sexta-feira, 9 de abril de 2021

RUI BARBOSA DA ROCHA - Projeto de ferrovia e porto na Bahia exporta desperdício, FSP

 Rui Barbosa da Rocha

Diretor-presidente do Instituto Floresta Viva

Com uma população mundial caminhando para 8 bilhões de pessoas e a demanda por recursos naturais crescendo anualmente, não é de se estranhar que projetos grandiosos de infraestrutura sejam vistos como fundamentais para promover o fluxo de mercadorias e de bens primários, notadamente no Brasil, África e Ásia.

Em Ilhéus, em 2008, o governo da Bahia anunciou um complexo logístico inspirado nesta lógica das grandes oportunidades das commodities minerais e agrícolas –o Complexo Porto Sul.

Para gerar riquezas e reduzir o custo Brasil, a solução foi conceber algo que, infelizmente, irá destruir o que está no caminho e ignorar o que já existia de infraestrutura e planejamento existentes. O desperdício vira produto de exportação.

Bolsonaro em visita às obras da Ferrovia de Integração Oeste-Leste, em São Desidério, na Bahia - Alan Santos - 11.set.2020/PR

Quando o projeto conceitual do Porto Sul foi apresentado à sociedade no final de 2007, ainda timidamente, e depois com muita propaganda, a partir de 2009, a promessa era gerar 30 mil empregos e alavancar o desenvolvimento do sul da Bahia, do semiárido e do cerrado brasileiro.

De Figueirópolis, em Tocantins, a Ilhéus, na Costa do Cacau, uma ferrovia de integração Oeste-Leste associada a um porto offshore e a uma mina em Caetité dariam o fôlego bilionário para impulsionar o desenvolvimento baiano e brasileiro.

Um aeroporto fazia parte do hub logístico idealizado, atraindo assim os interesses do polo de informática e do turismo regional. O desenho pareceu convincente e contemporâneo, lógico, pertinente.

Desde 2008, no entanto, alertas da academia e da sociedade civil chamaram a atenção para o erro grosseiro daquele projeto conceitual, que seguiu para uma fase executiva, sem escutas verdadeiras. Muitas audiências públicas e licenças ambientais concedidas validaram o caminho das empreiteiras, com recursos superdimensionados pela Valec. A ferrovia, entre Caetité e Ilhéus, romperia mais de 500 km de terras rurais com comunidades tradicionais e fazendas, em nome da exportação do minério de ferro e, eventualmente, da soja do oeste baiano.

O desperdício, marca deste projeto logístico, é emblemático para uma era da humanidade no qual todas as evidências recomendam a cautela e o uso criterioso dos recursos cada vez mais escassos do planeta.

O minério de ferro, por exemplo, ainda abundante em muitas jazidas espalhadas pelos cinco continentes, tem maior viabilidade quando os custos de produção são baixos, o que se verifica nas grandes jazidas de alto teor de ferro. Carajás é o nosso melhor exemplo.

No caso da Bamin, detentora da mina Pedra de Ferro, no alto sertão baiano, uma jazida com perspectiva de exploração de 20 anos atraiu o estado brasileiro para promover a Fiol, deixando ao largo a Ferrovia Centro Atlântica, que passa a 70 km em linha reta da mina, em direção ao melhor ambiente portuário do Brasil, a Bahia de Todos os Santos.

O desperdício seguiu desconsiderando um destino turístico muito promissor, a Costa do Cacau, entre Ilhéus e Itacaré, que em 1998 pavimentou a BA-001 com recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). A estrada, uma rota turística brasileira, é celebrada por oferecer praias encantadoras no meio da Mata Atlântica mais biodiversa do Atlântico Sul.

Áreas de proteção ambiental, como a Lagoa Encantada, são vitimas da Ferrovia Oeste-Leste e do Porto Sul, que rasgam suas matas e invadem o leito do litoral piscoso de Ilhéus, conhecido como Cannion do Almada. A região, tema de muitos livros de Jorge Amado e Adonias Filho, atrai 500 mil turistas todos os anos, vindo de todos os cantos do mundo. A pesca, base da alimentação regional, sustenta o trabalho de 5.000 pessoas nesta zona pesqueira.

Os rios e mananciais de água presentes no alto sertão, escassos e preciosos para as comunidades rurais e urbanas de lá, seguem para o rio São Francisco ou para o Rio de Contas, nas áreas hoje cobiçadas pelas empresas de mineração. Mas a Ferrovia Oeste-Leste segue até o Rio Almada e a Lagoa Encantada, tentando alcançar o litoral pelo Porto Sul, que se efetivado afetará diretamente 20 km de costa, com manguezais e restingas abundantes nesta costa.

A Bahia é carente de investimentos, especialmente de infraestrutura urbana e rural. Com muitas comunidades de agricultores familiares e empresários rurais em muitos setores, o estado depende de esforços sábios para usar recursos escassos que chegam com muito esforço neste território.

No entanto, usar estes recursos e orientar investimentos que degradam o meio ambiente, afetam a economia dos lugares e a sociedade que ai vivem, soa fora de época e de sentido, nesta era apocalíptica. A vida pede passagem, e não o desperdício, a morte.

Ruy Castro A quadrilha chamada Brasil, FSP

 Parabéns, Jair Bolsonaro, você conseguiu. Pária é pouco. Campeão disparado da Covid, o Brasil é hoje o pior lugar do mundo. Aos olhos internacionais, somos vistos com revolta, repugnância e medo, como nem nos tempos pré-Oswaldo Cruz, em que éramos sinônimos do tifo, da peste bubônica e da febre amarela. Somos agora o último reduto da pandemia, 215 milhões de bombas humanas, potenciais exportadores da morte.

Os vizinhos já nos batem a porta na cara, e isso é só o começo. Em breve, não teremos mais para onde ir, suspeitos de estar levando cepas inéditas, de nossa exclusiva lavra. Por enquanto, essa repulsa do estrangeiro se refere apenas a nós, cidadãos brasileiros, com nossos perdigotos e resistência à máscara. Mas não será surpresa se o medo de contágio incidir sobre nossos produtos, quem sabe infectados, e o mercado também se fechar para eles.

E quem permitirá que seus cidadãos desçam aqui, mesmo a negócios —a turismo, esqueça—, e voltem para casa contaminados? Pode-se circular por um país que se supera todo dia em contágios e óbitos e, em breve, não terá oxigênio para os doentes nem espaço nos cemitérios? Cemitérios, aliás, que já funcionam 24 horas por dia, enquanto a vacinação se regula pelos relógios de ponto, com hora para pegar e largar. Não por falta de quem aplique as vacinas, mas das vacinas mesmo, de cuja "demanda" se duvidava.

Mas o principal motivo da repugnância por nós é a certeza de que o problema não se resume a um demente no poder. Envolve também os cúmplices e complacentes, aqueles que o garantem no cargo —generais que babam à sua presença, magistrados que votam por ele, bilionários que o aplaudem, ministros de Estado covardes, inclusive o da Saúde, políticos pilantras e os vadios que lotam festas.

Não fazemos parte dessa quadrilha. Mas, para quem nos vê de fora, essa quadrilha se chama Brasil.


PEDRO DORIA A indústria digital está em xeque, FSP

 Este ano é um ano de transformação para a indústria digital. A mudança não é uma – são muitas. Nenhuma é de novo aparelho, revolução em software, inovação de qualquer sorte. Mas enquanto as fábricas de automóveis estão empacando mundo afora por conta de falta de microchips, centenas de bilhões de dólares se acumulam em ilhotas no Canal da Mancha e gigantes ainda pairam na península logo abaixo de San Francisco – o Vale do Silício – tudo pode mudar.