quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Revolta contra a arrogância da extrema direita começou no Brasil- Rui Tavares- FSP

 Durante anos a esquerda foi muito acusada de arrogância moral e intelectual. Não era sempre sem razão, e principalmente na época dos blogs e do início das redes sociais, a direita faturou em cima dessa percepção. Depois, os papéis inverteram-se: foi a direita que se tornou arrogante, e a extrema direita que se tomou de uma arrogância extrema.

Só que, como tantas vezes acontece, demora um tempinho até a opinião pública se atualizar. A extrema direita era de certa forma imunizada à crítica de arrogância pela sua fanfarronice, que passava por genuinidade. Daí os políticos e influenciadores dessa área política começaram a usar a arrogância como forma de chamar a atenção e captar eleitorado.

Homem de camisa azul usa megafone para falar em meio a grande multidão à noite. Pessoas ao redor registram o momento com celulares, e bandeiras são vistas ao fundo.
O presidente reeleito, Luiz Inácio Lula da Silva, pega um megafone ao chegar na avenida Paulista, após vencer a eleição - Eduardo Knapp - 26.out.26/Folhapress

Desde Donald Trump inventando nomes para os adversários até Jair Bolsonaro imitando doentes com Covid, a extrema direita era arrogante e ganhava com isso.

Até agora. Nesta eleição brasileira, vimos pela primeira vez uma inversão na percepção geral. Entre o primeiro e o segundo turno, Flávio Bolsonaro deu a vitória por garantida, decidiu fazer da revisão constitucional a sua bandeira, nomear ministros e de forma geral agir como se tivesse já ganhado.

Ainda assim, estou a crer que sem o momento no debate em que Flávio Bolsonaro faz menção aos nove dedos de Lula, e este responde, o eleitorado poderia não ter respondido como respondeu. Uma coisa é um campo político ser arrogante; outra é o público entender essa arrogância e punir o campo político por ela.

Por que falo disso numa coluna que, em geral, é de temas internacionais? Porque me parece que as eleições brasileiras retomam e reforçam uma tendência que até agora era só fragmentária: há uns meses, Viktor Orbán perdeu na Hungria, e neste fim de semana, Aleksandar Vucic perdeu na Sérvia. Mas a derrota de Flávio Bolsonaro, precedendo em poucos dias as eleições para o Congresso dos EUA, acaba por ter uma faceta de inflexão política global.

Para isso contribuiu muito a aprendizagem que a esquerda fez da utilização das redes sociais, em particular sob o comando de André Janones, que certamente vai se tornar estudo de caso ao nível mundial. Janones, junto com o seu exército digital de 10 milhões, conseguia não incentivar a partilha das publicações da extrema direita, ao passo que conseguiu que debates que foram mais equilibrados nas TVs fossem ganhos pelos cortes que viralizavam nas redes.

Há um diálogo entre o próprio Janones e Lula em que o deputado e influenciador afirma que a eleição já está ganha ao mesmo tempo que afirma não ter "dotes proféticos", mas depois acrescenta: "Só há uma maneira de a eleição não estar ganha, que é vocês acreditarem em mim quando eu digo que ela está ganha."

Curiosamente, esta formulação se aproxima muito da definição dos dotes proféticos num livro da Bíblia que tem um nome parecido com o de Janones —o de Jonas. O profeta Jonas é aquele que não quer aceitar dizer aos ninivitas que se arrependam com medo de que eles o façam e assim não sejam castigados por Deus. O dom da profecia não é o de adivinhar, mas de persuadir.

E para que volte a funcionar na semana que vem, nos EUA, será essencial humildade dos democratas na hora de lembrar a arrogância dos autoritários.

Alcolumbre planeja articular indulto ou anistia a Bolsonaro em busca de votos da direita para se reeleger- FSP

 

Brasília

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), vai propor um indulto ou anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em troca do apoio da direita à sua reeleição para o comando do Senado, de acordo com dois aliados. O movimento busca também estancar a pressão pelo impeachment de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal).

A nova bancada de direita que chegará ao Senado em fevereiro foi eleita com um discurso baseado nos ataques ao STF e na defesa do afastamento de ministros da corte, principalmente Alexandre de Moraes, relator do processo que condenou Bolsonaro. Alcolumbre é contra o impeachment e procura uma forma de contornar isso e se manter no cargo por mais dois anos.

O plano dele é envolver os três Poderes numa "pacificação do país" após a eleição presidencial. Ele afirmou a aliados que vai conversar com o presidente Lula (PT) para defender um indulto humanitário a Bolsonaro, que está preso desde agosto de 2025 pela participação numa tentativa de golpe de Estado. O tema ainda não foi tratado na primeira conversa que tiveram nesta segunda (26), logo após a votação.

