quinta-feira, 30 de julho de 2026

Vento em SP supera 120 km/h e deixa dois mortos no litoral e no interior - OESP

 Duas pessoas morreram durante os fortes ventos que atingiram o Estado de São Paulo nesta quarta-feira, 29. A informação foi confirmada pela Defesa Civil, que disparou alerta sobre a ventania e ressacas no litoral. As rajadas superaram 120 km/h em alguns pontos do Estado.

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Em Santos, uma pessoa morreu após ser atingida por uma árvore. O município registrou ventos de 83,7 km/h. Outra morte foi registrada em Cesário Lange, no interior. Ainda não há informações sobre as identidades das vítimas.

A ventania paralisou as operações do Porto de Santos e da travessia de balsas entre Santos e Guarujá. A mudança no clima fez com que os banhistas saírem às pressas das praias. Vídeos mostram a ventania sacudindo as árvores e levando faixas e papéis pelo ar.

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Na capital, após o início da ventania dezenas de milhares de imóveis ficaram sem luz e voos foram cancelados no Aeroporto de Congonhas, na zona sul. Em Botucatu, uma árvore caiu sobre a rede elétrica e atingiu um carro, onde estava um casal, que foi resgatado pelos bombeiros.

Segundo a Defesa Civil, em Santos foram registrados ventos de 83,7 km/h
Segundo a Defesa Civil, em Santos foram registrados ventos de 83,7 km/h  Foto: Defesa Civil/Divulgação

O órgão informou que, até as 14h desta quarta-feira, as maiores rajadas de vento foram registradas nas cidades de:

  • Itaporanga-SP: 124.9km/h
  • Itaí-SP: 124.9km/h
  • Itaberá-SP: 104.8km/h
  • Paranapanema-SP: 113.0km/h
  • Taquarituba-SP: 117.0km/h
  • Itanhaém-SP: 111.0km/h
  • Itapeva-SP: 84.6km/h
  • Santos-SP: 83.7km/h
  • Coronel Macedo-SP: 80.6km/h
  • Queluz-SP: 75.2km/h
  • São Caetano do Sul-SP: 71.0km/h
  • Registro-SP: 70.2km/h
  • São Paulo-SP: 69.8km/h

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Baixada Santista

Em Santos, o pico das marés foi de 1,64 metro às 13h40. A Autoridade Portuária de Santos (APS) informou que a navegação no estuário de Santos foi suspensa a partir das 12h45. Uma boia de sinalização do canal de navegação foi deslocada pelo vento e a entrada ou saída de cargueiros voltará a ser permitida após a recolocação da peça.

Na área do porto sob jurisdição da APS, houve a paralisação preventiva das operações na Ilha Barnabé, local especializado em granéis líquidos químicos e combustíveis, que foi retomada às 14h10. Houve várias quedas de árvore, sendo que uma de grande porte caiu no terminal de granéis líquidos do bairro de Alemoa.

Um armazém de uma empresa que opera porto, onde já funcionou uma estrutura da Receita Federal, foi gravemente afetado.

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Antigo armazém no Porto de Santos, que atualmente era usado com estacionamento, caiu devido ao forte vendaval que atingiu a cidade de Santos, no litoral paulista.
Antigo armazém no Porto de Santos, que atualmente era usado com estacionamento, caiu devido ao forte vendaval que atingiu a cidade de Santos, no litoral paulista. Foto: Fernanda Luz/Estadão

A travessia de pedestres entre Santos e o distrito de Vicente de Carvalho (Guarujá) também parou devido aos ventos fortes. As operações serão retomadas somente após a cessação da ventania.

Litoral Norte

Em Ilhabela, no litoral Norte de São Paulo, as equipes da Defesa Civil estão mobilizadas para o atendimento de quedas de árvores em diferentes pontos da cidade.

Os fortes ventos provocaram o rompimento de poitas - peso fixo usado no fundo da água para segurar barcos - de algumas embarcações fundeadas no canal. Com isso, as embarcações ficaram à deriva e acabaram sendo levadas para praias e encostas em diferentes pontos do município.

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A ventania deixou barcos à deriva no Canal de São Sebastião.
A ventania deixou barcos à deriva no Canal de São Sebastião. Foto: Prefeitura de Ilhabela/Divulgação

Já o serviço de balsas entre São Sebastião e Ilhabela foi suspenso às 13h50 devido à ventania.

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Alerta

A Defesa Civil de São Paulo enviou, nesta quarta-feira, dois alertas severos por celular à população diante das fortes rajadas de vento no avanço da frente fria sobre o Estado. O primeiro foi disparado às 13h para os municípios do litoral, de Itanhaém a Ubatuba. Por volta das 14h, o alerta foi enviado para a capital paulista e região metropolitana.

De acordo com o porta-voz da Defesa Civil do Estado, Maxwel de Souza, as condições previstas já provocam impactos em diferentes municípios. “Os ventos que nós tínhamos previsto já chegaram. O Gabinete de Crise segue mobilizado. Seguimos reunidos e continuamos respondendo aos chamados”, afirmou.

