Se há algo completamente fora de meu mundo, são as redes sociais. Não frequento nenhuma. Não tenho nem sequer celular. Mas minha alienação acerca deste admirável mundo novo digital não é tão grande a ponto de achar que, porque essas tecnologias não me afetam, não afetam o mundo. Há evidências, anedóticas e científicas, de que afetam.
Uma população particularmente vulnerável são as crianças e os adolescentes. O cérebro humano usa a infância e a juventude para coletar informações sobre o mundo e, a partir delas, proceder ao ajuste fino de seus próprios circuitos. Se, nessas fases, ele é submetido a estímulos supernormais ou outras representações distorcidas da realidade, tenderá a carregar permanentemente marcas desses vieses.
"O Algoritmo das Famílias", de Renata Cafardo, tenta desbravar esse mundo. E o faz muito bem. O desafio não era pequeno. O livro, afinal, foi concebido para tirar dúvidas dos pais no que diz respeito às vidas digitais de seus filhos, mas esse é um terreno em que há muito mais dúvidas do que certezas. A autora faz o possível. Levanta as evidências científicas que existem sobre cada um dos temas abordados, expõe controvérsias que possam existir, adapta ao contexto brasileiro e faz recomendações baseadas no bom senso.
Assim como não precisamos de um estudo científico para provar que pular de um avião sem um paraquedas é mais perigoso do que com um, é seguro concluir que deixar a molecada com o celular na mão durante as aulas gera uma distração que prejudica o aprendizado. A proibição de celulares nas escolas faz, portanto, todo o sentido, ainda que se possa debater qual o melhor desenho para a norma.
Renata destrincha várias questões que estão na ordem do dia, como veto a redes sociais para os mais jovens, acesso à pornografia, radicalização extremista, vício estimulado por truques das big techs como a rolagem infinita de telas. O leitor termina o livro mais informado do que quando o começou. A autora não ensina o caminho das pedras porque não existe um.

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