terça-feira, 22 de setembro de 2026

Helena Ignez enaltece São Paulo e a cordialidade entre as pessoas - FSP

 Vicente Vilardaga

São Paulo

A atriz e cineasta Helena Ignez está radiante. Vê agora o bairro onde vive, em torno da praça da República, ser considerado um dos 40 mais legais do mundo pela revista inglesa Time Out. Ela concorda plenamente com a escolha. Musa do cinema novo e marginal e incansável trabalhadora, foi agraciada com o título de Cidadã Paulistana em 2007, o que só fortaleceu sua ligação histórica com São Paulo.

Morando a maior parte do tempo na cidade, em um prédio na rua Nestor Pestana comprado há 24 anos, Helena, que nasceu em Salvador e foi casada com o diretor Glauber Rocha, não consegue mais encontrar um porto tão seguro em outro lugar. Adora passear pela região e se comove com a cordialidade dos paulistanos.

"O que me atrai em São Paulo é a intensa vida cultural, as ruas, a circulação de gente e os encontros, que são o tema de todos os meus filmes", diz. "A cidade me deu uma resposta amorosa logo que vim para cá. O meu edifício é um encanto e todo mundo se cumprimenta. É algo que não vejo no Rio."

A atriz Helena Ignez em seu apartamento em São Paulo, no final de 2022
A atriz Helena Ignez em seu apartamento em São Paulo, na rua Nestor Pestana, no final de 2022 - Rodrigo Sombra/Divulgação

Helena chegou a São Paulo em 2001, no fatídico dia 11 de setembro. Veio para trabalhar na Secretaria de Cultura da cidade a convite do diretor do departamento de Formação Cultural, Antônio Sartini, na gestão de Marta Suplicy. Era a primeira vez que tinha carteira assinada. Também atuou na peça "Antiga", de Dionísio Neto. Passou um ano em hotéis, mas, em 2002, encontrou seu apartamento, financiado pela Caixa Econômica e pago em 17 anos.

Sua carreira se reativou e ela embalou outros trabalhos, como a peça "Os Sete Afluentes do Rio Ota", de Robert Lepage, dirigida por Monique Gardenberg com longa temporada na cidade. Ainda assim alternava sua vida entre São Paulo e Rio de Janeiro, onde ficava sua residência principal e estava o segundo marido, o cineasta Rogério Sganzerla. Ele, porém, adoeceu em 2003 e, em busca de melhores condições de tratamento médico, deixou o Rio. Ficou oito meses morando no apartamento com Helena, até falecer em janeiro de 2004.

Musa do cinema marginal, Helena protagonizou o filme "Cara a Cara" (1967), de Júlio Bressane - Divulgação

Ela já havia passado um bom período na capital paulista no final dos anos 1960, quando atuou nos filmes "O Bandido da Luz Vermelha" e "A Mulher de Todos", dirigidos por Sganzerla, e trabalhou no espetáculo "Hair". Lembra-se desse momento como muito cansativo. Também destaca a intensa vida noturna da cidade e o trânsito caótico. Um de seus locais preferidos para se divertir era a rua Sete de Abril. Em 1970, voltou ao Rio para trabalhar na lendária produtora do cinema marginal Belair, que o marido havia criado com o cineasta Júlio Bressane.

Hoje, Helena se acostumou com o trânsito paulistano, que a afeta pouco porque ela não dirige. Opta pelas caminhadas, principalmente pelo Copan, onde frequenta a livraria Megafauna e restaurantes como o Bar da Dona Onça. Gosta também do Nutrisom, hoje chamado Apfel, no viaduto Nove de Julho. Quanto aos problemas do centro, ela é econômica.

"Meu apartamento é pequeno, mas tem uma varandona. Em geral, é bem silencioso, mas teve uma obra aqui perto que durou três anos e algumas vezes o barulho me incomodou bastante", afirma. "Acho que a região evoluiu, mas ainda há muito a ser feito, principalmente em relação à população de rua."

Helena e Paulo Villaça contracenam em "O Bandido da Luz Vermelha" (1968), de Rogério Sganzerla - Divulgação

Aos 87 anos, Helena não para. Brilha atualmente na 74⁠ª "Ocupação Itaú Cultural", que homenageia sua vida e obra. Ao mesmo tempo, está em cartaz com a peça "Fim de Partida", de Samuel Beckett, dirigida por Rodrigo Portella. A montagem passou por São Paulo, rodou o Nordeste e está em temporada no Rio. Além disso, atua no curta-metragem "Des-criação", dirigido pelo genro André Guerreiro Lopes, e trabalha em uma nova montagem de "Savannah Bay", de Marguerite Duras, marcada para estrear em outubro.

Para o ano que vem está prevista a rodagem do longa-metragem "Dora", com roteiro de sua autoria elaborado durante dois anos. Ela conseguiu recursos do ProAC (Programa de Ação Cultural) do governo paulista. A personagem principal é inspirada na dançarina Luz del Fuego. O filme terá locações em São Paulo e em Iguape, no sul do estado, e abrangerá o período pré-1964.

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