quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Hélio Schwartsman -Guerras intestinas - FSP

 Sempre gostei da expressão "guerras intestinas". O adjetivo "intestino" denota com precisão etimológica que o conflito se dá entre facções "internas" a um país e, ao mesmo tempo, torna quase inafastável a interpretação conotativa de que se trata de uma guerra que envolve sujeira e baixarias. Nós quase sentimos o cheiro ruim da disputa. A campanha presidencial brasileira se tornou uma guerra intestina.

Os dois campos principais parecem ter perdido o pudor e recorrem a estratégias e truques que provavelmente evitariam num embate menos polarizado. Populismo e mentiras sempre se fizeram presentes em campanhas, mas agora correm quase sem limites. A cara de pau e a hipocrisia, idem. E ambos os lados mobilizam todos os recursos que têm à sua disposição, incluindo suas respectivas bancadas no STF, que vai acumulando mais camadas de degradação institucional.

Dois homens aparecem em retratos lado a lado. O da esquerda é idoso, com cabelo e barba grisalhos, veste terno escuro, camisa branca e gravata vermelha. O da direita é homem de meia-idade, com cabelo escuro e óculos, veste terno escuro, camisa branca e gravata vermelha. Ambos estão em ambientes internos com iluminação neutra.
Montagem com os candidatos Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL)= - Victor Moriyama e Evaristo Sá/The New York e AFP

Quanto a nós, eleitores, vamos dormir na esperança de acordar com o vazamento que implodirá a candidatura que mais rejeitamos. Isso não acontecerá. Rodrigo Tavares mostrou num ótimo artigo que o mundo em que o grosso do eleitorado reagia de forma uníssona a escândalos não existe mais. Lulistas e bolsonaristas típicos tudo perdoam a seus ídolos e veem qualquer indício contra o adversário como prova de crime.

Seria a morte da moderação, que por muito tempo foi a marca das democracias liberais? Sim e não. A versão virtuosa do teorema do eleitor mediano, segundo a qual os próprios candidatos assumiam posições equilibradas para atrair o maior número possível de votantes, saiu de moda. Mas, com o pleito virtualmente empatado, a definição da contenda continuará cabendo à fatia dos eleitores que não se identifica organicamente nem com Lula nem com os Bolsonaros. São esses cidadãos que as campanhas buscam agora influenciar com táticas de guerrilha.

A perspectiva de que a palavra final não esteja com os radicais é positiva, mas é pena que a moderação tenha deixado de ser um valor democrático para tornar-se mero artefato estatístico.

Nenhum comentário: