quinta-feira, 30 de julho de 2026

O modo americano de influenciar as eleições brasileiras, Rodrigo Tavares, FSP (definitivo)

 "Não podemos nos dar ao luxo de perder esta. Portanto, não acho que seja o momento de fazer economias. […] Vamos despejar dinheiro nisso." A frase aparece em um memorando de 23 de julho de 1964 do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos, revelando a operação clandestina destinada a favorecer Eduardo Frei nas eleições chilenas.

A fim de descarregar a nação chilena dos maus olhados da esquerda, Washington lavou o igbá da candidatura de Frei com milhões de dólares abençoados. E ele venceu com maioria absoluta.

Em tempos mais recentes, seria difícil surpreender um funcionário americano a retirar das ceroulas um maço de notas e a confiá-lo, entre piscadelas de olhos, ao tesoureiro salivante de uma candidatura. Os novos itinerários são mais decorosos.

Homem com cabelo loiro claro penteado para trás, veste terno escuro, camisa branca e gravata vermelha, olhando para o lado direito em ambiente interno com fundo desfocado.
Presidente Donald Trump durante anúncio de renovação de aeroporto de Washington na Casa Branca - Ken Cedeno - 29.jul.26/AFP

O dinheiro parte de uma agência governamental, atravessa fundações, organizações não governamentais e institutos privados, muda sucessivamente de nome e chega ao destino sob a forma respeitável de consultores, assistência técnica e promoção democrática.

Na Sérvia, em 2000, o Congresso americano destinou US$ 14 milhões aos partidos da oposição e a organizações civis —uma soma providencial canalizada não às claras, mas através da engrenagem oficiosa de organizações intermediárias como o NED (National Endowment for Democracy) e o NDI (National Democratic Institute). Ambas foram fundadas em 1983 durante o governo Reagan.

E sim, organizações e personalidades ligadas à direita brasileira receberam ou recebem dinheiro, serviços, formação e apoio logístico de organizações privadas sediadas nos EUA. Um exemplo é o das redes Atlas e Students For Liberty, amplamente disseminadas pelo Brasil.

Esse apoio não equivale, entenda-se, ao financiamento rasteiro e direto a um partido político. Mas é uma forma de adestrar os quadros, polir as ideias e construir o grande palco onde se encena o debate eleitoral. Além disso, a Gettr, rede social dirigida por um ex-valete de Donald Trump, patrocinou conferências organizadas pelo instituto de Eduardo Bolsonaro que funcionavam como palcos da pré-campanha de Jair Bolsonaro em 2022. Quem escavar, vai encontrar minhoca.

Os Estados Unidos podem também moldar o ambiente emocional de uma eleição, transformando o adversário em um monstro horrendo, uma praga moral, um perigo iminente para a sobrevivência da pátria. Foi isso que Washington fez na Itália, em 1948, ao apresentar a eleição como um combate apocalíptico entre a Civilização Ocidental e o Dragão Comunista.

Antes, faziam-no por meio da mídia, igrejas e rumores; hoje, a feitiçaria opera no éter das redes digitais, onde influenciadores, especialistas e canais financiados do exterior ajudam a definir os temas e a legitimar narrativas.

É precisamente esse mecanismo que a administração Trump acionou contra Lula ao declarar, já em 2025, que o governo brasileiro constitui uma "ameaça incomum e extraordinária" aos Estados Unidos, acusando-o de promover a "perseguição política" a Bolsonaro e descrevendo as instituições brasileiras como responsáveis por uma "deliberada deterioração do Estado de Direito". No mês passado, Marco Rubio afirmou no Senado que o Brasil não é um país amigável e equiparou-o a Cuba e Venezuela.

Ou se execra na praça pública o candidato indesejado, ou se declara indigno e corrupto o próprio sistema de votação. Não seria surpreendente se a administração Trump enviasse ao Brasil um perito de ocasião, encomendando-lhe um relatório alarmista sobre a fragilidade das instituições brasileiras, e servindo a tisana à opinião pública global. Ops, era isso que estava prestes a acontecer.

O governo dos EUA e seus aliados também podem exportar tecnologia política como sondagens milimétricas, grupos de estudo, gabinetes de segmentação e engenhocadas para medir, ao segundo, o bater de coração do eleitorado.

Na Rússia de 1996, hordas de consultores americanos trabalharam nas penumbras para o trôpego Boris Yeltsin, munidos de inquéritos secretos, propaganda clandestina e aparelhos científicos que registravam o impacto de cada gesto e de cada adjetivo na sensibilidade da multidão eslava.

A penetração de gigantes de big data e inteligência —como a Palantir— impõe riscos diretos à soberania eleitoral brasileira. Esta ameaça baseia-se na recolha preditiva de dados e na falta de transparência dos algoritmos das grandes empresas. Ao converterem o eleitorado em mapas de vulnerabilidade psicológica para microtargeting, essas arquiteturas tecnológicas transatlânticas adquirem capacidade para moldar a opinião pública, escapar à fiscalização da Justiça Eleitoral e transferir o poder decisório da soberania popular para os bastidores das corporações estrangeiras.

Há mais. Ser recebido na Casa Branca, aparecer ao lado do presidente americano ou anunciar um acordo internacional durante uma campanha concede a qualquer mortal a figura instantânea de estadista e de parceiro confiável do grande senhor do mundo. Quando Trump recebe Lula, exerce diplomacia; quando recebe Flávio Bolsonaro como candidato presidencial, converte a Casa Branca em capital eleitoral.

Os EUA também influenciam eleições por meio da pressão econômica, oferecendo recompensas a quem favorecem e custos a quem pretendem enfraquecer. Em março de 1996, às vésperas de eleições em Israel, Bill Clinton surgiu de braço dado com Shimon Peres a prometer rios de dinheiro em cooperação antiterrorista.

No Brasil, Trump tentou vincular o tarifaço àquilo que chamou de "perseguição política" a Jair Bolsonaro. O tiro, porém, saiu pela culatra. Em vez de enfraquecer o governo, a ingerência externa deu um novo alento a Lula e atribuiu a Bolsonaro a responsabilidade pelos prejuízos causados ao Brasil. A alma desencarnada do traidor Joaquim Silvério dos Reis, que em 1789 denunciou a Inconfidência Mineira ao governador português da Capitania de Minas Gerais, continua presente entre nós.

Há ainda o expediente de declarar terrorista uma organização instalada no país adversário, convertendo depois esse país em cúmplice, protetor ou santuário da ameaça. A designação não autoriza por si só o uso da força, mas oferece à intervenção o vocabulário da legítima defesa. Foi o que a administração Trump fez em 2026 ao classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras.

A ferramenta mais discreta, porém, consiste em agir por intermédio dos atores da casa. Empresários, igrejas, organizações civis, jornais, acadêmicos recebem dinheiro, informação, contatos ou capacidade organizacional; em troca, oferecem legitimidade doméstica. Se até um Vorcaro qualquer conseguiu cooptar e dobrar jornalistas brasileiros para as suas mesquinhezes, por que carga de água haveríamos de crer que atores estrangeiros não poderão fazer o mesmo?

Depois da derrota de 2022, assessores trumpistas discutiram com o círculo de Bolsonaro como contestar o resultado e transformar a alegação de fraude numa campanha política permanente, provando que, quando faltam ideias para governar a pátria, os comerciantes da política tentarão sempre vender a salvação para o pânico que eles criaram. Entre 2022 e 2026 poderá não haver diferenças.


O ataque dos ‘jabutis zumbis’ editorial OESP

 A resiliência de alguns jabutis no Congresso é impressionante. Algumas dessas emendas – inseridas em projetos de lei sem qualquer relação com o tema original do texto – são derrubadas e voltam como “zumbis”. Por exemplo, há iniciativas que ameaçam as contas de luz há tanto tempo que, muitas vezes, o que muda é apenas o parlamentar disposto a defendê-las.

É o caso do Projeto de Lei 5.017/2019. Destinado originalmente a conceder descontos especiais na tarifa de energia elétrica para irrigação, aquicultura e poços semiartesianos voltados ao consumo humano, o texto foi emendado com um jabuti que obriga a contratar termoelétricas em locais onde não há nem reservas de gás nem gasodutos, além de pequenas centrais hidrelétricas. O custo da brincadeira pode chegar a R$ 1,5 trilhão aos consumidores nos próximos 30 anos, segundo a Associação Brasileira de Grandes Consumidores de Energia (Abrace).

