segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O desafio de coordenar uma federação fragmentada - FSP

 Regina Esteves

Presidente da Comunitas

Bruna Santos

Diretora do Inter-American Dialogue

O crime organizado tem uma vantagem institucional sobre o Estado democrático: não respeita o desenho institucional. Pode conectar narcotráfico, fintechs, presídios e fronteiras numa mesma estratégia.

O poder público precisa atravessar polícias, níveis de governo e órgãos de controle. Essa assimetria não é um argumento contra os poderes democráticos. É um problema que uma democracia precisa administrar.

O desafio é coordenar verticalmente, entre União, Estados e municípios, e horizontalmente, entre políticas e instituições. Na segurança pública, isso significa articular polícias, sistema penitenciário, Ministério Público, Judiciário, órgãos de inteligência, receitas, Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) e governos locais.

Pessoa com mochila caminha ao lado de muro branco grafitado com várias palavras e siglas. Carro vermelho está estacionado próximo ao muro. Ambiente urbano com construções ao fundo.
Criança passa por inscrição do crime organizado na porta da comunidade, Gardênia Azul, na zona oeste do Rio de Janeiro - Eduardo Anizelli - 29.ago.2024/Folhapress

Essa fragmentação é também uma proteção. Distribuímos poder para limitar abusos e preservar autonomia. Uma federação, por definição, fragmenta o poder. O problema começa quando os mecanismos que o distribuem são melhores do que os capazes de recombiná-lo.

As facções criminosas deixaram há muito de operar apenas com tráfico. Hoje articulam mercados ilegais e legais, estão no sistema financeiro, controlam cadeias logísticas, infiltram empresas e conectam presídios, fronteiras e territórios urbanos.

O Estado, em contrapartida, continua respondendo em silos. Uma investigação patrimonial precisa combinar informações dispersas entre polícias, Receitas, Coaf, Banco Central e registros empresariais. A retomada de um território pode começar como operação policial, mas só se sustenta com Justiça, serviços públicos e presença municipal.

O Estado pode ser forte em suas partes e fraco na soma. Nesse contexto, a coordenação deixa de ser preferência administrativa e se torna condição de efetividade.

Há ainda uma dificuldade política. Instituições não deixam de coordenar apenas por incompetência. Informação, orçamento e autonomia também são fontes de poder. Governos coordenam quando compartilhar informações produz valor, as responsabilidades são claras e existe autoridade para resolver impasses.

É nesse ponto que o Pacto Brasil de Futuro, da Comunitas, ganha sentido. Sua contribuição não é criar uma nova estrutura.

É organizar as condições para que as instituições existentes consigam implementar juntas: começar pelo problema e resultado desejado, identificar quem precisa participar, explicitar responsabilidades, definir as informações que precisam circular, alinhar recursos, criar mecanismos de acompanhamento e solução de impasses.

Em outras palavras, transformar coordenação transversal e federativa de uma intenção em capacidade de governo. Um dos principais desafios é transformar promessas legais em rotinas, incentivos, tecnologia, financiamento e responsabilização que sobrevivam às trocas de governo e disputas entre instituições.

É aí que um pacto tem utilidade prática. Os estados podem funcionar como espaços de experimentação para a federação. Soluções podem ser testadas em diferentes contextos, comparadas e, quando funcionarem, disseminadas.

Coordenação, portanto, não significa uniformização. É distinguir o que precisa ser comum —dados, padrões e objetivos— daquilo que pode permanecer descentralizado e aberto à experimentação.

O problema não é exclusivo da segurança. A primeira infância depende simultaneamente de educação e saúde. Adaptação climática atravessa infraestrutura e meio ambiente. Desenvolvimento econômico envolve licenciamento, energia e logística.

O Estado foi organizado em instituições. Os problemas públicos, não. A resposta democrática não é apagar as fronteiras entre as instituições. É fazer com que elas deixem de ser, também, fronteiras para a ação.


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