quarta-feira, 30 de setembro de 2026

É tudo culpa da cultura? O que um país sem lixeiras me ensinou sobre reciclagem- Papo Responsa FSP

 

Saville Alves

Sócia-fundadora da Solos, startup de impacto finalista do Prêmio Empreendedor Social 2023 que apoia territórios e marcas em seus desafios relacionados à economia circular

Oportunidades mudam a nossa vida e eu acabei de agarrar uma que nunca havia imaginado antes.

Quando eu comecei a empreender com impacto e atuar com reciclagem, o meu objetivo era estar cada vez mais imersa nos territórios em vulnerabilidade para entender os desafios socioambientais da sociedade brasileira. E de fato os primeiros anos foram mergulhados em operações e no campo.

Oito anos se passaram e cá estou eu de volta do Japão. Fui à convite da Unep, Agência para Meio Ambiente da Nações Unidas, participar do workshop "Programme on Behaviour Insights for Better Waste Management (algo como Programa sobre Percepções Comportamentais para uma Melhor Gestão de Resíduos).

Dezessete pessoas posam para foto em frente a um prédio com letreiro em japonês e inglês que indica uma empresa de desenvolvimento tecnológico. O grupo inclui homens e mulheres de diferentes etnias, alguns segurando documentos, todos em ambiente externo com céu nublado.
Saville Alves, da Solos, em visita a fábrica japonesa durante programa de gestão de resíduos no país - Arquivo pessoal

Uau. Ao contrário do que eu pensava, a vida de quem empreende com impacto não deve ser só pé no chão. É preciso também ter a cabeça nas nuvens: ver do alto abrange nossas visões, nos proporciona formar repertório e, com isso, fazemos escolhas melhores e geramos impacto intencionalmente mais relevante.

Voltemos ao Japão. Eu cheguei lá e a minha referência era totalmente brasileira: aqui reciclamos menos de 5%, catadores fazem seu trabalho sem valorização e dignidade e a cadeia como um todo é muito informal.

Logo no primeiro dia, eu entendi que o Brasil está ruim, mas o mundo não está essa maravilha toda, não. Meus colegas da Nova Zelândia, Malásia, Índia, Costa Rica, do Quênia e de todo canto apresentaram seus casos de atuação e as palavras "lixão" e "informalidade" foram repetidas dezenas de vezes.

Agora o que é tipicamente brasileiro é o trabalho dos catadores. O meu inglês não foi suficiente para explicar, durante a apresentação do Roda, programa de delivery da reciclagem que implantamos em Salvador e motivo pelo qual eu estava no evento, a complexa e triste realidade que muitos desses trabalhadores vivem.

O lixo na maioria dos países é um problema mais ambiental do que social. Aqui no Brasil a coisa é diferente.

E quando falamos da sociedade brasileira, da nossa cultura, que sou apaixonada e orgulhosa, é também o nosso calcanhar de Aquiles.

Veja: o Japão é a prova de que o antropólogo Michel Alcoforado está certo: é tudo mesmo culpa da cultura.

O país que ficou conhecido pelos cidadãos que recolhem lixo nos estádios, após jogos de futebol, é o mesmo que não possui lixeira nas ruas. Cada um precisa carregar seus pacotes até chegar em casa. Lá também paga-se pelas sacolas não apenas nos supermercados, mas em todas as lojas.

E, apesar do alto índice de incineração dos resíduos para produção de energia, a reciclagem está bem mais avançada do que aqui: chega na casa dos 20%.

O comportamento dos japoneses explica esses resultados. Xintoísmo e budismo, religiões predominantes, cultuam a natureza e seus elementos e aí, mesmo com toda a urbanização e LEDs das ruas do famoso bairro de Shibuya, em Tóquio, é possível prezar o entendimento de que nós somos parte do universo e não o centro dele. Limpeza faz bem para o espírito.

Você também pode procurar no seu buscador ou na sua IA favorita e conferir a quantidade de legislações da década de 1990 sobre gestão de resíduos, circularidade e reciclagem. A lei brasileira é de 2010, mas apenas nos últimos cinco anos ela passou a "pegar" de verdade.

Seguimos! Ainda que com suas diferenças, o Japão me deixou mais com a sensação de que é possível, do que devemos largar de mão. A começar pelos trabalhos interessantes dos meus colegas e conterrâneos que também foram apresentados por lá.

O tema central do encontro era comportamento e nós somos um povo flexível, versátil e interessado. Nos adaptamos às novidades, tendências e nisso tiramos de letra dos japoneses. Podemos reinventar a cultura do respeito com a Terra, da colaboração entre as pessoas e da prosperidade sem disparidades sociais.

A reciclagem é um detalhe que reflete a forma como vemos o mundo e é a forma mais prática para quem vive nas cidades transformar o futuro hoje.


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