É cedo para Lula desistir. Suas chances de virar no segundo turno são reduzidas, mas diferentes de zero. Até o dia 25, tudo pode acontecer. De todo modo, o petista já deve implementar um plano de redução de danos institucionais, que começa pelo preenchimento de cargos estratégicos que estão em aberto.
Refiro-me a quatro ou cinco dezenas de postos de direção em órgãos federais e vagas em tribunais que estão sem titular. Essas posições são providas com nomes indicados pelo presidente e aprovados pelo Senado. Para dar alguns exemplos, estão em aberto uma cadeira no STF, três no STJ, duas diretorias no BC, uma na CVM e três no Cade.
O acúmulo de tantos cargos vagos é uma anomalia que podemos atribuir a desentendimentos entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Mas o mundo que existia até domingo (4), no qual as rusgas tinham suas razões de ser, não existe mais.
Lula possivelmente encerrará sua carreira, Alcolumbre viu minguarem suas chances de ser reconduzido ao comando da Câmara Alta e 18 dos 32 senadores que tentaram a reeleição perderam. Estão dadas as condições políticas para desatar o travamento. Na prática, é um pouco mais complicado. Mesmo se Lula mandasse todos os nomes amanhã, não haveria tempo hábil para votar tantas indicações até dezembro. Isso significa que Lula precisa não só correr como também ser seletivo.
A joia da coroa é a vaga no STF. Lula, que já teve uma indicação rejeitada, o que não ocorria desde o século 19, pode tentar de novo. Tem o direito legal de fazê-lo e o dever moral de procurar impedir que uma eventual administração Bolsonaro indique quatro ou mais nomes para a corte (além da vaga aberta, há três aposentadorias programadas até 2030, sem considerar impeachments e outras intercorrências).
É claro que, para dar certo, Lula não poderia apontar um apaniguado; teria de indicar um jurista com importante produção acadêmica e alta respeitabilidade. A dúvida é se, na atual conjuntura, uma pessoa de alta respeitabilidade toparia entrar para o STF.

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