Em bom rigor, eu não queria escrever sobre as eleições no Brasil; mas escrevi um livrinho sobre guerras culturais ("Hipocritões e Olhigarcas: Passado e Futuro das Guerras Culturais", que saiu há uns meses no Brasil pela editora Tinta da China) e o que aconteceu esta semana no Brasil parecia quase um fim alternativo para ele.
Vocês sabem do que eu estou falando: Flávio Bolsonaro anunciando que iria decretar como primeiro ato da sua Presidência que "o Brasil é do senhor Jesus" e o incômodo que ela causou, em setores católicos e não só, pela plausibilidade de que isso pusesse em causa o estatuto de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil.
No livro eu deixei uma definição prática de guerra cultural que operava em três eixos: um acontecimento que polariza a sociedade; construído em torno de narrativas, identidades e valores; de grande intensidade emocional.
O que ficou de fora é verdadeiro impacto econômico e social do evento: ele pode ser nulo ou modesto, pode até não mudar nada na vida das pessoas que estão febrilmente empenhadas na guerra cultural, que isso não determina a importância da guerra cultural.
Do ponto de vista material, muito mais importante é a tecnologia associada à difusão da guerra cultural. Não por acaso, algumas das guerras culturais mais memoráveis estão associadas a revoluções comunicacionais que lhes ampliaram em muito o impacto.
O primeiro exemplo estudado é o de Lutero e da imprensa. Em si, o tópico que levou o jovem teólogo alemão a insurgir-se contra a igreja de Roma —a compra de indulgências por parte dos fiéis— não tinha uma dimensão econômica tão grande quanto isso; o protesto que Lutero lavrou nas suas 95 teses poderia ter passado despercebido não fosse a invenção recente da imprensa que o espalhou rapidamente em panfletos e cartazes aos milhares pela Europa fora.
Foi aliás quando vi uma imagem circulando nas redes que punha Lula e figuras do imaginário católicos ao lado de Nossa Senhora Aparecida contra um campo onde pontificavam Flávio Bolsonaro, Donald Trump, Javier Milei e outros, com Lutero acima deles, que decidi que esta coluna tinha de sair.
Na base de qualquer estratégia vencedora numa guerra cultural está a construção de maiorias: ao posicionar os interesses dos fiéis alemães contra os da Igreja de Roma, Lutero construiu maiorias identitárias no seu tempo.
Quando se diz uma frase aparentemente inócua como "o Brasil é do senhor Jesus", tenta criar-se uma maioria de cristãos contra não cristãos. O que aconteceu na desmontagem dessa frase foi a criação de outra maioria: católicos, sim, mas também fiéis de outras religiões, ateus e até evangélicos não autoritários defendendo a ideia de um Brasil mais festivo e convivial.
O conteúdo dessa última conflagração na guerra cultural brasileira é tão específico que não dei conta de que tenha sido muito falado no exterior. Mas o mundo teria muito a aprender se tivesse prestado atenção: cada guerra cultural é uma tentativa de construir maiorias, e vimos aqui como no mesmo povo, com o mesmo eleitorado e a mesmas identidades, basta uma mudança sutil na construção de narrativas para se formarem maiorias alternativas com valores por vezes opostos.

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