Três homens posam juntos em corredor externo com vidro ao fundo. O homem à esquerda veste terno preto, o do meio camisa vermelha e o da direita terno azul. Eles apertam as mãos simultaneamente, sorrindo para a câmera.
O presidente Lula, em encontro com os presidente do Senado, Davi Alcolumbre (à esq.), e da Câmara, Hugo Motta, no Palácio da Alvorada - Ricardo Stuckert -26.out.26/Divulgação Presidência da República

Alcolumbre disse a parlamentares que vai esperar a eleição decantar para procurar Lula e defender o indulto –um ato de clemência que depende apenas do petista. Aliados afirmam que o plano também deve aguardar as consequências da fuga de Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil antes de ser colocado em prática.

Se Lula não concordar com o perdão humanitário a Jair Bolsonaro, o presidente do Senado afirmou a parlamentares que trabalhará então para que uma anistia seja aprovada pelo Congresso.

A oposição cobrou dele a votação desse perdão durante a atual legislatura, mas ele articulou uma alternativa mais branda, que permite a redução das penas dos condenados pelos atos golpistas de 8 de Janeiro de 2023 e foi aprovada no fim do ano passado. Na época, a discussão ocorreu paralelamente ao julgamento de Bolsonaro e outros líderes da trama golpista pelo STF.

Essa lei está suspensa desde maio por decisão de Alexandre de Moraes, até que o pleno do STF decida sobre sua legalidade. O primeiro passo para convencer os bolsonaristas, segundo um aliado de Alcolumbre, é convencer o Supremo a reconhecer, nos próximos dias, a constitucionalidade da dosimetria na forma aprovada pelo Congresso, o que ajudaria a acalmar os ânimos.

No caso de um projeto de anistia passar nas duas Casas, aliados afirmam que é necessário um acordo com Lula para evitar que ele mobilize a base de esquerda contra o texto ou que o vete —medidas que aumentariam o embate em torno do tema. O argumento é o de que é preciso apaziguar os ânimos para evitar que isso centralize novamente o debate no Legislativo e amplie as tensões na população.

Uma preocupação de aliados de Alcolumbre é modular a anistia para evitar que o perdão libere o ex-presidente para concorrer novamente nas eleições. Atualmente, ele está inelegível até pelo menos 2060 devido à condenação pelo STF na trama golpista. Há divergências no mundo jurídico sobre se a anistia atinge a esfera eleitoral e a ideia é negociar um texto que deixe claro que os efeitos serão apenas sobre a parte penal, para tirá-lo da prisão domiciliar.

Com a anistia ou indulto a Bolsonaro, Alcolumbre quer o compromisso da direita de que não pressionaria mais pelo impeachment dos ministros do STF e de que os parlamentares se concentrariam numa reforma mais estrutural do Poder Judiciário.

A percepção entre aliados dele é que o impeachment já se tornou mais improvável com a vitória de Lula, e por isso a oposição teria mais motivos para aceitar um acordo deste tipo. Ao menos 49 dos 81 senadores da nova legislatura defendem o impeachment, mas muitos fazem isso com ressalvas. Para aprovar o afastamento de magistrados, são necessários 54 votos, ou seja, dois terços do Senado.

Alcolumbre disputa com dois senadores de oposição a presidência do Senado em 2027 e conta com a adesão da esquerda e do centro à sua candidatura. Esses votos, no entanto, são insuficientes, e ele conta com amizades construídas nos partidos de centro-direita e até no PL para alcançar mais um mandato no comando da Casa. O voto é secreto, o que facilita traições à orientação partidária.

Já Rogério Marinho (PL-RN) e Tereza Cristina (PP-MS) apostam na maioria eleita pela direita para desbancá-lo. O PL terá a maior bancada, com 29 senadores, que se somam às três cadeiras do Novo na oposição. Siglas do centrão, como PP e Republicanos, também são mais ligadas à oposição do que ao governo.

Mauricio Portugal Ribeiro - O vento e as estradas, FSP

 "O vento sopra onde quer; ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai." A frase é do Evangelho de João. Jesus a diz a Nicodemos, um fariseu que o procura de noite, para não ser visto, querendo entender quem ele é. Nicodemos pede uma explicação; Jesus lhe dá uma imagem. O espírito é como o vento (em grego, são a mesma palavra): ninguém vê, ninguém controla, todos sentem.

Durante muito tempo li a frase como um limite, um "não tente explicar". Mas ela também diz que a voz do vento se ouve. E uma voz que saiu de uma aldeia da Galileia e chegou até aqui, 2.000 anos depois, passou por algum lugar. Dá para perguntar por onde.

