quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Cinema de rua só deixa a cidade melhor- FSP

 Vicente Vilardaga

São Paulo

Em uma semana surgiram duas notícias de abertura de cinemas de rua em São Paulo. O tradicional e luxuoso Cine Rosário, no térreo do edifício Martinelli, vai voltar a funcionar em 2028, depois de 70 anos parado. Alguns dias antes foi anunciado o início do funcionamento do Cine Tutu, na Vila Madalena, com 114 lugares e projeto do arquiteto Isay Weinfeld. É algo para se comemorar.

Nos últimos anos surgiram várias salas de rua na cidade. O Nubank está patrocinando a volta do Cine Copan, prevista para 2027. Outras iniciativas que prosperam são o Satyros Bijou, reaberto na praça Roosevelt em 2022, e o Espaço Petrobras de Cinema, reinaugurado com novo patrocínio em 2025, na rua Augusta, mesmo endereço outrora ocupado pelo histórico Majestic.

Sala de cinema com decoração verde e detalhes ornamentais no teto. Fileiras de poltronas vermelhas ocupam o centro, com tela ao fundo exibindo cena de filme. À direita, área de bar iluminada. Entrada do Cine Rosário visível à esquerda.
Após 70 anos fechado, Cine Rosário será reformado e reaberto em 2028 no edifício Martinelli - Grupo Tokyo/Divulgação

Resiste também o Multiplex Playarte Marabá, na avenida Ipiranga, que agora corre o risco de fechar por causa de uma ordem de despejo, e o Olido, na avenida São João. Os dois são os últimos remanescentes da Cinelândia Paulistana, que, nos anos 1950, concentrava dezenas de salas e se estendia por toda a região. Os ambientes eram gigantescos e podiam receber de 1.000 a 3.000 pessoas.

É bom pensar que novos cinemas de rua estão surgindo ou sendo reativados, mas é ruim perceber que ainda são tão poucos, cerca de 20, quando já estiveram em torno de 150, segundo minhas estimativas. Hoje representam 5% do total de salas da cidade. A imensa maioria daquelas com entrada pela calçada foi varrida do mapa, tanto no centro como nos bairros, e substituída pelas salas de shopping.

Isso começou em 1966, com o shopping Iguatemi, seguiu com o Ibirapuera em 1976 e, a partir daí, não parou mais. Os dois nasceram com cinemas em funcionamento, oferecendo todas as vantagens de uma fortaleza privada, como praticidade, conforto e segurança, que se tornaram o padrão do serviço. As salas de rua, que já tinham tomado uma surra da televisão e estavam na bancarrota, não resistiram ao novo golpe.

Várias fileiras de poltronas estofadas com tecido floral em tons escuros, alinhadas em uma sala de cinema com iluminação suave na parede lateral.
Poltronas com estampa assinada por Isay Weinfeld no Tutu, cinema de rua aberto na Vila Madalena - Karime Xavier/Folhapress

Acompanhei bem essa agonia no final dos anos 1970 com os cinemas de bairro entrando em decadência e quebrando. As salas que frequentei na minha infância ficavam todas na avenida Santo Amaro, na altura da Vila Nova Conceição, na zona sul. Lembro-me do nome de três delas: Vila Rica, Vila Nova e Graúna. Mas eram cinco ou seis num trecho pequeno de uma mesma avenida, formando uma minicinelândia. Caíram uma a uma.

Lá assisti, entre outros filmes, "Alien, o Oitavo Passageiro" e "Os Caçadores da Arca Perdida". Um no Vila Rica e outro no Vila Nova. O sobradão do Vila Rica resistia até há pouco tempo no mesmo lugar, ao lado da antiga pista de skate Wave Park. Não fui ver se ainda está de pé.

Entrada iluminada do bar Bijou com letreiro luminoso. Em primeiro plano, mesa redonda de madeira com cardápio sobre ela. Ambiente interno com balcão e pessoa ao fundo.
Sala Patrícia Pillar do Cine Satyros Bijou, que foi reaberto em 2022 na Praça Franklin Roosevelt . - Ronny Santos/Folhapress

Com a quase extinção dos cinemas de rua, a cidade perde atrativos. Eles trazem pedestres para as calçadas e movimentam o comércio local de padarias, bares e restaurantes. Contribuem para a segurança da região, contam com programação alternativa e são um ambiente propício para que as pessoas discutam cinema, não só assistam. Além disso, são mais cosmopolitas, têm uma atmosfera apropriada para ver bons filmes e estimulam conexões humanas e caminhadas na rua.

É provável que em torno do futuro Cine Rosário, no Martinelli, se repita o que aconteceu com a Casa de Francisca e se impulsione ainda mais a vida noturna no entorno, unindo dois vértices do Triângulo Histórico da cidade pela arte e pela diversão.

É importante que surjam novos cinemas de rua. Já existem algumas opções óbvias, como reativar o Cine Metrópole, na galeria do mesmo nome, que foi uma das melhores salas de São Paulo, ou resgatar das trevas o Cine Marrocos, joia da antiga Cinelândia Paulistana, hoje abandonado. O governo do estado pretende privatizar o prédio e torná-lo residencial, mantendo o cinema funcionando embaixo. Veremos.

Nenhum comentário: