Quantas brigas por política ocorreram na sua família desde as eleições de 2018? Quantos relacionamentos foram rompidos, amigos de longa data que não se suportam mais? A polarização política se tornou parte da vida cotidiana brasileira. Nas últimas eleições, a situação culminou numa diferença de apenas 2 milhões de votos entre Lula e Bolsonaro. Ainda assim, há quem permaneça no meio.
De um lado, estão aqueles que não votam no bolsonarismo sob nenhuma circunstância. Não é uma rejeição a um único partido, até porque, se hoje a família está concentrada no PL, houve antes uma trajetória por diferentes legendas. Para esse eleitorado, a rejeição está associada ao conjunto de ideias e práticas identificadas com a extrema direita, às ameaças às instituições democráticas e às suas relações com milícias e crime organizado.
Do outro lado, estão os que não votam no PT de Lula sob nenhuma circunstância. No antipetismo, pesam as lembranças de escândalos de corrupção e as críticas à condução econômica e fiscal dos governos petistas. Há quem se sinta traído por Lula. Para estes, uma lista de políticas públicas bem-sucedidas dificilmente bastará para mudar sua posição.
Nesses polos, a escolha está mais baseada na rejeição a um lado que na identificação com o outro.
Mas há quem não se identifique com nenhum dos dois. São saudosos de uma terceira via viável, de uma alternativa às duas faces dessa polarização. São mães de família que enfrentam dificuldades concretas na criação dos filhos. São idosos que já ouviram muitas promessas não cumpridas. São jovens desesperançados que viram suas famílias se dividirem por causa de política e não veem sentido em tomar uma posição.
O que está em jogo para essas pessoas é como suas vidas serão afetadas pelo próximo governo. Saúde, educação, segurança, emprego, custo de vida. Na falta de esperança de que qualquer um dos principais candidatos possa trazer melhora na qualidade de vida, fica difícil escolher em quem votar. Na dúvida, a abstenção parece ser a saída.
É preciso reconhecer a dificuldade da tomada de decisão para esses eleitores. Nenhuma opção agrada, ou ambas desagradam fortemente, e é difícil comparar propostas quando as campanhas são majoritariamente compostas por ataques.
A abstenção pode ser a resposta mais fácil, mas também a mais ingênua. Um cidadão pode até abrir mão de exercer seu poder de escolha, mas sofrerá as consequências do resultado. Na nossa democracia, não existe ficar em cima do muro: todos serão afetados pela escolha alheia.
Por mais difícil que seja, vale a pena investir algum tempo para comparar o histórico dos candidatos. Quando nenhum nome convence, a decisão precisa ser feita por outros critérios. Quais evidências existem de que são qualificados para o cargo? Quais de seus projetos foram aprovados? Quem se beneficia de suas políticas e quem pode ser prejudicado? Quais são as denúncias que enfrentam?
Em uma eleição polarizada, votar não precisa significar ter o candidato dos sonhos. Pode significar comparar projetos, trajetórias, evidências e consequências. No fim, alguém precisa ser escolhido.
E o pior cenário para quem não gosta de nenhuma das opções pode ser deixar que os outros escolham por ele.
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