quarta-feira, 5 de julho de 2023

Estudo investiga provas de vida após a morte em médiuns e reencarnação, FSP

 

SÃO PAULO

Já aos dois anos, Otto tinha comportamentos "que não eram da sua idade", conta sua mãe, a acupunturista Erika Pissarra, 34. "Como andar com as mãos para trás e dizer que gostaria muito de tomar cervejinha", exemplifica. A sogra comentava que esses hábitos pareciam com os de seu pai, o bisavô do menino, morto muitos anos atrás.

Poderia ser apenas uma idiossincrasia, mas outros eventos pasmaram a família. Aos três anos, observando o céu, Otto perguntou se a avó se lembrava de quando o homem foi à Lua pela primeira vez. Aí falou com muita naturalidade: você era bebezinha na época. Ela nasceu em 1969, ano em que a Apollo 11 aterrissou na superfície lunar.

Outro capítulo convenceu sua família de que o garoto era a reencarnação de Walter, o antepassado. Mais uma vez ao lado da avó, Otto viu um avião e quis saber se ela recordava da vez em que ele havia pilotado um teco-teco com os dois a bordo. "Só aí minha sogra nos contou que, quando pequena, seu pai tinha levado ela para andar naqueles aviões pequenos."

Relatos como o de Erika muito interessam ao Nupes (Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde), da Universidade Federal de Juiz de Fora. O grupo acadêmico investiga a possibilidade da mente humana sobreviver ao perecimento do corpo físico —abordagem científica para uma das questões mais centrais para as sociedades desde seus primórdios, se existe vida após a morte.

Erika Pissarra, 34, e o filho Otto, 6, que quando bebê relatou memórias do bisavô morto - Karime Xavier/Folhapress

Fundador do Nupes, o psiquiatra Alexander Moreira-Almeida lança agora, junto com a também psiquiatra Marianna Costa e o filósofo Humberto Schubert Coelho, um livro que compila décadas de pesquisas sobre o tema. "Ciência da Vida Após a Morte" saiu globalmente pela Springer Nature, importante editora de periódicos científicos.

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O trio se propõe a analisar "com perspectiva cética saudável" evidências que apontem para a continuidade da consciência humana depois da morte corporal. Um conceito, para os autores, rechaçado no meio por puro preconceito.

A religiosidade motiva a alergia à ideia. Ela contamina o debate, já que as principais crenças do mundo, cada uma à sua maneira, acreditam na premissa. E não pegaria bem para ilustres cientistas se mancomunarem com preceitos da ordem da fé.

Seria uma aposta desmesurada no fisicalismo, a teoria de que tudo se circunscreve ao mundo físico. Ou seja, nossos pensamentos e desejos —o que definimos como mente, e certas religiões chamam de alma— nada mais são do que atividades cerebrais.

Não são poucos os cientistas que aderem a essa premissa. O físico Sean Carroll escreveu na Scientific American, outra publicação de peso na área, "A Física e a Imortalidade da Alma".

Argumenta no artigo que afirmações sobre a persistência de alguma forma de consciência depois que nossos corpos se decompõem são incompatíveis com as leis da física. "De que partículas essa suposta alma é feita? Que forças as mantêm unida?"

A obra brasileira questiona por que tanta pressa em descartar toda e qualquer suposição sobre a morte não ser o fim de tudo. Claro que um monte delas não passa de fraude, e outras são perfeitamente explicáveis por fenômenos psicossociais, como a predisposição de pais enlutados a endossar a leitura genérica de um dito médium sobre o filho perdido.

São três campos principais de estudo: mediunidade, reencarnação e as EQM (Experiências de Quase Morte).

O caso de Otto, hoje com 6 anos, encaixa-se no grupo de pessoas que afirmam ter memórias de vidas passadas. A maioria são crianças pequenas, que na medida em que crescem deixam para trás recordações, maneirismos e até línguas estrangeiras que conseguiam falar, mesmo sem nunca terem tido qualquer contato prévio com elas.

Um pioneiro levantamento nacional, sob guarida do Nupes, recolheu 402 depoimentos de adultos e 30 de crianças e adolescentes que dizem ter tido experiências correlatas.

Um caso narrado vem da Tailândia: o menino que, espontaneamente, dizia ter sido um professor que morreu com um tiro enquanto ia de bicicleta para a escola. Investigação mostrou que o garoto conseguiu nomear corretamente o nome do docente, assim como os de seus pais, esposa e filhos. Gente que morava numa aldeia distante dele, sem qualquer conexão com sua vida.