Apresentado na Câmara em 2015, o projeto foi aprovado pelos deputados em 2019 e estava na Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado desde 2021. A inglória missão de relatar o projeto agora coube ao senador Hermes Klann (PL-SC), suplente de Jorge Seif (PL-SC), licenciado do cargo desde o início de maio. Até então um ilustre desconhecido nos corredores de Brasília, o senador Klann assumiu a relatoria no dia 14 de julho. Sem perder tempo, apresentou seu parecer no mesmo dia – que, na verdade, era um texto elaborado por um dos relatores anteriores, o senador Marcos Rogério (PL-RO), já com os jabutis devidamente embutidos nas contas de luz. Rogério, presidente da comissão, prontamente o submeteu ao colegiado, e o texto foi aprovado em votação simbólica – antes da qual, para coroar a chanchada, faltou luz. A pantomima não durou nem dez minutos. Nem senadores da base aliada nem da oposição manifestaram alguma objeção à proposta.

Diante das controvérsias que gerou após ser aprovado na comissão, o texto provavelmente terá de passar antes pelas Comissões de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) e de Assuntos Econômicos (CAE) antes de chegar ao plenário do Senado e voltar à Câmara para uma última análise. Isso pode até atrasar a tramitação da proposta, mas que o leitor não se deixe enganar.

Afinal, como já dissemos neste espaço, é exatamente assim que nascem – e neste caso em particular, ressuscitam – os jabutis. Com algumas atualizações e modificações, essa mesma iniciativa aparece e reaparece na forma de emendas em projetos de lei e medidas provisórias há quase dez anos, especialmente em anos eleitorais, quando o Legislativo costuma aprovar absurdos desse tipo a toque de caixa, abaixo do radar da opinião pública.

No passado, o País já podia recorrer a projetos mais baratos para o abastecimento de energia. Hoje, com o aumento da presença de fontes renováveis no sistema, o cenário é mais desafiador, mas nem por isso justifica a contratação compulsória dessas usinas. Em um mesmo dia, pode haver sobra e falta de eletricidade, de forma que operar o sistema elétrico requer dos órgãos técnicos do setor mais flexibilidade para acionar e desligar usinas e evitar apagões – o oposto do que o projeto do Congresso propõe.

É inacreditável que os parlamentares estejam dispostos a repassar mais esse custo para os consumidores. O governo Lula, por sua vez, não apenas faz vista grossa a essas práticas do Congresso como também compactua com elas. Os leilões de reserva de capacidade realizados em março, que contrataram muito mais usinas que o necessário, são prova disso.

É assim, à base de lobbies e em detrimento da segurança e da confiabilidade do sistema, que o setor elétrico tem operado já há anos. Com energia limpa em abundância, o País tem uma vantagem comparativa única que poderia ser usada como um instrumento para atração de investimentos e para o crescimento da economia. Lamentavelmente, a escolha preferencial tem sido o atraso e a estagnação.

PP, ex-delegado tributário, fecha acordo de delação sobre propinas bilionárias na Fazenda paulista - OESP

 

Foto do autor Felipe  de Paula
Foto do autor Fausto Macedo

O auditor fiscal de Rendas Paulo Sérgio Siqueira do Prado, o PP, fechou acordo de delação premiada com o Ministério Público de São Paulo no âmbito das investigações sobre um esquema bilionário de propinas supostamente instalado em áreas sensíveis da Secretaria de Estado da Fazenda e Planejamento de São Paulo — em troca de altas somas, segundo a investigação, um grupo de fiscais acelerava a antecipação de créditos tributários inflados em favor de gigantes do varejo e do atacado.

O Estadão pediu posicionamento da defesa de PP, mas seus advogados não se manifestaram. A reportagem também procurou o fiscal. Não houve retorno. O espaço está aberto.

Após a homologação do acordo, a Justiça determinou o levantamento imediato do bloqueio e sequestro de bens e de restrições impostas anteriormente a PP, ainda no início das investigações.

Paulo Sérgio Siqueira do Prado fecha acordo de delação premiada sobre propinas bilionárias na Fazenda-SP Foto: Reprodução

Ele se aposentou em 2024. PP não era apenas mais um quadro entre os auditores fiscais da Receita estadual, onde escalou postos graduados e estratégicos. Atuou como inspetor fiscal na Delegacia Regional Tributária da Capital, função para a qual foi designado em agosto de 2014. Depois, já como delegado, ele substituiu Marcelo Bergamasco Silva, em seus afastamentos, na Delegacia Regional Tributária da Capital II - atualmente, Bergamasco exerce a função de subsecretário da Receita de São Paulo.