Resquício de um templo romano em Zavenaar, no centro da Holanda
Resquício de um templo romano em Zavenaar, no centro da Holanda - Raap - 21.mar.22/Reuters

O que a mensagem cristã tem a ver com infraestrutura? Mais do que se costuma admitir. Uma rede de transporte e comunicação, com estradas, portos, estalagens, um serviço oficial de transporte, uma língua comum, casas de reunião em cada cidade, um suporte barato para o texto e um modelo de prédio público: tudo o que a fé precisou para circular já estava construído, e por outras razões.

É possível que o cristianismo não tivesse chegado até nós sem isso. Sem essa rede, Jesus talvez fosse lembrado como um dos profetas de Israel, que é o que o islã vê nele, ou como um rabi galileu de palavra incomum, como o veem muitos judeus de hoje, e não como o centro de uma fé que reúne quase um terço da humanidade. O que nos trouxe o cristianismo foi a combinação de duas coisas: a obstinação de um punhado de pescadores, artesãos e um fabricante de tendas e uma rede que lhes permitiu ir aonde ninguém os mandara ir.

Obstinação é pouco. Durante quase três séculos, de Nero a Diocleciano, ser cristão podia custar a vida, e muitos a deram sem que a rede os protegesse. A rede apenas garantiu que a notícia da morte deles chegasse longe, a ponto de Tertuliano escrever, por volta do ano 200, que o sangue dos mártires era semente de cristãos.

Essa rede tinha nome: Pax Romana. Pompeu limpara o mar dos piratas, e os engenheiros das legiões haviam estendido, estima-se, mais de 80 mil quilômetros de vias pavimentadas, com pontes, estalagens e um serviço de transporte oficial. No oriente do império falava-se o grego comum, a koiné, a infraestrutura invisível da rede: herança de Alexandre que sobreviveu ao império macedônio e que Roma teve a prudência de não substituir pelo latim. Era o que o francês das chancelarias foi para a Europa e o inglês é para o mundo de hoje: a língua em que um sírio negociava com um egípcio e em que os quatro evangelhos canônicos seriam escritos.

Em cada cidade importante havia uma sinagoga da diáspora, um ponto de acesso à rede, onde um forasteiro podia falar e ser ouvido. Paulo de Tarso, judeu e cidadão romano, percorreu mais de 15 mil quilômetros por essas vias, segundo as estimativas correntes: entrou na Macedônia pela Via Egnácia, pregou em Filipos e Tessalônica e escreveu cartas que seguiam pelos mesmos caminhos das cargas e dos tributos.

Os primeiros cristãos ainda foram pioneiros no uso do códice, o livro de folhas costuradas, no lugar do rolo: cabia mais texto por menos dinheiro e viajava na sacola de quem pregava. A fé viajou como mercadoria porque havia por onde.

Os marcos seguintes também se apoiam em obras. Em 313, Constantino e Licínio garantiram a liberdade de culto pelo Edito de Milão, e o imperador convertido passou a erguer basílicas. A palavra designava um edifício civil, o salão coberto ao lado do fórum onde se julgavam causas e se fechavam negócios, algo como um palácio de justiça com uma bolsa de valores no mesmo prédio; a Basílica Júlia e a Basílica Emília, no Fórum Romano, eram exatamente isso. A nova fé não inventou um templo: herdou a planta do prédio em que Roma fazia justiça e dinheiro.

Em 325, para reunir em Niceia cerca de 300 bispos, Constantino lhes concedeu o uso do transporte oficial do império, o cursus publicus, com suas estações de troca de cavalos, segundo conta Eusébio de Cesareia: o primeiro concílio ecumênico foi também uma operação logística.

Em 367, Atanásio de Alexandria enviou uma carta pascal fixando os 27 livros do Novo Testamento, e a lista circulou pela mesma rede. Cada século acrescentou uma camada: em 380, Teodósio fez do cristianismo a religião do império; depois vieram os mosteiros, que copiaram; o Caminho de Santiago, que ergueu pontes e hospedarias; Gutenberg, cujo primeiro grande livro impresso foi uma Bíblia.

Não escrevo para reduzir o espírito à engenharia. Escrevo porque quem constrói estradas raramente sabe o que vai passar por elas. Roma pavimentou o mundo para que suas legiões chegassem a toda parte. Chegaram. E atrás delas, a pé, com cartas na sacola, chegou outra coisa, que as legiões não previram e os impérios não detiveram. As vias romanas há muito viraram pó e museu. O que elas carregaram ainda chega, todos os domingos, a lugares que Roma nunca alcançou.

O vento sopra onde quer. A voz, essa veio pela estrada.