William Mendes
Quem produz uma embalagem? A indústria. Quem vende? O comércio. Quem compra? O consumidor. Mas quem costuma ficar com a conta quando essa embalagem vira resíduo? Em boa parte das nossas cidades, a resposta é conhecida: o poder público, o meio ambiente e, principalmente, as populações mais vulneráveis. Não se trata apenas de um problema de lixo, mas de justiça ambiental.
O PL Recicla visa alterar a Lei Municipal 17.471/2020 sobre logística reversa em São Paulo. O projeto parte justamente da necessidade de melhorar a rastreabilidade das embalagens e a qualidade das informações sobre os materiais colocados no mercado.
A proposta traz para o centro do debate uma questão que deveria ser básica em qualquer estratégia moderna de sustentabilidade: não é possível administrar aquilo que não conseguimos medir e acompanhar.
E medir não pode se resumir a contar toneladas recicladas no final da cadeia, mas ter um olhar para todo o processo —da produção às perdas e ao financiamento da recuperação. Essas questões também são de ESG.
Durante anos, muitas empresas trataram sustentabilidade como uma questão de reputação. Publicaram relatórios, estabeleceram metas e anunciaram compromissos. Tudo isso tem valor. Mas as ações de ESG precisam produzir efeitos positivos concretos na vida das pessoas. E é justamente na ponta mais vulnerável que essa discussão ganha outra dimensão.
Catadores e cooperativas são importantes na recuperação dos resíduos, mas frequentemente trabalham em condições precárias e recebem uma parcela diminuta do valor gerado por uma cadeia que depende diretamente de seu trabalho.
Ao mesmo tempo, comunidades de menor renda são, muitas vezes, as que convivem com maior exposição ao descarte irregular, enchentes, poluição e deficiência de infraestrutura urbana.
Não é razoável que quem menos se beneficia da produção e do consumo seja justamente quem mais suporte seus impactos. Por isso, fortalecer a logística reversa pode ser muito mais do que uma política ambiental, mas também de inclusão social e produtiva e, em suma, uma ação regenerativa completa.
Recursos provenientes das cadeias produtivas podem ajudar a estruturar cooperativas, melhorar equipamentos, ampliar capacitação, gerar trabalho e renda e aumentar a recuperação de materiais. A tecnologia deve melhorar a rastreabilidade deste processo.
O poder público pode, por sua vez, fiscalizar e estabelecer regras. Às empresas, cabe, então, assumir sua parcela de responsabilidade. E o consumidor pode fazer sua parte, mas cada ator precisa responder pelo que efetivamente controla, porque responsabilidade compartilhada não significa responsabilidade diluída.
Se uma empresa coloca milhões de embalagens no mercado, não pode transferir toda a responsabilidade pelo destino delas para o cidadão, porque, apesar de ter responsabilidades, não é ele quem decide o desenho da embalagem, o material utilizado, a escala de produção ou a estratégia de distribuição.
A transição para uma economia circular precisa corrigir essa assimetria para, realmente, caminhar em direção à justiça ambiental.
Não basta pedir ao cidadão que separe o lixo. É preciso construir um sistema em que separar faça sentido, com estrutura para recuperar os materiais e com a participação efetiva daqueles que colocam esses produtos no mercado, financiando e organizando essa cadeia. O desafio é transformar resíduos em valor ambiental, econômico e social.
Essa pode ser uma das grandes oportunidades do ESG brasileiro: fazer com que a sustentabilidade deixe de ser apenas um indicador corporativo e passe a ser percebida no território, gerando renda, inclusão e melhoria da qualidade ambiental.
No final, talvez a pergunta mais importante não seja "O consumidor está reciclando?", mas sim, "Quem produziu? Quanto produziu? Quem se responsabilizou? Quem recuperou? Quem ganhou? E quem ficou com a conta?".
Se queremos uma economia verdadeiramente circular, essas respostas precisam fazer parte da mesma história, porque sustentabilidade não significa apenas produzir de forma diferente, mas distribuir de maneira mais justa os custos, os benefícios e as oportunidades de um novo modelo de desenvolvimento.

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