Pesquisa Datafolha mostrou que 73% dos entrevistados consideram a democracia melhor do que outras formas de governo. Esse dado deve ser observado ao analisarmos o resultado das eleições estaduais, sobretudo sob dois aspectos.
O primeiro é um paradoxo. O discurso antissistema, ainda presente no debate público, se contrapõe ao que saiu das urnas: o eleitor recompensou justamente os políticos mais experientes, "do sistema". Do Executivo, 11 governadores em exercício e 5 ex-prefeitos foram eleitos. Entre os políticos com experiência legislativa, foram 3 senadores, 1 deputado federal e 1 deputado estadual. Juntos, somam os 21 governadores eleitos em primeiro turno.
O mesmo vale para o Senado: entre os 54 eleitos, há 14 senadores, 19 deputados federais, 1 deputado estadual, 6 ex-governadores e 3 ex-prefeitos. A experiência na política, portanto, foi valorizada pelo eleitor brasileiro.
Em segundo lugar, a eleição nos estados mostrou que a direita é a grande vitoriosa. E parte disso se explica pela ressonância da narrativa de que o Brasil vive "uma quase ditadura", expressa tanto na atuação política do Judiciário quanto na política pública de segurança. No caso do Judiciário, pesquisas da AtlasIntel mostravam que 45% do eleitorado dizia viver sob uma "ditadura do Judiciário" em 2025. Em setembro de 2026, a desconfiança no STF chegou a 60%. A atuação da corte, percebida como política por parte do eleitorado, e os escândalos envolvendo seus ministros nas últimas semanas, contribuíram para reforçar esse discurso.
A questão da segurança, por sua vez, desponta como um dos temas de políticas públicas que mais aparecem nas pesquisas sobre os principais problemas do país, apontada por 19% dos entrevistados pelo Datafolha em março de 2026, próxima da campeã saúde (21%). Em maio deste ano, 16% dos entrevistados apontavam esta como a pior área do governo Lula; não por acaso essa foi uma das pautas da campanha de Flávio Bolsonaro, sob o argumento de que a presença das facções criminosas cerceia a liberdade dos cidadãos.
Nesse contexto, a vitória da direita nos estados foi acachapante. No cômputo final, teremos a partir de 2027 12 governadores de direita e centro-direita versus 3 de esquerda e centro-esquerda, além de 6 de centro (AP, GO, MA, PE, SE e PA). No caso do Senado, o mesmo padrão se repete: dos 54 eleitos, são 32 de direita e centro-direita e apenas 11 de esquerda e centro-esquerda, além de 11 de centro.
Em São Paulo, a vitória expressiva e pouco comum do governador Tarcísio de Freitas já no primeiro turno, somada às duas vagas da direita para o Senado, deixa claro o desafio que a esquerda terá de enfrentar na próxima eleição. Seguindo a onda de governos de direita na América Latina, o mesmo padrão se repetiu no nível subnacional no Brasil. Como a pesquisa Datafolha já demonstrou, em julho de 2026, 44% dos eleitores se identificavam como sendo de direita ou centro-direita e 39% como de esquerda ou centro-esquerda. É a primeira vez, desde 2014, que a direita aparece à frente da esquerda nessa série histórica.
E, face aos resultados das eleições estaduais, seja para governadores ou para senadores, o desafio para a esquerda alterar este quadro no futuro é grande —independentemente do resultado do segundo turno para a Presidência da República.

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