Na noite de terça-feira, 28, a Defesa Civil estadual já havia alertado para a chegada de uma nova frente fria, com previsão de chuvas fortes e intensas rajadas de vento entre esta quarta e quinta-feira, 30, em todo território paulista. Diante do cenário, foi ativado o gabinete de crise para reforçar o monitoramento e dar rápida resposta a eventuais ocorrências.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Quatro razões para descartar 'Sapiens' como guia sobre evoluçã, FSP

 Reinaldo José Lopes

São Carlos (SP)

Fazia tempo que eu queria reler "Sapiens", livro do historiador israelense Yuval Noah Harari que acabou virando a maior referência pop sobre evolução humana em boa parte do mundo. Faz mais de uma década que tive contato com a obra pela primeira vez, quando Harari ainda não era o superstar em que acabou se transformando, e me recordo com clareza do gosto de cabo de guarda-chuva na boca ao terminar a leitura. Havia várias coisas esquisitas e questionáveis ali.

Como a popularidade dos livros dele não dá sinais de arrefecer tão cedo, e como a nova leitura que fiz confirmou a sensação estranha original e me ajudou a organizá-la na cabeça, achei que poderia ser útil explicar porque é preciso encará-lo com muitos grãos de sal. Em suma, se você quer dar um livro sobre a trajetória evolutiva da nossa espécie para um adolescente curioso, talvez seja melhor não presenteá-lo com "Sapiens".

Homem calvo com óculos e terno escuro ajusta a gola da camisa com a mão direita. Fundo com parede de tijolos e luminária pendente iluminando a cena.
O escritor israelense Yuval Noah Harari durante uma feita de livro em Frankfurt, na Alemanha - Kirill Kudryavtsev - 17.out.24 /AFP

Falemos, primeiro, do quadro geral. Quatro fatores principais me fazem ficar com muitos pés atrás diante da obra de Harari. E o estranho é que eles até pareceriam, à primeira vista, ser contraditórios entre si. Nossos Quatro Cavaleiros do Apocalipse Sapiens são: 1) simplificação excessiva; 2) repetição de exemplos ad nauseam; 3) uma certa volúpia da especulação desvairada; 4) uma alergia preocupante a citar fontes e à atualização.

Sobre o item 1, é claro que a simplificação é inevitável num livro de 400 e poucas páginas que começa no surgimento dos hominínios (o grupo de primatas mais específico ao qual a nossa espécie pertence) e vai até o século 21. Quem tenta adotar esse olhar amplo sobre a trajetória humana precisava fazer escolhas e condensar –o problema é achar o equilíbrio entre esse processo necessário e o risco de tornar a história contada tão mais simples, mas tão mais simples, que ela começa a perder a relação com a realidade.

Isso, aliás, dialoga bastante com o item 4. Harari estrutura sua narrativa em torno de três supostas grandes revoluções (a Revolução Cognitiva que nos fez seres simbólicos, a Revolução Agrícola que aumentou nossa população e complexidade social e a Revolução Científica). Mas são raros os momentos em que ele deixa claro que essa estrutura –em especial no que diz respeito às duas primeiras revoluções– é uma hipótese, e não um fato.

Por conta disso, claro, temos o seguinte grande problema: essa visão já estava ficando muito ultrapassada quando da publicação original do livro (no começo da década passada). E ficou ainda mais ultrapassada com o passar dos anos, em especial no abismo que Harari enxerga entre seu herói Homo sapiens e os demais tipos de hominínios.

Em nenhum momento ele parece ter feito algum esforço para atualizar o livro levando isso em conta, e quase não temos ideia, no texto, das fontes que usou. (A primeira metade do livro recapitula em quase tudo um clássico dos anos 1990, "Armas, Germes e Aço", de Jared Diamond, mas eu só sei disso porque li o livro anterior, e não porque Harari deixa isso claro.)

Para um livro que precisava resumir tanta coisa, o autor israelense repete exemplo atrás de exemplo para elucidar conceitos aparentemente simples, como o de "pessoa jurídica" ou de comunidades imaginárias (o item 3 da lista). Isso é irritante, mas talvez seja um pecado menor perto do item 4.

No final da obra, Harari faz uma espécie de trailer de seu livro seguinte, "Homo Deus", defendendo a ideia de que a humanidade está a caminho de adquirir uma longevidade "divina". (Graças a Deus, na época a febre da IA ainda não existia.) A especulação come solta, sem qualquer tentativa, por parte do autor, de tentar entender os limites impostos pela própria biologia humana aos planos mais mirabolantes para alterá-la de forma significativa.

Em suma, como dizia um querido editor com quem trabalhei, no livro o que é bom não é novo e o que é novo não é bom. Considerem-se avisados.

