segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Hélio Schwartsman - O algoritmo das famílias, FSP

 Se há algo completamente fora de meu mundo, são as redes sociais. Não frequento nenhuma. Não tenho nem sequer celular. Mas minha alienação acerca deste admirável mundo novo digital não é tão grande a ponto de achar que, porque essas tecnologias não me afetam, não afetam o mundo. Há evidências, anedóticas e científicas, de que afetam.

Uma população particularmente vulnerável são as crianças e os adolescentes. O cérebro humano usa a infância e a juventude para coletar informações sobre o mundo e, a partir delas, proceder ao ajuste fino de seus próprios circuitos. Se, nessas fases, ele é submetido a estímulos supernormais ou outras representações distorcidas da realidade, tenderá a carregar permanentemente marcas desses vieses.

Quatro pessoas sentadas em um sofá: homem conversa com menino que usa celular, jovem mulher também usa celular, mulher mais velha lê livro. Fundo azul com símbolo de infinito formado por fotos coloridas.
Annette Schwartsman

"O Algoritmo das Famílias", de Renata Cafardo, tenta desbravar esse mundo. E o faz muito bem. O desafio não era pequeno. O livro, afinal, foi concebido para tirar dúvidas dos pais no que diz respeito às vidas digitais de seus filhos, mas esse é um terreno em que há muito mais dúvidas do que certezas. A autora faz o possível. Levanta as evidências científicas que existem sobre cada um dos temas abordados, expõe controvérsias que possam existir, adapta ao contexto brasileiro e faz recomendações baseadas no bom senso.

Assim como não precisamos de um estudo científico para provar que pular de um avião sem um paraquedas é mais perigoso do que com um, é seguro concluir que deixar a molecada com o celular na mão durante as aulas gera uma distração que prejudica o aprendizado. A proibição de celulares nas escolas faz, portanto, todo o sentido, ainda que se possa debater qual o melhor desenho para a norma.

Renata destrincha várias questões que estão na ordem do dia, como veto a redes sociais para os mais jovens, acesso à pornografia, radicalização extremista, vício estimulado por truques das big techs como a rolagem infinita de telas. O leitor termina o livro mais informado do que quando o começou. A autora não ensina o caminho das pedras porque não existe um.

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