O endereço do que seria o primeiro Hard Rock Hotel de São Paulo foi escolhido por ser “bonito por fora e icônico”, como se destacou ao ser anunciado. Hoje, seis anos depois, contudo, esse mesmo prédio está esvaziado, repleto de pichações e com diversas janelas quebradas, com ares de abandonado em plena Avenida Paulista.
O edifício em questão é o Torre Paulista, conhecido pelas formas curvas e por ter sido sede do banco japonês Sumitomo por décadas. Mais recentemente, foi endereço de escritórios diversos, que precisaram deixar o local para a implementação do hotel no fim de 2018 — parte de uma empreitada bilionária de oito unidades da famosa marca internacional no Brasil.
As obras na Paulista não avançaram, entretanto. Ao Estadão, a Residence Club, responsável pelo Hard Rock Hotel em São Paulo, respondeu que está “em tratativas com a Savoy, proprietária do edifício Torre Paulista, para definir os próximos passos e o futuro do empreendimento”. Não foi informada a previsão de início de obras ou de inauguração.

Para você
A Residence Club foi criada no início do ano passado após o anúncio de que um grupo de executivos do mercado de multipropriedade adquiriu o controle acionário da Venture Capital Participações e Investimentos (VCI). A decisão ocorreu após a companhia enfrentar problemas financeiros e jurídicos diversos, além de queixas de clientes e atrasos, envolvendo empreendimentos do Hard Rock Hotel no País.
Antes, a VCI chegou a anunciar até a criação de uma criptomoeda e teve o registro suspenso temporariamente na Comissão de Valores Mobiliários, o que foi revertido. Além disso, o plano de expansão foi reduzido, com a desistência de metade dos oito hotéis anunciados, como o de Campos do Jordão (SP).

Segundo relatórios próprios de administração, a VCI foi fundada em 2016, com foco no “investimento direto em projetos hoteleiros de alto padrão, com a marca Hard Rock Hotel”. Esses materiais também dizem que era responsável pelo controle de “todos os processos, desde o desenvolvimento do projeto, comercialização, construção e operação”.
O Estadão procurou a Hard Rock International, mas não obteve retorno. Já a Prefeitura informou que o empreendimento tem alvará de execução de reforma na categoria “serviços de hospedagem”. Além disso, respondeu que não há registros de denúncias envolvendo o imóvel e prevê vistoria no local até o início da próxima semana.

Hotéis Hard Rock enfrentam atrasos pelo País e multas
A Residence Club é hoje responsável por quatro empreendimentos da marca internacional. Dois estão em obras, embora atrasadas: Hard Rock Hotel Fortaleza (na cidade de Paraipaba, no Ceará) e Hard Rock Hotel Ilha do Sol (em Sertaneja, no Paraná). Há, ainda, o Hard Rock Jeri (em Jijoca de Jericoacoara, também no Ceará), descrito como “coming soon”, e os planos para São Paulo.
Os projetos do Paraná e Ceará passaram por investigações, penalidades e questionamentos judiciais. Só em 2024, o Programa Estadual de Proteção e Defesa do Consumidor (Decon), do Ministério Público do Ceará, emitiu duas multas.
Em janeiro de 2024, foi emitida uma multa pelos dois anos de atraso na obra, no valor de R$ 12,3 milhões. Já, em dezembro, houve nova penalidade de R$ 6,6 milhões após denúncias de que a companhia teria repassado encargos dos atrasos aos clientes.
Segundo o Ministério Público, unidades do Hard Rock Café Fortaleza são comercializadas no modelo multipropriedade desde 2018. Mais de 10 mil contratos teriam sido firmados desde então. Há diversos relatos de abordagens de transeuntes em pontos turísticos do Ceará, a fim de captar possíveis clientes.
O que se sabe sobre o projeto do Hard Rock para São Paulo?
Em geral, há poucos detalhes sobre o projeto para a Paulista. Em 2023, uma “concept store” de divulgação do hotel foi aberta nos Jardins, mas não está mais em funcionamento.

A principal diferença do empreendimento paulistano em relação aos demais é que deve ser voltado só ao segmento de hotelaria. Já os outros ligados à Residence Club têm o modelo de multipropriedade.
O Hard Rock Hotel São Paulo não aparece, contudo, no site da rede internacional. Na plataforma, os únicos brasileiros são os dois projetos do Ceará e o de Gramado, no Rio Grande do Sul (não diretamente ligado à VCI).
Hard Rock tem estabelecimentos no Brasil? E em São Paulo?
Fundada por americanos em Londres, em 1971, a marca Hard Rock é vinculada a hotéis, cassinos, cafés e outros estabelecimentos de hospitalidade em mais de 70 países. A empresa trabalha geralmente com franquias.

No Brasil, está presente exclusivamente em cafés, porém há projetos de hotéis. O único estabelecimento da franquia em São Paulo é o Hard Rock Café de Ribeirão Preto, em funcionamento desde 2021. Há outros cafés, especialmente na Região Sul, como em Florianópolis, Curitiba, Gramado e Porto Alegre.
Há cerca de cinco anos, também está em desenvolvimento um projeto de Hard Rock Café em São Paulo. Os empresários envolvidos pretendem inaugurá-lo na Avenida Cidade Jardim, quase na esquina com a Avenida Europa.

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Edifício foi projetado por arquiteto renomado
Originalmente chamado de Edifício Aquarius, o Torre Paulista é caracterizado pelas formas curvas e afuniladas. O prédio foi projetado no início dos anos 1970, por José Gugliotta e Jorge Zalszupin — um dos mais renomados nomes de mobiliário brasileiro, autor das poltronas do STF, por exemplo.

Polonês radicado no Brasil, Zalszupin também é um dos autores dos projetos originais do Shopping Ibirapuera, na zona sul, e do Top Center, também na Paulista, dentre outros. Além disso, sua antiga residência hoje funciona como casa-museu e galeria de arte, nos Jardins.
Conforme informações do cadastro na Prefeitura, o prédio tem 19,1 mil m² de área construída. Está em um terreno de 2,2 mil m², com endereço principal na Paulista (em frente ao prédio da Gazeta) e entrada secundária pela Alameda Santos.
Prédio foi construído em meio à transformação da Paulista
Especialistas ouvidas pelo Estadão avaliam que se deveria manter o edifício preservado. Outro ponto destacado é a importância de que se mantenha um uso.

“O prédio deveria ser mantido: tem arquitetura correta, de autoria de um arquiteto importante no panorama paulista e faz parte da paisagem da Paulista”, diz Monica Junqueira de Camargo, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, onde foi chefe do Departamento de História e Estética do Projeto.
Professora emérita da Mackenzie e referência no estudo da verticalização em São Paulo, Nadia Somekh avalia que um uso como hotel seria compatível com o perfil atual da Paulista. “Em Nova York, tem prédios altos em que metade é escritório, metade é hotel”, exemplifica ela, que também é conselheira do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A arquiteta destaca que o edifício foi erguido em um contexto de transformação da avenida, com o projeto Nova Paulista. Isso envolveu um contexto de mudanças urbanas e o estabelecimento do entorno como o polo financeiro da cidade, com a migração de instituições antes concentradas no centro velho.
Nesse contexto, foram criadas regras específicas para construções naquele entorno, o que permitiu maior verticalização do que em outras áreas. “No ‘boom’ do Milagre (Econômico) dos anos 1970, vários prédios foram construídos, e derrubando casarões, dando uma nova cara para a Paulista”, explica Nadia.

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