu passado atrapalhado ao liderar a oposição ao nazismo.
Por paradoxal que pareça, Chicago e Churchill demonstraram o melhor da democracia liberal. Deve-se garantir a concorrência entre ideias, como propôs O. W. Holmes, juiz da Suprema Corte Americana.

O ex-premiê britânico Winston Churchill
O ex-premiê britânico Winston Churchill - Reprodução
Existem, porém, regras a serem observadas. Na academia, respeitar a ciência e os dados sem recorrer a estelionatos intelectuais. Na política, preservar a tolerância (os adversários são politicamente legítimos) e a autocontenção (evitar as filigranas da lei para combater a divergência), como ressaltam Levitsky e Ziblatt no livro “Como as Democracias Morrem”.
Nos anos 1990, o PT desrespeitou a regra de autocontenção com dezenas de pedidos de impeachment de FHC. Seu então secretário-geral, Eduardo Jorge, foi vítima de um inaceitável processo kafkiano.
O governo Dilma mascarou as contas públicas, subnotificando R$ 210 bilhões de gastos contratados. A política acirrada resultou no impeachment (legal, ainda que baseado na filigrana da lei).
A campanha deste ano começa com afirmações na contramão das evidências. Ciro Gomes afirma que mais de 50% do Orçamento público se destina aos bancos e que vai renegociar as dívidas de 63 milhões de inadimplentes.
Fernando Haddad propõe uma tributação crescente para reduzir as taxas de juros e intervir na imprensa tradicional. Faltou dizer que o resultado pode ser a redução dos empréstimos para os mais pobres e que a imprensa se encontra nas cordas em tempos de mídia social.
Diagnósticos incompetentes inventaram o Plano Collor, enquanto a intolerância e a falta de autocontenção resultaram na Venezuela destroçada.
Depois da guerra, Lange retornou à Polônia comunista, que até hoje fracassa em conviver com a divergência. A Inglaterra de Churchill continuou democrática, alternando trabalhistas e conservadores por meio do voto.
Em tempos sem Churchill ou a velha Chicago, restam-nos viúvos da ditadura em meio a muitas propostas descabidas.
Marcos Lisboa
Presidente do Insper, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (2003-2005) e doutor em economia.

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