sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Minas Gerais foi origem do golpe de 1964 e alvo do bolsonarismo, Frederico Vasconcelos -FSP

 Na madrugada de 31 de março de 1964, o general Olympio Mourão Filho mobilizou suas tropas de Juiz de Fora (255 km de Belo Horizonte) em direção ao Rio de Janeiro. Precipitou o golpe que depôs o presidente João Goulart e deu origem à ditadura militar, que durou 21 anos.

"Meu verdadeiro e principal papel consistiu em ter articulado o movimento em todo o país e depois ter começado a revolução em Minas. Se nós não o tivéssemos feito, ela não teria sido jamais começada", Mourão escreveu.

As memórias de Mourão foram extraídas do arquivo do historiador Hélio Silva, que publicou em livro, cumprindo promessa ao general.

A imagem mostra um evento de solenidade de instalação do Tribunal Regional Federal da 6ª Região. No fundo, há um painel com o texto 'SOLENIDADE DE INSTALAÇÃO' e os logotipos do CJF e do STJ. Um homem em um terno escuro está em pé ao microfone, falando, enquanto quatro outros homens estão sentados à mesa, observando. O ambiente é formal, com uma decoração que inclui bandeiras e um padrão de cores em verde e azul.
O então presidente Jair Bolsonaro na instalação do TRF-6 (Tribunal Regional Federal da 6ª Região), em Belo Horizonte, em 2022 - Clauber Cleber Caetano - 19.ago.22/Divulgação TRF-6

A trama bolsonarista deve ter feito o percurso inverso. Foi articulada na capital federal. Um dos objetivos era atrair o Judiciário mineiro em prol da reeleição de Jair Bolsonaro com os votos do segundo maior colégio eleitoral do país.

Na apresentação de "Memórias: A verdade de um revolucionário" (L&PM Editores, 1978), Hélio Silva diz que o livro é o "único registro, dia-a-dia, do nascimento e desdobramento da conspiração e da eclosão do movimento de 31 de março de 1964."

Em 1986, Bolsonaro publicou artigo na revista Veja, em cujo título reclamava: "O salário está baixo".

Mourão escreveu no prefácio das memórias: "A anarquia salarial chegou ao ponto de um maquinista de estrada de ferro receber maiores salários do que um general das Forças Armadas e alguns estivadores ganharem mais do que o presidente da República."

O ex-procurador-geral da República Augusto Aras driblou a lista tríplice da Associação Nacional dos Procuradores da República.

Disse acreditar na democracia militar. Militarizou o Ministério Público.

Nomeou Wilson Roberto Trezza, ex-diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência, como membro colaborador do Conselho Nacional do Ministério Público.

Assinou acordo com a Abin para "disseminar no Ministério Público metodologias da doutrina de inteligência". A Abin era chefiada pelo então delegado da Polícia Federal Alexandre Ramagem, responsável pela segurança de Bolsonaro na eleição de 2018.

Homem de meia-idade com barba e cabelo grisalhos veste terno preto, camisa branca e gravata azul, em ambiente interno com parede bege ao fundo.
O ex-procurador-geral da República Augusto Aras em sessão do STF (Supremo Tribunal Federal), em Brasília - Pedro Ladeira - 7.jun.23/Folhapress

O Tribunal de Justiça de Minas Gerais assinou acordo com a Abin para "capacitar magistrados e servidores" nas atividades de inteligência e contrainteligência. Ramagem e o então presidente do TJ-MG, Nelson Missias, assinaram o acordo.

O então presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, abriu as portas do Judiciário aos militares e ajudou a pavimentar a eleição de Bolsonaro quando convidou o general Fernando Azevedo, ex-chefe do Estado Maior do Exército e depois ministro da Defesa, para assessorá-lo em seu gabinete na corte.

Tofolli nasceu três anos depois do golpe militar. Em 2019, pretendeu reescrever a história:

"Hoje, não me refiro nem mais a golpe nem a revolução. Me refiro a movimento de 1964".

Em outubro de 2021, o então presidente Jair Bolsonaro sancionou lei que criou o Tribunal Regional Federal da 6ª Região, em Belo Horizonte.

O projeto é do ministro João Otávio de Noronha, mineiro e aliado do ex-presidente.

A aprovação do TRF-6 foi vista como retribuição ao habeas corpus que Noronha concedeu, em julho de 2020, em favor de Fabrício Queiroz, acusado de participação no esquema das "rachadinhas" no gabinete do senador Flávio Bolsonaro.

Bolsonaro nomeou 10 dos 18 desembargadores escolhidos em votação secreta. São afilhados de políticos e de ministros do STF e do STJ.

A então presidente do STJ, ministra Maria Thereza de Assis Moura, não foi à cerimônia de posse.

Bolsonaro fez discurso de candidato: "Quero pedir a Deus que ilumine todos vocês a aproximadamente 50 dias, quando estaremos decidindo o que nós queremos para o nosso Brasil."

Estavam no auditório os generais Augusto Heleno e Luiz Eduardo Ramos; os senadores Flávio Bolsonaro e Marcos do Val; o ministro Anderson Torres, o deputado federal Nikolas Ferreira e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto.

No final de sua gestão como presidente do TJ-MG, o desembargador Gilson Lemes criou um Escritório de Representação do tribunal em Brasília para fazer lobby pessoal pela reeleição de Jair Bolsonaro.

Lemes pretendia ser indicado ao STF ou STJ.

O TJ-MG alugou imóvel da Confederação Nacional do Comércio (R$ 607 mil, em cinco anos). A inauguração desse consulado refletiu a euforia com a criação do TRF-6.

Homem de terno escuro fala em microfone em púlpito de madeira em sala com painel amarelo. Ao fundo, cinco homens sentados em cadeiras, alguns usando máscara.
O ex-presidente do TJ-MG (Tribunal de Justiça de Minas Gerais), desembargador Gilson Lemes, na inauguração do Escritório de Representação em Brasília - Divulgação TJ-MG

Estavam na cerimônia Eduardo Bolsonaro, João Otávio de Noronha, o então procurador-geral de Justiça de MG, Jarbas Soares Júnior, o então presidente da OAB-MG, Sérgio Rodrigues Leonardo, e a então presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros, Renata Gil.

O desembargador do TJ-MG Marco Aurelio Ferenzini pediu ao CNJ a abertura de processo disciplinar contra Lemes e o então presidente José Arthur de Carvalho Pereira Filho.

Eles foram acusados de autorizar a criação do escritório em Brasília. O CNJ não acolheu o pedido.

Ferenzini considerou o escritório "uma excrescência", com carros oficiais e servidores lotados.

Lemes disse ao então corregedor nacional Luís Felipe Salomão que jamais "participou de qualquer atividade política em apoio à reeleição de Bolsonaro".

Lemes estava no palco da Federação das Indústrias de Minas Gerais quando o governador reeleito Romeu Zema (Novo) formalizou o apoio a Bolsonaro.

Lemes e sua mulher, Aliny Kássia e Silva, fizeram campanha a favor do ex-presidente.

O TJ-MG processou a juíza bolsonarista Ludmila Grilo. O único voto contrário foi o de Lemes.

Lemes disse ter sido sondado para a vaga aberta com a aposentadoria do ministro Marco Aurélio:

"Eu sou terrivelmente cristão", afirmou.

Bolsonaro escolheu o "terrivelmente evangélico" André Mendonça.

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