A metodologia começa por excluir hipóteses possíveis: acaso, falcatrua ou mesmo percepções extrassensoriais que atestariam um poder descomunal da mente, mas não necessariamente seriam a prova cabal de vida póstuma. Vai que ele tinha o dom da clarividência ou da telepatia e conseguia acessar histórias íntimas dos outros?

Embora elucidem parte dos casos, em muitos outros "explicações convencionais certamente não dão conta do conjunto das evidências", diz Moreira-Almeida.

Supomos que a criança tailandesa telepaticamente absorveu conhecimento sobre o professor assassinado. Mas ela também possuía, descobriu-se depois, duas marcas de nascença compatíveis com a entrada e a saída da bala no corpo do morto. Exemplos afins se repetem.

Experiências de quase morte, as EQM, são um capítulo à parte. Podem partir de indivíduos em estágio terminal ou que foram declarados clinicamente mortos e ressuscitaram. As descrições costumam se parecer: sensação de se observar de um ângulo externo (como ver médicos tentando reanimar o coração), visões de túnel ou luz brilhante, encontro com parentes mortos e sentimentos de paz.

São casos que ganharam menção na Lancet, prestigiada revista científica. Como o da mulher que, para uma neurocirurgia, teve o corpo resfriado a 16°C, ouvido tapado com fone, fita nos olhos e uma linha plana no exame que detecta atividade cerebral.

Feita a operação, ela reproduziu em detalhes o que passou no dia, da broca usada para furar seu crânio à voz feminina dizendo que suas veias eram pequenas.

A mediunidade, terceiro tronco do estudo, seria o dom de se comunicar com os mortos. Para os autores, "se seriamente considerada, essa tese sobre ‘a aparição dos mortos’ faria da ressurreição de Cristo a maior história de fantasma de todos os tempos".

De novo, o que vale são exemplos à prova de rigoroso escrutínio da ciência. Leonora Piper (1857-1950) se enquadra aqui. Para checar se a médium americana era pra valer, William James, o chamado pai da psicologia americana, acompanhou-a por anos a fio.

Um dos experimentos contou com 25 pesquisadores que, usando pseudônimos, consultaram-se com Piper. Ela forneceu informações corretas de assuntos privados de cada um, sem nunca tê-los visto antes.

James escreveu, convencido da veracidade daquele transe mediúnico: "Se você deseja desafiar a lei de que todos os corvos são pretos, você não deve tentar mostrar que nenhum corvo o é; basta provar que um único corvo é branco. Meu próprio corvo branco é a sra. Piper".

Nunca houve comprovação consistente de fraude contra ela. O mesmo vale para Chico Xavier (1910-2002). Já em sua primeira obra psicografada, "Parnaso de Além-Túmulo", o mineiro, que estudou até o ensino fundamental, produziu poemas atribuídos a gigantes como Augusto dos Anjos, morto anos antes.

Monteiro Lobato chegou a dizer que, se Xavier fosse um embuste como médium, como escritor poderia estar em qualquer Academia de Letras. Os versos eram coisa de outro mundo.

Elio Gaspari - Lula vai se acertar com a Europa, FSP

 Lula exagerou na dose quando chutou o balde ao atacar as restrições que a Comunidade Europeia quer impor a compras de produtos agropecuários da Amazônia e do cerrado brasileiro. As restrições foram concebidas para um país que tinha uma diplomacia inerte. Países se relacionam com países, não com governos. Até as pedras sabiam que um boicote às exportações de grãos e carnes estava na esquina e o governo de Pindorama prestigiava, por palavras e atos, a facção agrotroglodita do seu empresariado.

Desde agosto do ano passado, sabia-se que os grãos e a carne brasileira poderiam vir a sofrer restrições para entrar na Europa. Tratava-se, entre outras coisas, de antecipar de 2030 para 2025 a meta de desmatamento zero no cerrado, de onde sai o grosso das exportações de grãos. Saiu uma recomendação para que a partir de 2024 não se comprem produtos colhidos em áreas desmatadas depois de 2020.

O presidente Lula com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, no Palácio do Planalto - Gabriela Biló - 12.jun.23/Folhapress

Se esse assunto for entregue a um terceiro secretário recém-formado pelo Instituto Rio Branco, ele entregará em poucos dias uma planilha capaz de orientar uma negociação para desfazer o enrosco. Se o assunto ficar como está, na pura marquetagem, os interesses que estão do outro lado, comovidos, agradecerão.

