terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Inflação, discurso velho, petróleo novo e golpe de Bolsonaro, nada ajuda Lula, VTF FSP

 Luiz Inácio Lula da Silva tem feito campanha para que se explore petróleo na bacia da Foz do Amazonas, no mar que fica diante do Amapá e da Ilha de Marajó, no Pará. Quase metade dos brasileiros (49,7%) é contra, 16,5% são indiferentes, 20,8% pensam como o presidente.

E daí? Nem nesse assunto, em tese lateral em termos políticos, o discurso de Lula está colando. Não quer dizer que iniciativas de governo devam se curvar, ponto a ponto, a desejos imediatos ou ideias circunstanciais da população.

Apenas se observa que nem aí Lula faz pontos na pesquisa MDA para a Confederação Nacional do Transporte (CNT). O presidente tem procurado falar ainda mais nas escolas, nas ruas, campos, construções, em rede nacional ou em rádios locais. Vai colar?

Um homem de cabelos grisalhos e barba, vestido com um terno escuro e uma gravata clara, está olhando para o lado. O fundo é desfocado, com outras pessoas em trajes formais visíveis, mas não claramente definidas.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva - Gabriela Biló/Folhapress

Para 60,1%, os discursos de Lula são "desatualizados e repetitivos" (para 32%, "atualizados e propositivos"). Não parece ser assim porque Lula tenha muitos anos de vida. Para 43,6%, a idade do presidente não é relevante; para 17,3%, dá a vantagem da experiência (quase 61% contra o "etarismo", pois). Tem algo mais aí.

Para 64,8%, Lula "não merece" um quarto mandato. Para 62%, o governo está "no rumo errado". Para 44,5%, o governo "está pior" do que o de Jair Bolsonaro (para 36,4%, "está melhor").

Na pesquisa MDA/CNT de novembro de 2024, o governo Lula era melhor do que o do capitão das trevas para 41% (ante 36% dos que preferiam os tempos de Bolsonaro). Em janeiro de 2024, Lula ganhava por 48% a 29%.

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O que houve de tão desastroso em um ano? Inflação apenas não explica. A pesquisa MDA/CNT foi feita entre 19 e 23 de fevereiro, com 2.002 entrevistas e margem de erro de mais ou menos 2,2 pontos percentuais.

Lula ou seu governo são culpados pela inflação por 41% do eleitorado (ou estão entre os responsáveis para mais de 51%). Comerciantes são responsáveis para 5,3% —na semana passada, Lula culpou "intermediários" que "assaltam" o povo pela carestia dos combustíveis. As expectativas quanto a emprego, renda, segurança e até saúde, serviço que muda devagar, pioraram.

O Datafolha havia revelado o desmoronamento da popularidade presidencial. A pesquisa MDA/CNT mostra detalhes das ruínas. Lula é "ruim/péssimo" para 44% (31% em novembro) e "ótimo/bom" para 29% (35% em novembro). Chegou aos níveis de desprestígio de Bolsonaro.

Por falar na personagem, talvez o processo do golpe não cause tanto estrago assim no capitão da extrema direita: 31,7% dizem nunca ter ouvido falar da denúncia por acusação de golpe etc. Outros 39,7% ouviram falar "superficialmente" do assunto.

O caso não parece ter causado muito interesse ou escândalo. Ainda assim, 63,4% são contrários à mudança na Lei da Ficha Lima, uma tentativa de livrar Bolsonaro das penas de seus crimes.

Já houve reviravoltas grandes nas taxas de aprovação de governos. Fernando Henrique Cardoso saiu de 8% de "ótimo/bom" em outubro de 1999, depois da grande desvalorização do real, para 33,3% em março de 2001.

A marca mais baixa de Lula na pesquisa MDA/CNT havia sido em junho de 2004 (29,4% de "ótimo/bom"). Em agosto de 2006, com mensalão, com tudo, foi a 43,6%, na boca da campanha eleitoral.

Sim, não havia desgastes de três mandatos, envelhecimento de ideias, palavras ou ações, redes sociais e onda mundial de direita ou "polarização".

Os benefícios da intervenção estatal nos setores monetário e financeiro, Bernardo Guimarães- FSP

 É fácil ficar desanimado com o funcionamento do Estado. Bilhões de reais do nosso dinheiro são capturados por emendas parlamentares e destinados a redutos eleitorais. Regras sobre o FGTS e subsídios do BNDES parecem servir aos interesses da construção civil e da indústria. A cada oito anos, discutimos uma nova reforma da Previdência. E ainda tem o Judiciário.

É natural perguntar: para que tudo isso? Não seria melhor acabar com esse enorme aparato estatal?

Recentemente, libertários têm ganhado força política. Esse grupo defende o fim da intervenção estatal na economia e acredita que o mercado poderia fazer muito do que está nas mãos do Estado. Muitos acreditam, por exemplo, que não precisaríamos de moeda e de Banco Central.

Começo pela parte com que eu concordo. Sim, reduzir o escopo da intervenção estatal em várias áreas da economia traria benefícios.

Pesquisa acadêmica já cansou de mostrar que em países menos desenvolvidos há muitas intervenções estatais que geram entraves à produção e aos negócios.

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Além disso, dinheiro grande atrai lobbies e interesses e é difícil evitar que intervenções massivas na economia (como o BNDES e o FGTS) sirvam a interesses de grupos organizados (como a indústria e a construção civil). Em vários casos, a economia como um todo perde com essas intervenções. Esse é um assunto frequente desta coluna.

Contudo, em muitos outros campos, os benefícios da intervenção estatal superam os custos. Exemplos importantes envolvem a moeda e o setor financeiro.

