quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Eleitor deve estar atento às escolhas para o Senado - FSP

 

Fernando Haddad Moura e Matheus Miranda

Respectivamente, diretor-executivo e gerente de estratégia da Legisla Brasil

Historicamente, a atenção dos eleitores à disputa pelo Senado Federal é inversamente proporcional à responsabilidade que a Casa Alta tem para com o país.

Em 2018, último ano em que tivemos duas vagas em disputa por estado, mais de 63 milhões de votos para o Senado ficaram em branco ou foram anulados (quase metade do total). Estão aqui computados os casos de eleitores que chegaram às urnas sem saber que precisavam escolher duas candidaturas para o mesmo cargo, votando duas vezes no mesmo candidato ou não preenchendo o segundo voto. Para a Presidência da República, 11 milhões de pessoas anularam ou deixaram o voto em branco —número cinco vezes menor.

Vista do plenário do Senado Federal, em Brasília - Jonas Pereira - 21.nov.23/Agência Senado

Em 2026, é possível que esses números sigam a mesma tendência. Pesquisa da Quaest de agosto mostra que, próximo ao início das campanhas, 66% dos brasileiros não sabiam que poderiam votar em dois senadores. O desconhecimento vem de antes: 75% dos brasileiros não conseguiram citar espontaneamente o nome de nenhum senador em exercício, de acordo com pesquisa do Datafolha deste ano.

Há razões para esses números. O desenho para a escolha de senadores destoa de todos os cargos eletivos nas nossas eleições. Presidente e governador captam a atenção pelo peso que o Executivo tem no presidencialismo brasileiro. Deputados, por sua vez, estabelecem vínculos mais diretos com municípios e pautas, estando mais próximos do eleitor. No meio do caminho, estão os senadores. Eleitos para oito anos, disputam eleições majoritárias, mas não têm o poder da caneta do Executivo; representam seus estados, mas não estão próximos da realidade local. Na cabeça do eleitor, acabam em segundo plano.

Durante muito tempo, essa lógica também pareceu orientar os partidos. Em 2022, Marcos Pontes (PL), eleito senador por São Paulo, recebeu pouco mais de R$ 4 milhões do partido para sua campanha, menos de 60% do limite estabelecido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Esse valor não é tão distante dos R$ 3 milhões que candidatos a deputado federal do mesmo partido receberam naquele ano.

Entretanto, em 2026, o comportamento partidário mudou. André do Prado, candidato do PL para o Senado de São Paulo, já recebeu R$ 6 milhões, valor 43% maior do que o destinado para o seu antecessor em 2022 e próximo do teto de gastos de R$ 7,1 milhões estabelecido pelo TSE. Sua opositora Simone Tebet recebeu um montante ainda maior do PSB: R$ 6,5 milhões.

Como nunca antes, o Senado está no centro da estratégia eleitoral dos partidos. Nacionalmente, o PL já destinou R$ 79 milhões para as candidaturas do Senado, valor cinco vezes maior do que no último ciclo eleitoral, enquanto o PT já aumentou o repasse em 36%. Governo e oposição escalaram lideranças de projeção nacional na disputa pelas 54 cadeiras. Em São Paulo, a base do governo reuniu duas ex-ministras, Simone Tebet e Marina Silva, na disputa pelas duas vagas do estado.

Essa mudança de peso parece vir do cálculo político. Os últimos anos mostraram como o Senado têm o potencial de mudar radicalmente os rumos do país. Em um intervalo de apenas uma década, os senadores derrubaram a primeira mulher presidente da República por crime de responsabilidade e, pela primeira vez desde 1894, não aprovaram a indicação de um presidente para o Supremo Tribunal Federal (STF).

Em meio ao maior escândalo financeiro de nossa história, com investigações que envolvem 6 dos 10 atuais ministros do STF, esse poder projeta dimensões ainda maiores. A nova legislatura pode definir não só eventuais processos de impeachment contra esses nomes como também votará pela aprovação da indicação de ao menos três novos integrantes da corte.

Neste ano, 54 das 81 cadeiras estarão em disputa. Os resultados que veremos nas urnas definirá a composição majoritária da Casa para os próximos oito anos e será uma das variáveis centrais da relação entre Executivo, Congresso e Supremo. Os partidos parecem já ter entendido isso. O eleitor, pelos dados disponíveis, ainda não.

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