quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Opinião O jornalismo precisa "falar com os jovens", não apenas "para eles" - OESP (definitivo)

 

Jeremy Gilbert, Ryan Kellett, Sisi Wei e Adriana Lacy, no painel "Atingindo o público jovem" no ISOJ 2026 -
Jeremy Gilbert, Ryan Kellett, Sisi Wei e Adriana Lacy, no painel "Atingindo o público jovem" no ISOJ 2026 - Foto: reprodução

Toda vez que ouço que os jovens não leem notícias, desconfio desse clichê. Ele confunde o abandono de um produto com desinteresse pelo mundo. Um jovem pode nunca acompanhar o noticiário da maneira tradicional e, ainda assim, saber o que acontece em uma guerra, no Congresso Nacional ou no seu bairro. Por isso, é equivocado dizer que eles não se informam. O problema é que os mais velhos esperam que façam isso como as gerações anteriores.

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Essa contradição foi debatida no 27º Simpósio Internacional de Jornalismo (ISOJ), realizado nos dias 17 e 18 de setembro, na Universidade do Texas em Austin (EUA). Pesquisas apresentadas mostraram que os jovens, sim, consomem muita informação, especialmente pelas redes sociais, vídeos, podcasts e criadores. Eles não vivem sem noticiário, mas construíram outros caminhos para chegar a ele.

A mudança mais importante está em quem faz a filtragem. Criadores e plataformas digitais passaram a decidir, junto com os algoritmos, o que merece chegar ao público e como será apresentado. "Quando perguntamos aos jovens que consomem notícias por que os criadores têm valor para eles, a principal resposta é que os criadores sabem qual informação é interessante", disse Jeremy Gilbert, professor da Universidade Northwestern (EUA). Com isso, o jornalismo não perdeu apenas audiência, mas parte da função de filtro.

Segundo o professor, para muitos jovens, a linguagem das redações soa formal e impessoal, chegando a parecer quase robótica. É como se o jornal "falasse para eles", enquanto os criadores "falassem com eles". É preciso entender que a proximidade também é uma forma de construir significado.

Seria superficial concluir que basta transformar reportagens em vídeos curtos ou colocar jornalistas nas redes. O que mudou foi a relação das pessoas com a informação, em que personalidade, comunidade e identificação passaram a pesar na escolha do que consumir. "Os criadores concentram boa parte da confiança e dos hábitos de consumo de informação online", resumiu Adriana Lacy, CEO do Field Nine Group. O desafio do jornalismo é disputar essa relação.

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Esse distanciamento prejudica todos. Os jovens perdem acesso a investigações independentes, informações verificadas e contexto para tomar decisões. O jornalismo perde futuros leitores e a oportunidade de compreender uma geração que já participa da vida pública. E a sociedade perde quando essa distância enfraquece a conversa democrática.

Essa mudança permitiu que mais pessoas produzissem e distribuíssem informação, ampliando o alcance de vozes que antes tinham pouco espaço no debate público. O problema é que a democratização da publicação não fez necessariamente o mesmo com a capacidade de verificar. Ter mais vozes é desejável, mas distinguir evidência, opinião, experiência pessoal e manipulação ficou mais difícil.

 

O poder da transparência

Nesse cenário, o jornalista precisa tornar seu trabalho mais legível, explicando quem é, por que escolheu uma pauta, de onde vêm suas informações e como as verificou. Não precisa virar influenciador, mas tem que aprender a conversar em linguagem natural, mostrando o método por trás da reportagem. Ele deve se sentir parte de sua comunidade, em vez de olhar para ela de cima.

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Essa proximidade não exige que o jornalista finja ser amigo do público, exponha sua vida privada ou imite os criadores. Ele precisa ser acessível e presente onde as pessoas já estão, levando o jornalismo até elas sem abrir mão do método, da independência, da apuração e da responsabilidade que sustentam seu trabalho.

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Mostrar dúvidas, explicar os limites de uma investigação, admitir o que ainda não foi possível confirmar e corrigir erros publicamente tornam visível o trabalho por trás da informação. Além disso, eventos, comunidades, lives e conversas ajudam a transformar uma audiência abstrata em pessoas com as quais a organização jornalística efetivamente se relaciona.

A IA pode abrir outra porta para essa relação. Além de ler uma reportagem, o jovem pode usar chatbots para fazer perguntas sobre ela, pedir contexto, confrontar versões e explorar as evidências da investigação. Mas esse recurso só será útil se levar o leitor de volta à reportagem e a quem a produziu, em vez de esconder o jornalismo atrás de uma resposta sintética.

O objetivo é maior do que conquistar audiência. O jornalismo deve ajudar as pessoas a desenvolver a capacidade para avaliar aquilo que encontram em um ambiente saturado de informação, distinguindo fato de opinião e informação de manipulação. Sem essa capacidade, uma sociedade pode ter mais informação e menos autonomia para decidir.

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A imprensa não precisa convencer os jovens a consumir ainda mais conteúdo do que já têm. Jornalistas precisam investigar o que está fora do alcance desse público, verificar o que circula e explicar o que permanece confuso. O jornalismo precisa demonstrar por que merece confiança, e não apenas pedi-la.

Essa necessária transformação começará quando o jornalismo deixar de enxergar os jovens apenas como uma faixa etária que precisa ser reconquistada e passar a construir uma relação com eles. Enquanto a audiência é uma atenção momentânea, uma relação pressupõe recorrência. Os jovens poderão continuar se informando sem os jornais, mas o jornalismo precisa aprender a se tornar algo que eles queiram ouvir.


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Opinião por Paulo Silvestre

É doutorando em inteligência artificial e mestre em reputação digital pela PUC-SP. Articulista do Estadão, atua como consultor e palestrante de IA, experiência do cliente e transformação digital. É professor da Universidade Mackenzie e da PUC–SP. Foi executivo do Estadão, Samsung, AOL, Saraiva e Editora Abril, e é LinkedIn Top Voice desde 2016.

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