Um homem de cabelos grisalhos e bigode, vestido com um terno escuro e uma gravata vermelha, está sentado em uma cadeira enquanto fala em um microfone. Ele gesticula com a mão direita, expressando suas ideias. Ao fundo, há uma tela azul com o texto 'Política Industrial: um novo' parcialmente visível.
Aloizio Mercadante, presidente do BNDES, no seminário Política Industrial, no auditório da Folha - Jardiel Carvalho - 26.nov.24/Folhapress

Bancos Centrais emitem moeda e mantêm seu valor razoavelmente estável. A inflação de 5% no Brasil preocupa, mas é pequena se comparada às flutuações (para baixo e para cima) no valor da moeda quando o ouro era o meio de troca. Essas flutuações geravam muita instabilidade macroeconômica.

Muitos acreditam que mantendo constante o estoque de moeda —por exemplo, usando criptomoeda— teremos sempre inflação perto de zero e estabilidade macroeconômica. Isso está errado. Com inflação anual em um dígito, a relação entre movimentos no estoque de moeda e inflação anual é muito baixa.

Além disso, a política monetária nos ajuda a amortecer choques econômicos. Quando a economia vai mal, o Banco Central pode manejar os juros para estimular a atividade, mesmo que isso cause um pouco mais de inflação.

Bancos Centrais pelo mundo têm feito um bom trabalho para garantir estabilidade macroeconômica. Empresas privadas não gerariam nada disso.

Além disso, o setor financeiro requer regulação, porque uma crise localizada pode contagiar a economia toda. Nesse caso, o governo usaria dinheiro público para apagar o incêndio. Então é preciso evitar crises, e para isso é preciso limitar a ação de instituições financeiras —incluindo criptomoeda aí.

Libertários, em geral, discordam. A receita libertária prevê deixar os bancos quebrarem –e essa ameaça evitaria o problema no início. Isso, porém, nunca funcionou. Mesmo no Chile de Pinochet, promessas de que o governo não socorreria bancos quebrados se mostraram vazias na hora do aperto.

Como dizia H. L. Mencken, todo problema complexo tem uma resposta que é clara, simples e errada.

Definir o escopo da ação do Estado é um problema complexo, cheio de respostas simples e erradas, nos dois extremos.

Deirdre Nansen McCloskey - Os advogados são o problema?, FSP

 Ambos os nossos países são governados principalmente por advogados. É melhor do que se fossem governados por soldados, como o Egito. Os soldados não gostam de diálogo ou discussão. Os advogados adoram. Um governo de diálogo é muito melhor para o florescimento humano do que um governo de ordens.

Os seres humanos evoluíram no sudeste da África em pequenos bandos de caçadores-coletores com menos de 20 pessoas. Os caçadores-coletores prezam a liberdade de expressão e de ação. Para usar o vocabulário de três itens do grande Albert Hirschman, num pequeno grupo é fácil dar "voz" às opiniões ou, se isso não funcionar, "sair". Isso é liberdade.

Mas os humanos também desenvolveram uma "lealdade" contrária a um líder carismático, o sujeito que gosta de comandar sem discutir. Agora mesmo, nos EUA, Donald TrumpElon Musk e companhia estão testando o modelo de comando. Reze para que o porrete de comando, o Exército, não se envolva. Os brasileiros sabem como isso funciona.

Donald Trump com boné onde se lê "Trump estava certo sobre tudo" - Jim Watson/AFP

Mas e os economistas? Certamente meus amados colegas são a solução para equilibrar os advogados faladores e talvez até os generais fortões, hein? Teremos engenharia social, que há um século os economistas afirmam que podem entregar em detalhes.

Você sabe o que vou dizer: depende de quais economistas. Muitos, desde Keynes, acreditam que uma sociedade de 211 milhões ou 335 milhões de almas é facilmente estruturada por economistas especializados. Eles são os parceiros perfeitos para os generais, ou pelo menos para os chefes eleitos. É por isso que a economista estatista Mariana Mazzucato é tão popular entre os políticos brasileiros. E é por isso que o economista estatista Joseph Stiglitz elogiou durante tanto tempo a destruição de cima para baixo da Venezuela por Chávez e Maduro.

É melhor recrutarmos os economistas que não acreditam em milagres de previsão e controle —milagres alegremente assumidos como fatos diários no Banco Central ou na divisão antitruste do Ministério da Justiça. Os poucos economistas liberais-essenciais acreditam, em vez disso, que a maior parte do conhecimento sobre o que você quer comer no almoço, ou qual computador é melhor para seu escritório, ou que quantia e tipo de dinheiro você prefere, está localizada onde você está, não em Brasília ou Washington. Quando esse tipo de economista começa a trabalhar, como o grupo de desregulamentação de Milei na Argentina, a liberdade de falar ou sair se expandirá, e os perigos autoritários da lealdade ao Estado, como as tentativas prepotentes de fazer os brasileiros se calarem, diminuirão.

Os advogados, quando não estão trabalhando para os autoritários, falam sobre justiça. Justiça é uma virtude que olha para trás, retrospectiva. Ela pergunta: é justo que Jair Bolsonaro seja preso por seu comportamento passado? A prudência é uma virtude prospectiva. Ela pergunta: como podemos impedir futuras ameaças a "Ordem e Progresso"? Os economistas são especialistas em prudência. Você não pode entender a economia se não perceber que ela tem tudo a ver com o futuro, não com o passado.

Mas precisamos de justiça e prudência. Precisamos de advogados e economistas não autoritários.