sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Distorções acumuladas desgastaram a imagem do Supremo Tribunal- Frederico Vasconcelos -FSP

 A divulgação do relatório da Polícia Federal sobre a promiscuidade de Daniel Vorcaro e ministros do Supremo Tribunal Federal desafia os analistas do retrocesso institucional.

Em 24 horas, André Mendonça, tido como o ministro que ameaçaria o pacto de impunidade, virou vidraça.

"O que fizeram ministros do STF e o PGR nos últimos verões para nos ajudar a mostrar como e por que André (Mendonça) está errado?", pergunta o colunista da Folha Conrado Hübner Mendes.

Dois homens vestidos com trajes pretos formais sentam lado a lado. O homem ao fundo, calvo, segura um papel e olha para frente com expressão séria. O homem à frente está desfocado, olhando para baixo.
Ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes em sessão no STF - Pedro Ladeira - 3.set.26/Folhapress

"Quando prestaram contas, ouviram críticas, tentaram atenuar excepcionalismos e resgatar alguma normalidade regimental?"

Em editorial em que recomenda a renúncia de Moraes, a Folha diz que não há muito o que esperar da PGR. "O procurador Paulo Gonet, que descaradamente pediu a nulidade do relatório policial, surge emaranhado na teia de afinidades do Master".

O ex-PGR Cláudio Fonteles sugere a renúncia de Gonet.

Um juiz observa que Gonet deu parecer confundindo juiz de garantias com juiz que preside inquérito policial (Mendonça). Não há juiz de garantias em tribunais, ele diz.

O advogado Antonio Carlos Almeida Castro (Kakay) escreveu em sua coluna no site Poder360:

"Eu sei que advogado criminal está em baixa, não sei qual é o criminalista do Flávio Bolsonaro, mas ele está conseguindo algo muito interessante para o cliente dele."

O inquérito dos R$ 61 milhões foi aberto há meses. Não houve um único movimento, não há pedido de busca, de quebra de sigilo, de oitiva —pelo menos não ‘vazou’ nada. E não se pode imputar nada desta morosidade ao ministro André Mendonça. Ele determinou a abertura do inquérito assim que o PGR pediu.

O ‘investigado’ Flávio já teve tempo para se preparar para uma busca e apreensão que não veio. Busca tardia, sabem os criminalistas, costuma não dar em nada.

Gonet permanece na mira dos críticos. Bolsonaro fez o que fez porque o então PGR Augusto Aras foi omisso.

Aras não foi citado na denúncia de Gonet sobre a escalada de violência que resultou no vandalismo de 8 de janeiro. O antecessor de Gonet desprezou advertências de oito ex-PGRs.

O foco em Alexandre de Moraes ofusca Dias Toffoli.

Toffoli indeferiu pedido para processar Aras por prevaricação, por não investigar Bolsonaro. Disse que nunca viu "nenhuma atitude contra a democracia".

Em 2024, Toffoli foi homenageado num jantar em Brasília por instituições financeiras quando era criticado por suas decisões monocráticas anistiando corruptos confessos condenados na operação Lava Jato.

Em 2019, a advocacia em peso bajulou Toffoli, num jantar em São Paulo, a título de desagravar o STF diante das críticas ao inquérito típico dos períodos de exceção. Alexandre de Moraes foi escolhido pelo então presidente do Supremo para conduzir a ação policial e ser o julgador final da causa.

Dividida, a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) prega um código de ética para o STF, mas financia a participação de corregedores e juízes em convescotes no exterior com despesas pagas, cortesia extensiva a familiares.

Moraes não é o único ministro com parentes em escritórios de advocacia.

"É difícil encontrar um tribunal com tanta transparência como o Supremo," disse Gilmar Mendes, no Roda Viva. "Tudo se sabe, tudo é público", afirmou.

O procurador da República Celso Tres diz que a Lava Jato ignorou um modelo de atuação para evitar desvios. "Foi a persecução do mensalão. Nela, o PGR Antonio Fernando foi cirúrgico, altivo, tempestivo, rigoroso e competente. Ação, pautada pela redução de danos, não lesou o devido processo legal, economia, tampouco a democracia".

Antonio Fernando foi criticado internamente no MPF por não ter incluído Lula na denúncia do mensalão.

Toffoli tentou reescrever a história, em 2019. "Hoje, não me refiro nem mais a golpe nem a revolução. Me refiro a movimento de 1964". O ministro abriu as portas do Judiciário aos militares e pavimentou a eleição do capitão.

A releitura dos fatos não pode esquecer a tragédia que abalou o país: mais de 700 mil mortes da pandemia no desgoverno Bolsonaro.


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