Sempre que a direita radical avança, avançam também os sábios de plantão, munidos das suas três soluções para conter a besta.
A primeira é ilegalizar a legenda radical. Na Alemanha, essa é uma discussão recorrente em torno da AfD. Se não conseguimos derrotá-la nas urnas, não seria melhor derrotá-la na Corte Constitucional?
É uma tentação compreensível: os sábios acreditam que, banida a AfD por sentença, seus eleitores agradecerão a gentileza e voltarão serenamente para casa.
A segunda solução é o "cordão sanitário": nenhum diálogo, nenhum entendimento, nenhuma aliança com eles.
À primeira vista, é uma atitude nobre. A história alemã oferece razões suficientes para desconfiar da velha esperança de domesticar os radicais convidando-os para a sala de jantar.
Mas não chega: acreditar que o "cordão", por si só, faz desaparecer o problema é uma forma elegante de pensamento mágico, capaz de conquistar crianças de todas as idades.
Finalmente, a terceira solução é copiar. Os partidos moderados devem adotar o discurso e as políticas dos radicais, esvaziando assim seu apelo.
Funciona menos do que se imagina. Em política, como em outros ramos do comércio, a imitação costuma ser uma excelente propaganda do original.
De todas essas soluções, quase ninguém pensa numa quarta: tentar responder às causas profundas que alimentam esses fenômenos dentro do próprio liberalismo democrático.
Quase ninguém, vírgula: Andrés Velasco, ex-ministro das Finanças do Chile, acaba de publicar um ensaio que deveria ser leitura obrigatória para sábios de todas as ideologias: "Stopping the Far Right’s Rise".
Para começar, Velasco contesta a ideia de que a explicação seja essencialmente econômica. E há um argumento evidente a seu favor: a direita radical contemporânea não tem sequer uma economia política comum. A ortodoxia fiscal de Milei, o protecionismo de Trump e o estatismo de Marine Le Pen dificilmente cabem no mesmo programa.
Vale lembrar, além disso, que alguns dos casos mais importantes de sucesso da direita populista são muito anteriores à crise financeira de 2008 e surgiram em países ricos e com níveis de desigualdade relativamente modestos: Dinamarca, Noruega, Áustria, Suíça ou Países Baixos.
É sobretudo na segurança e nos limites à imigração que se encontra o sucesso dos radicais, especialmente na Europa, afirma Velasco. Por quê? Porque os partidos tradicionais, em particular os liberais de centro-esquerda e de centro-direita, não sabem muito bem o que fazer com esses temas.
Eis o ponto central do autor, que raramente vejo discutido: o liberalismo sente um desconforto intelectual diante da segurança e da imigração porque ambas põem à prova alguns de seus dogmas.
Comecemos pela segurança. Em seu DNA, a tradição liberal sempre desconfiou da autoridade do Estado, procurando impedir os abusos do poder contra os direitos dos indivíduos.
Mas os abusos não vêm apenas do Estado, lembra Velasco, alargando um pouco os horizontes da ortodoxia liberal. Quem se preocupa com a liberdade dos indivíduos precisa se preocupar também com os abusos da criminalidade e da violência física descentralizada.
Sem paz e segurança —o inestimável dueto de Thomas Hobbes—, é quase supérfluo falar de liberdade. Ela pode existir nas Constituições, nos códigos, nos discursos. Se não existir na prática, torna-se até um insulto cínico para quem experimenta na pele as agruras do "estado de natureza" —geralmente, os cidadãos mais pobres.
A imigração coloca para os liberais um problema ainda mais delicado. Todos os indivíduos têm a mesma dignidade moral e, portanto, devem se beneficiar dos mesmos direitos fundamentais?
A resposta liberal só pode ser afirmativa: o universalismo é incompatível com o sectarismo étnico, racial ou religioso.
Mas Velasco lembra que não é preciso navegar nas águas da xenofobia para discutir imigração.
Uma sociedade democrática é, na conhecida formulação de John Rawls, um sistema de cooperação entre cidadãos livres e iguais. Reconhecer a igual dignidade moral dos indivíduos não obriga, porém, negar às comunidades políticas a possibilidade de estabelecer regras de entrada, integração e pertencimento.
No fundo, o ensaio de Andrés Velasco é um apelo à imaginação política liberal. Durante muito tempo, o liberalismo aperfeiçoou uma teoria dos limites da autoridade: quando o Estado deve recuar, que direitos não pode violar, que poderes não lhe pertencem.
Talvez esteja na hora de pensar também no problema inverso: quando a autoridade precisa ser exercida para proteger a própria liberdade.
Porque, na ausência do exercício legítimo da autoridade, sobra um pequeno inconveniente: nos temas que mais doem, os radicais não têm concorrência.

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