Aos 31 anos, a atriz e publicitária Alice Milagres diz ter uma rotina comum, assim como a de muitos jovens brasileiros. Ela trabalha em horário comercial, bate ponto e é contratada no formato CLT. Há alguns anos, o seu rosto aparecia de segunda a sexta na televisão quando atuou por quase dois anos em Malhação, novela da TV Globo. Na época o elenco era contratado pelo regime CLT. Assim como a mãe Gorete Milagres, atriz que ficou famosa no papel de ‘Filó’, do bordão “ô, coitado”, Alice também planejava viver financeiramente da carreira artística. Mas não foi o que aconteceu, pelo menos por ora.
Há algumas semanas, ela compartilhou a sua história no TikTok. O relato ultrapassou 2 milhões de visualizações e despertou a curiosidade de jovens que a acompanhavam desde os tempos do seriado. Ao Estadão, a ex-Malhação conta, do seu home office, como foi o percurso até retornar de vez ao trabalho de carteira assinada.
Leia também
A verdadeira face da geração Z brasileira: nem ‘mimizenta’ nem rebelde, mas contraditória
CLT ou trabalho autônomo? Geração Z não tem uma resposta única
“O meu sonho era ser uma grande atriz e emendar uma novela na outra, fazer publicidade, ficar rica, mas a vida real é outra coisa”, diz.

Quando as gravações da novela foram finalizadas em 2019, Alice retomou a graduação de publicidade e decidiu seguir em paralelo com a carreira de atriz. Enquanto se mantinha com a reserva financeira que havia feito na televisão, fez participação em uma série, conseguiu uma publicidade e continuou fazendo testes. Então veio a pandemia.
Sem trabalhos no setor artístico, o caminho foi buscar outras possibilidades. “Viver de frila é sempre estar com a corda no pescoço. Você não sabe o quanto vai ter naquele mês”, afirma. Ainda na esperança de trabalhar no meio, mesmo que fosse nos bastidores, fez uma especialização em produção audiovisual. Já para pagar as contas, começou a fazer projetos avulsos na área de publicidade.
No entanto, as contas apertaram e a jovem decidiu entregar as chaves da casa que morava de aluguel na capital paulista para ficar um tempo no litoral do Ceará, em Jericoacoara, onde a mãe estava construindo um complexo de casas de temporada. “Era uma angústia horrorosa, parecia que eu não sabia o dia de amanhã”, relembra. Nesse meio tempo, conseguiu um trabalho de carteira assinada como gerente de marketing em uma rede de hotéis da vila.
A busca por estabilidade financeira
De volta a São Paulo, em 2023, voltou a ser freelancer. Por meio de indicação de colegas, conseguiu trabalhos como social media para empresas de hotelaria e projetos com estratégia de influenciadores. Os bicos a ajudavam a pagar o aluguel, mas não eram suficientes para ter uma renda confortável no longo prazo.
“São muitas variáveis que você não controla, como você controla no mundo corporativo de alguma forma. Você entra como estagiário, vira júnior, analista, pleno, sênior. Você tem uma trajetória. A vida artística não é assim”, afirma.
A busca por estabilidade acabou levando Alice novamente para a CLT. Em 2024, ela foi indicada para uma vaga de estrategista de publicidade em uma empresa de tecnologia especializada em dados de redes sociais. Hoje, trabalha de segunda a sexta, em horário comercial e em home office. Além do salário, tem plano de saúde, vale-refeição e bônus por metas a cada três meses.

“Eu amo CLT, sou uma grandíssima fã. Nada como férias remuneradas, benefícios e um bom plano de saúde”, afirma.
Embora possa ser considerada millenials por alguns, Alice está na fronteira com a Geração Z, que vive o mesmo dilema da atriz: o que vale mais no trabalho? Propósito, flexibilidade ou dinheiro? Para eles, a remuneração (salário e benefícios) é o fator mais importante para sair ou permanecer em um emprego, contrariando o estereótipo de que os mais jovens priorizam liberdade, acima de tudo.
De acordo com a pesquisa inédita do Insituto Ipsos, em parceria com o Estadão, para 33% dos jovens brasileiros de 16 a 29 anos, o dinheiro é mais atrativo do que o equilíbrio entre vida pessoal e profissional e a flexibilidade de horário.
O salário funciona como uma condição básica antes de qualquer outro atributo, avalia Patrícia Pavanelli, diretora de opinião pública no Instituto Ipsos. “A flexibilidade é valorizada, mas não é suficiente para compensar a remuneração nem substitui a necessidade de renda adequada”, diz. Entenda o contexto que divide os jovens entre o modelo CLT e o trabalho autônomo na série “O retrato da Geração Z brasileira”.
Os sonhos de atriz e o novo plano de carreira
Para Alice, ter um trabalho fixo não significa abandonar outros planos profissionais nem quer dizer que almeja seguir na mesma empresa ao longo da carreira, característica comum das gerações anteriores. Inclusive, ela não descarta voltar às telas. Pelo contrário, a estabilidade da CLT a permite continuar tentando. “Às vezes chega um teste que não vale a pena fazer, porque vou ter de pedir demissão, vou gravar por dois meses e ganhar um valor que não vai me sustentar nem por seis meses”, diz.
O ambiente artístico faz parte da vida de Alice desde a infância a partir da influência da mãe. As aulas de teatro e balé clássico faziam parte da rotina da jovem. Gorete, que conseguiu ter uma vida confortável por meio da carreira de atriz, a incentiva a não abandonar 100% esse lado.
“Minha mãe sempre fala para eu não desistir dos meus sonhos. Mas, ao mesmo tempo, ela entende que não é preto no branco, que a gente tem de seguir, que existe um aluguel para pagar”, diz. Hoje, Gorete vive entre Belo Horizonte e Jericoacoara, onde administra o complexo de casas de temporada que construiu.
Agora, Alice não descarta mudar de rota novamente desde que a proposta a sustente por um período que considere suficiente para não depender de outras fontes de renda enquanto atua. “Se um dia chegar uma proposta que vai valer muito a pena financeiramente e artisticamente, eu consigo pedir férias e fazer, ou pedir demissão e fazer um planejamento financeiro para me sustentar por mais dois anos”, afirma.
O retrato da Geração Z brasileira
Ao longo desta semana, o Estadão irá desvendar quem é e o que pensa a Geração Z brasileira a partir de dados apurados pelo Instituto Ipsos e de relatos de jovens e especialistas ouvidos pela reportagem. Além do escolha entre o modelo CLT e o trabalho autônomo, a série também investiga como essa geração enxerga algumas das principais questões que devem definir o futuro do trabalho: o desejo de ocupar cargos de liderança, o medo de substituição pela inteligência artificial e, ainda, o peso que o ensino superior tem na busca por emprego.
Nenhum comentário:
Postar um comentário