As mais de 22 milhões de mortes pelo mundo, o caos gerado ante a imprevisibilidade dos tratamentos, a desorganização das respostas ao coronavírus, a desinformação galopante e as repercussões de toda ordem que ainda estão sendo sentidas seis anos após a eclosão da Covid-19 reuniram mais de cem pesquisadores para elaborar um estudo que acaba de ser publicado pela revista científica The Lancet.
Investigadores de diversas áreas —de epidemiologistas a cientistas políticos— analisaram as falhas concretas no combate à pandemia em 20 países para formular respostas que contribuam para uma maior eficácia e melhores resultados frente à possibilidade de uma nova crise sanitária global.
As conclusões estão detalhadas na investigação "Transformar a preparação ante pandemias para alcançar equidade", desenvolvida pela Universidade Nacional de Singapura e por The Lancet, apresentada no âmbito da Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro, em Nova York.
Como explicita o título da pesquisa —assim como o nome da comissão de cientistas à frente do trabalho, Prime (por conta da sigla em inglês para Preparação para Pandemias através de Instituições, Mobilização de Comunidades e Equidade)—, o acesso proporcional de recursos de proteção a toda a população mundial é um fator-chave.
"Responder a uma pandemia com equidade exige tornar visível o que tantas vezes fica fora do diagnóstico. Para avaliar a resposta de um país, precisamos olhar também para quem ficou sem proteção: os resultados gerais podem esconder profundas desigualdades. Isso vale tanto para as desigualdades dentro de cada país quanto para aquelas entre países, que condicionam o acesso a recursos e a possibilidade de proteger suas populações", afirma à Folha a cientista política Marcela Schenck, coordenadora do estudo de caso do Uruguai e integrante da comissão Prime.
"Enfrentar essas desigualdades é tão decisivo para salvar vidas quanto fortalecer as capacidades técnicas dos sistemas de saúde", observa.
No documento, os pesquisadores não se furtam a classificar a resposta à Covid-19 como um "fracasso" e são claros sobre como a ameaça de uma nova pandemia é cada vez maior frente à "alteração dos ecossistemas, o aquecimento global, a urbanização, a mobilidade populacional e os conflitos".
Um enfoque diferencial do estudo é que ele se concentra em falhas não só dos sistemas de saúde mas das estruturas de proteção social e de governança. Mais do que focar em "pessoas vulneráveis", as instituições deveriam se concentrar em corrigir "sistemas que geram vulnerabilidade", escrevem os pesquisadores: "A preparação técnica pergunta se há planos e recursos. A preparação integral pergunta se eles funcionam sob pressão".
O estudo modeliza uma hipotética futura pandemia de influenza A para analisar o impacto sobre distintos países de acordo com diferentes estratégias. "O rápido desenvolvimento de vacinas poderia reduzir as mortes em 59%, de 58,5 milhões para 23,9 milhões, inclusive se os imunizantes forem distribuídos primeiro a países com maior capacidade de pagamento", afirmam.
No entanto, com uma distribuição mais equitativa —ou seja, se o acesso às vacinas tiver como critério a densidade populacional, e não o poder aquisitivo das sociedades afetadas—, o número global de mortes seria ainda menor: 21,2 milhões —uma redução de 2,7 milhões, ou 64% em relação ao número inicial. O equivalente a 37,3 milhões de mortes evitadas.
Medidas para melhorar a confiança nas vacinas diminuiriam ainda mais o número de mortes e salvariam mais 1,9 milhão de vidas, sinalizam os autores, para resumir que preparação integral eficaz depende de acesso a vacinas, distribuição equitativa, confiança pública e coordenação internacional desde o início.
"Toda pessoa merece ser protegida de dificuldades evitáveis e de problemas de saúde. Quando a próxima pandemia chegar, devemos ser capazes de dizer que fizemos todo o possível para estar preparados", afirma The Lancet em seu duro editorial, sobre a realidade traduzida pela investigação.
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