A Rádio Eldorado inicia um novo capítulo em sua história no dia 7 de outubro, quando assume a frequência 107,9 FM para dar seguimento ao seu projeto de quase 70 anos dedicados à música, à curadoria de qualidade e ao jornalismo inovador e de alto nível.
Sua reestreia ocorre quatro meses após o fim da parceria entre o Estadão e a Fundação Brasil 2000, responsável pela frequência anterior. Nos meses seguintes, o grupo procurou alternativas para que a emissora voltasse ao ar.
Agora com o patrocínio da Porto - que adquiriu naming rights, mas preservará o seu nome nome original -, a emissora retorna com novidades, como o programa de Juliana Wallauer, criadora do Mamilos Podcast, na faixa das 19h, e a transmissão, em vídeo, dos programas jornalísticos. Veja aqui as novidades.
Eldorado sempre foi a rádio dos melhores ouvintes
Para você
A Rádio Eldorado foi fundada em 4 de janeiro de 1958, data em que o Estadão completava 83 anos, por Julio de Mesquita Filho e Francisco Mesquita, em uma cerimônia no extinto Hotel Jaraguá. Aquela noite foi marcada por um concerto da soprano Magdalena Lebeis e por uma apresentação da pianista franco-brasileira Magda Tagliaferro, que viria a ser uma das grandes instrumentistas do século 20.
Ao longo dos anos, a emissora consolidou-se como uma das mais inovadoras do Brasil, destacando-se por pioneirismos que marcaram o rádio brasileiro e programas que ficaram na memória dos ouvintes.
Desde cedo, a emissora apostou em uma programação com forte ênfase em jornalismo de qualidade, cobertura cultural e conteúdo analítico.
A Eldorado foi pioneira na utilização do chamado “ouvinte repórter”. A proposta consistia em abrir espaço para que os próprios ouvintes contribuíssem com informações em tempo real sobre o cotidiano da cidade, especialmente no trânsito, no clima e em ocorrências urbanas.
A “rádio dos melhores ouvintes” foi o resultado de algumas ideias construídas ao longo de duas décadas. Essa transformação passa pelo nome de João Lara Mesquita. Jornalista, documentarista e escritor, ele dirigiu as rádios Eldorado AM e FM e o Selo Eldorado entre 1982 e 2003 e foi responsável por boa parte das escolhas que deram à emissora a identidade que se consolidou nos anos seguintes. João ajudou a renovar a linguagem do radiojornalismo e a aproximar a rádio de temas que iam além do dial.
Sob sua direção, a Eldorado esteve à frente de campanhas de grande repercussão, como a mobilização contra a obrigatoriedade da Voz do Brasil e a defesa da recuperação do rio Tietê. Criou também o Troféu Cara de Pau, que ironizava os maus exemplos da vida pública. Era uma aposta no posicionamento da rádio diante da cidade e do País.
Na cultura, João criou o Prêmio Eldorado de Música e o Prêmio Visa de MPB, que ajudaram a revelar ou projetar nomes como Yamandu Costa e Mônica Salmaso. À frente do Selo Eldorado, ampliou ainda a atuação da empresa na música brasileira, registrando choro, samba, música erudita, poesia e projetos documentais. Essa trajetória marcante foi registrada por João no livro Eldorado, a rádio cidadã.
Nomes ilustres na grade da Eldorado
Vários jornalistas que iniciaram suas carreiras na emissora acabaram se tornando amplamente conhecidos do grande público, como Boris Casoy e William Bonner. Este último, inclusive, costuma dizer que sua rádio favorita é a Eldorado.
Além disso, algumas atrações especiais marcaram época pelo conteúdo de qualidade. Entre 1965 e 1966, Paulo Autran (1922-2007) apresentou o quadro Cinco Minutos, em que o ator interpretava textos de diferentes autores, enquanto Jô Soares (1938-2022) comandou, entre 1988 e 1996, o Jô Soares Jam Session, no qual combinava seu humor característico com clássicos e raridades do jazz.
A emissora seguiu fomentando produções voltadas à cultura e ao comportamento. Sala do Professor Buchanan’s, apresentado por Daniel Daibem, discutia temas ligados à música, sofisticação e estilo de vida, em sintonia com o perfil do ouvinte. O programa teve gravações no clube Bourbon Street e recebeu nomes fundamentais da música nacional, como Gilberto Gil, Hermeto Pascoal e Marcos Valle.
Ao longo de sua diversificada carreira, o cartunista Paulo Caruso (1949-2023) apresentou A Cara do Jazz, no qual explorava seu conhecimento pelo gênero musical, com produções de épocas variadas.
Já a autora Fernanda Young esteve à frente de Na Fossa, programa focado em discussões sobre amor e desilusões, trazendo entrevistas com personalidades como Erasmo Carlos, Lobão, Zizi Possi, Angela Ro Ro e Marília Gabriela.
Por anos, a chef Rita Lobo levou sua simpatia e conhecimento culinário aos ouvintes da Eldorado, principalmente com Panelinha no Rádio, que chegou a ganhar o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) de melhor programa de rádio da categoria Variedades.
Outra atração premiada pela APCA foi Chocolate Quente, conduzida pela cantora Paula Lima, com curadoria dedicada à música negra nacional e internacional.
O jornalista Pedro Andrade, ex-integrante do Manhattan Connection, comandou na Eldorado o semanal Conexão América. Direto de Nova York, Andrade unia música, cultura, entretenimento e conversava com ouvintes.
O fundador da revista Trip, Paulo Lima, foi outro profissional capaz de atrair uma legião de ouvintes com o talk show Trip FM, que recebeu convidados para entrevistas leves e descontraídas. O Trip FM, inclusive, virou uma coluna do Estadão. Publicada semanalmente, ela traz entrevistas de fôlego para serem lidas com calma nas manhãs de sábado.
Mais recentemente, no ano passado, a cantora Fernanda Takai, da banda Pato Fu, apresentou Planeta Eldorado, uma série especial de 13 episódios dedicada a temas ambientais e à cobertura da COP-30.
Diversos talentos têm ajudado a construir a reputação cultural da emissora ao longo dos anos: Mauricio Pereira, Mariana Aydar, Derico Sciotti, Marina Person, Sarah Oliveira, Roberta Martinelli, Sergio Scarpelli, Leandro Cacossi, Emanuel Bomfim, entre outros - como o radialista Edgard Benedito Gonçalves, figura histórica e funcionário mais longevo da Eldorado, falecido em 2025, e responsável pela digitalização e gestão do acervo da rádio.
História reconhecida e premiada
Foram inúmeros os prêmios recebidos pela Rádio Eldorado ao longo de sua trajetória por programas jornalísticos e musicais. Mais precisamente, a emissora acumulou 41 troféus concedidos pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). O primeiro deles foi concedido em 1982, o Grande Prêmio da Crítica - Eldorado AM, pela valorização da música brasileira, apenas dois anos após a organização criar uma categoria voltada ao rádio.
Em 2026, o apresentador Haisem Abaki ganhou o Prêmio APCA na categoria Profissional de Rádio, devido à apresentação dos programas Jornal Eldorado e Eldorado em Campo. No ano passado, o Clube do Livro Eldorado, comandado por Roberta Martinelli, foi premiado como Destaque do Ano.
A emissora também foi reconhecida por programas que marcaram época, como o Espaço Informal, que fez sucesso dos anos 1990 até o início dos anos 2000, o Sala dos Professores, em que Daniel Daibem explicava como o jazz era feito (2007), e o Panelinha no Rádio, com a chef e apresentadora Rita Lobo (2013).






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