Dizer que o Brasil protege suas matas é repetir o discurso de Bolsonaro, copidescado pelo tenente-coronel Mauro Cid. Denunciar o gesto da União Europeia como protecionismo, além de chover no molhado, legitima artificialmente o pleito de quem busca a proteção. A soja francesa é bastante subsidiada e é mais fácil recolocar os Bourbons em Versalhes do que levar um presidente francês a brigar com seus agricultores. O problema é que, mesmo subsidiada, falta competitividade internacional a essa produção.

O negociador brasileiro pode escolher dois caminhos. No primeiro, Bolsonaro e Lula (até agora) cantaram o Hino Nacional. Como lá os hinos são outros, o efeito será nulo. O outro é baixar a bola, começando a conversar.

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Na sua passagem por Paris, Lula disse que "não é possível que haja uma carta adicional fazendo ameaças a um parceiro estratégico". Possível é, tanto que elas estão aí. Também é possível negociá-las, mas isso deve ser feito numa mesa, não num palanque.

Na Comunidade Europeia, como no Brasil, a defesa do meio ambiente está na agenda política dos governantes. O governo de Bolsonaro não disse uma só palavra enquanto a ameaça estava no forno. O governo de Lula nada tem a ver com seu discurso e não se conversa com a linguagem usada até agora.

Não há dúvida de que o agronegócio brasileiro (noves fora os agrotrogloditas) pode se entender com a Comunidade Europeia. É apenas uma questão de tempo. Lula poderia ter começado a tratar desse assunto na sua viagem à COP27, realizada no ano passado no Egito. Não há registro de que isso tenha acontecido. Nos dias em que lá esteve, reiterou seu compromisso com o meio ambiente.

O discurso neobolsonaresco dos últimos meses é um tiro no pé, pois, a partir dele, qualquer concessão parecerá recuo, e limitações estão implícitas na própria plataforma eleitoral do atual governo.

Itamaraty e o agronegócio brasileiro têm quadros suficientes para sentar com os europeus em busca de um acordo. A conta do impasse não é de Lula, a menos que ele atravesse a rua para escorregar nele.

Quase Trump, quase Bolsonaro, Ruy Castro - FSP

 Ele é um pregador antivacina, adepto de teorias da conspiração e militante do ódio. Quer ver todo mundo armado e sua especialidade são mentiras, documentos falsos e acusações sem prova. Bolsonaro? Quase. É também hidrofobamente contra remédios e receitas médicas. Se eleito para a Casa Branca em 2024, ameaça fechar de vez a fronteira com o México. E promete salvar os americanos da "desesperança em que vivem hoje". Donald Trump? Também não. É Robert Kennedy Jr., 69 anos, pré-candidato à Presidência dos EUA —pelo Partido Democrata, pode crer.

Para muitos, é difícil ligar esses espasmos de extrema direita republicana ao nome Kennedy. Robert Jr. é sobrinho de John Kennedy, presidente assassinado em 1963, e, claro, filho de Bobby Kennedy, senador e também assassinado em 1968. Os Kennedy eram charmosos e liberais, uma espécie de família real da Guerra Fria, ainda mais se comparados aos dirigentes soviéticos embrulhados naquelas peles de urso.

Mas, desde então, muita coisa feia se descobriu sobre os anos Kennedy. Bobby, por exemplo, não era tão liberal nem charmoso quanto se pensava. Foi advogado de Joe McCarthy, o profissional da histeria anticomunista que levou centenas de pessoas à desgraça nos anos 50, e nunca se retratou por isso. Como secretário da Justiça do irmão, pôs em risco a legitimidade das organizações operárias nos EUA. Ignorou enquanto pôde a causa negra e, assim como John, apoiou a escalada inicial que levaria à carnificina no Vietnã. Robert Jr., como se vê, tem a quem puxar.

É verdade que Bobby, pouco antes de morrer, melhorou muito. Passou a combater o militarismo americano, a discriminação racial, a Máfia, a poluição. No Rio, em 1965, abraçou um ensaboado Pelé no vestiário do Maracanã. E, morto tão jovem, aos 42 anos, ainda teve gás para produzir 11 filhos.

Um deles, pela lei das probabilidades, tinha de ser Robert Jr.