Delação tem ‘potencial explosivo’

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Nos corredores e gabinetes da Fazenda paulista, fiscais avaliam que a delação de PP tem ‘potencial explosivo’.

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A suspeita de corrupção em larga escala no Palácio Clóvis Ribeiro, sede da Receita estadual, provocou três operações consecutivas dos promotores do Gedec - face do Ministério Público que enfrenta delitos de ordem econômica e corrupção. Em agosto, foi desencadeada a Operação Ícaro, que apontou provável favorecimento à Ultrafarma e à Fast Shop. Depois, a Operação Mágico de Oz e, já em março de 2026, a Operação Fisco Paralelo. Cerca de 40 fiscais estão sob investigação. Por ordem do secretário Samuel Kinoshita (Fazenda e Planejamento), cinco auditores foram demitidos em abril.

A Operação Mágico de Oz é um desdobramento da Operação Ícaro, que investiga fraudes bilionárias envolvendo agentes fiscais e grandes varejistas Foto: MPSP

Paulo do Prado PP foi alvo de buscas dos promotores duas semanas antes do estouro da Operação Mágico de Oz, em março passado. Seu nome despontou na investigação como suposto elo de dois personagens emblemáticos do caso, Artur Gomes da Silva Neto, o ‘King’, e Alberto Toshio Murakami, o ‘Americano’ - este, atualmente foragido, residindo em uma casa avaliada em R$ 7 milhões nos Estados Unidos e com o nome inscrito na Difusão Vermelha da Interpol, o índex dos mais procurados no mundo.

Apontado como mentor do esquema, ‘King’ está preso. Ele chegou a ensaiar uma proposta de delação, suas revelações preencheram 33 anexos, mas o acordo não avançou porque, segundo a Promotoria, omitiu a posse de uma fortuna em criptomoedas.

A investigação mostra que em 2 de abril de 2021, ‘Americano’ avisou ‘King’ sobre a emissão de uma Ordem de Serviço Fiscal referente à Ultrafarma. ‘Precisa emitir e distribuir’, escreveu ‘Americano’, via whatsApp. Artur ‘King’ responde que vai falar com o ‘chefe K’, Kunio Shimada, inspetor fiscal da Delegacia Regional Tributária da Capital III, segundo a Promotoria.

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Em seguida, Artur enviou dados de duas unidades da empresa e contou que pediu a PP uma Ordem de Serviço Fiscal para as três inscrições estaduais da Ultrafarma. ‘Americano’, por sua vez, alerta que precisa receber logo as ordens fiscais porque a farmacêutica terá de retificar as Guias de Informação e Apuração do ICMS - documento digital por meio do qual a pessoa jurídica comunica o Fisco sobre sua produção e seus resultados mensais.

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Segundo a Promotoria, em 26 de abril daquele ano, ‘King’ e ‘Americano’ comentam que PP e ‘chefe K’ atuarão para que os trabalhos de uma empresa tradicional de móveis, decoração e artigos para residência fossem distribuídos ao primeiro. Um ano depois, a rede varejista anunciou o encerramento de suas atividades.

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PP e as reuniões com a contadora do esquema

A extração do conteúdo de celulares de investigados da Operação Ícaro levou a Promotoria a constatar que PP participou de reuniões com a contadora Maria Hermínia de Jesus Santa Clara, a ‘Nina’, apontada como peça chave no esquema bilionário de propinas na Fazenda.

Era ela quem operava a rotina de um escritório de fachada instalado em nome da mãe de ‘King’, uma professora aposentada, de 74 anos, que o filho usava como ‘laranja’. Em 2021, a mãe de Artur declarou R$ 411 mil ao Imposto de Renda. O patrimônio saltou para R$ 46 milhões em 2022 e para R$ 2 bilhões em 2024.

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O reduto servia para ajustes de valores com empresas do varejo e do atacado interessadas em reaver créditos tributários de ICMS-ST em tempo recorde, em troca de gordas ‘comissões’ aos auditores fiscais. Nessa época em que frequentava os domínios de ‘Nina’, PP exercia a função de delegado regional tributário do Butantã (DRTC III).