sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Por que é tão difícil escolher deputados nas eleições?- Mauro Calliari - FSP

 A Folha conta que apenas 27% dos eleitores já escolheram seus candidatos a deputado federal e estadual. A dois dias das eleições que mobilizam o país, 3 em cada 4 brasileiros não conseguiram pensar em dois nomes. O que pode explicar esse aparente descaso?

Uma explicação é a gravidade em torno dos cargos majoritários. A preocupação com presidente, governadores e senadores é tão grande que parece tirar o peso de todas as outras escolhas. Outra é que a propaganda eleitoral, mesmo irrigada pelas verbas públicas, pouco ajuda a escolher alguém.

Plenário da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo com fileiras de cadeiras e mesas vazias. No fundo, painel eletrônico exibe lista de nomes e votos. Três pessoas estão na área da presidência, e outras quatro estão nas laterais do salão.
Plenário da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo - Rubens Cavallari - 16.set.26/Folhapress

Nos últimos dias, passei horas assistindo ao horário eleitoral e pensei em como seria difícil escolher alguém diante da evidente falta de tempo para se apresentar. Alguns martelam seu nome e seu número, com música e bordões extemporâneos (mesmo assim, para ser justo, acho que há menos candidatos exóticos que no passado).

Outros se colocam a serviço de uma causa genérica, como a educação, ou a segurança. Alguns gritam, muitos aparentam ter certezas invencíveis. Num mundo histriônico, sinto simpatia pelos que falam com tranquilidade e expõem problemas com clareza. Outros tentam ocupar um segmento, como o sociodemográfico (professores, delegados, mulheres) ou geográfico —"prometo defender a minha região". Quase todos se colam nos candidatos majoritários.

O problema maior talvez seja o próprio sistema eleitoral, que não adota o voto distrital, mas faz com que candidatos de várias regiões compitam entre si para representar seus estados. Apenas no Estado de São Paulo são 1.430 candidatos a deputado estadual. Como administrar isso?

No sistema distrital ou distrital misto, esse número seria dividido de tal forma que o eleitor pudesse escolher entre um punhado de candidatos, que poderiam se apresentar devidamente e que provavelmente já seriam conhecidos em seus distritos.

Mesmo no sistema atual, a maior parte das propostas parece pequena para a grandeza dos cargos. A promessa de brigar por mais verbas para sua região parece apenas perpetuar a sede por mais emendas parlamentares ou favores.

O pior é que há votações pendentes que vão impactar nossas cidades e nosso futuro, que exigiriam o oposto dessas propaladas virtudes de combatividade e gritaria: as notas do nosso estado na educação, os planos de segurança, o detalhamento de riscos e caveats contratuais com empresas nas privatizações, a concessão de espaços públicos para entes privados, o marco regulatório que pode financiar mais subsídio ao transporte público, a qualidade do atendimento no SUS, a falta de integração de fluxos nas nove regiões metropolitanas do estado, os imperativos energéticos diante da crise climática e o maior de todos, o risco de falta d’água. Não falta assunto complexo pela frente.

Nas grandes votações, vemos a floresta de braços levantados com o celular filmando suas narrativas para a base de eleitores. Essa visão algo teatral esconde a realidade do trabalho bem feito. Não é só lançar projetos de lei, é também e principalmente avaliar projetos do Executivo e de colegas, que exigem análises, uso de dados, consultas, tudo o que dá trabalho e não dá visibilidade.

Enquanto não temos voto distrital, que aproximaria eleitores de parlamentares, dá tempo de vasculhar a lista de candidatos para encontrar pessoas que pareçam dispostas a abraçar a complexidade e não se tornarem super-heróis das redes sociais.

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