Reinaldo José Lopes
Reinaldo José Lopes

Autor do blog Darwin e Deus, sobre ciência e religião, e especialista em história do catolicismo

Convencional, filme sobre Ignácio de Loyola Brandão revela fascínio, FSP

 

Não Sei Viver Sem Palavras

  • Quando Estreia qui. (30) nos cinemas
  • Classificação 12 anos
  • Produção Brasil, 2025
  • Direção André Brandão

O cinema brasileiro deste século viu a proliferação dos documentários, um pouco pelo sucesso crítico e comercial de Eduardo Coutinho, um pouco pelas facilidades, ou menos dificuldades, de orçamento e editais.

Um filão compreensivelmente prolífico do gênero é o retrato biográfico de alguém ligado às artes, vivo ou morto, seja escritor, músico, cineasta ou coisa que o valha.

Passeando pelas memórias e escritos de Ignácio de Loyola Brandão, "Não Sei Viver Sem Palavras", dirigido por seu filho, André Brandão, é um filme bem mais quadrado do que a obra do escritor. E, quando procura algum desvio, fica sempre ameaçado de sair dos eixos.

O escritor Ignácio de Loyola Brandão em Berlim, em 1982 - Acervo pessoal

Loyola é colocado numa cadeira no centro de uma praça ou na plataforma de uma estação ferroviária. Quando é filmado de frente, todo o fundo fica fora de foco, de acordo com a atual moda de sonegar do espectador boa parte do espaço fílmico. Quando é filmado lateralmente, vemos o fundo perfeitamente.

Muitas fotos são mostradas no decorrer do documentário biográfico. Belas fotos, históricas, contam muito do passado. A não ser quando é inserido um efeito que coloca movimento dentro delas. Desvio, indesejável deformação. Conta muito do mundo contemporâneo.

O filme é, em grande parte, subordinado aos escritos de Loyola, às palavras sem as quais ele não sabe viver. Essas palavras podem nos levar a antigos filmes familiares em super-8, aos filmes que ele amava —de Fellini, Luiz Sérgio Person ou Anselmo Duarte—, ao nascimento de seu filho, às tenebrosas memórias da ditadura militar ou até a um passeio de carro por Araraquara, cidade onde nasceu.

O longa começa na abstração, com a captação, bem de perto, da correnteza de algum rio. Depois, uma cachoeira —porque "cinema é cachoeira", dizia Humberto Mauro, numa ideia já muito repetida do cinema como um fluxo. Bons momentos são alcançados quando os escritos do autor são narrados em voz off e ilustrados com imagens da natureza ou de filmes familiares.

Em conversas captadas ou recuperadas pelo filho, Loyola fala de suas próprias obras. Do livro que escreveu a partir de uma temporada em Berlim, "O Verde Violentou o Muro", de 1984. Da formação intelectual e dos enfrentamentos com a ditadura militar.

Fala de seus maiores sucessos, como o livro "Zero", de 1975, censurado pelo regime militar e publicado só em 1979 no Brasil, ou "Não Verás País Nenhum", de 1981, que se passa numa São Paulo do futuro, onde coisas estranhas acontecem. Fala também de seu romance incompreendido, "Dentes ao Sol", de 1976, seu preferido e o que menos vendeu.

Passa ainda por sua faceta de crítico de cinema. E pelas relações com seu pai e com seus filhos, e até mesmo pela possibilidade de "não repetir o pai", conforme o filho e diretor questiona, num interessante jogo entre pai e filho.

Nos créditos finais, são mencionados os trechos usados de seus escritos, os filmes que tiveram trechos usados ou foram adaptados de suas obras, como "Anuska, Manequim e Mulher", de Francisco Ramalho Jr., baseado num conto do livro "Depois do Sol". Poderiam ter mostrado "Bebel, a Garota Propaganda", de Maurice Capovilla, inspirado no seu primeiro romance, "Bebel que a Cidade Comeu".

Loyola afirma que gostaria de ter sido diretor de cinema. Fazer crítica de cinema era caminhar um pouco na direção desse sonho. Calhou de ser escritor, mas na vida de um criador, acumular frustrações é algo normal. Aquele que não as tem, quis pouco, provavelmente.

Uma ideia que fica perdida e merece ser resgatada é o entendimento de que a literatura é movida, entre outras coisas, por um certo desejo de vingança. É interessante, porque o escritor pode tudo, inventa o mundo de acordo com seus desejos e pode projetar desafetos em alguns personagens.

No cinema, isso também pode acontecer. E num filme feito por um filho sobre o seu pai, não há como ignorar um certo desejo de vingança. Não porque esse filho não goste do pai, mas porque ao criar o filme, ele detém, ou deveria deter, o controle sobre a imagem do pai.

O diretor é o filho. O pai pode interromper um depoimento com um determinante "agora chega". Mas o filho escolhe o que vai mostrar e o que vai sonegar do espectador. O filho decide encher de música o filme, as notas brigando com a voz do pai. Os erros e acertos são de André Beltrão.

Se há uma fraqueza clara em "Não Sei Viver Sem Palavras", é o fato de ser convencional até nos excessos, como vários outros documentários biográficos que vimos nos últimos anos.

A força também é evidente: deixar transparecer o fascínio da arte de Ignácio de Loyola Brandão e sua contribuição para a literatura brasileira do século 20.