quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Após fuga, Flávio se autodeclara ‘presidente eleito’ em carta golpista e agradece Trump e Milei- OESP

 Avião que levava Flávio Bolsonaro e família pousa em Miami

Flávio desembarcou com a mulher, Fernanda Bolsonaro, e as filhas pouco depois das 10h30, pelo horário de Brasília. Crédito: CNN Brasil

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

BRASÍLIA – Após fugir do Brasil para Miami, nos Estados Unidos, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato derrotado à Presidência da República, divulgou carta nesta quarta-feira, 28, agradecendo aos presidentes da Argentina, Javier Milei, e dos Estados Unidos, Donald Trump. Em tom golpista, o senador se autodeclarou como “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. É a primeira vez que ele se manifesta após deixar o País.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) foi procurado pelo Estadão, mas não respondeu.

Flávio Bolsonaro ao chegar em Miami, nos Estados Unidos, com a família
Flávio Bolsonaro ao chegar em Miami, nos Estados Unidos, com a família Foto: Marta Lavandier/AP Photo

A carta, divulgada por apoiadores e pelo próprio senador, já tem três versões. A primeira tem um brasão escrito “Estados Unidos do Brazil”, com o nome do País escrito em inglês e a data de 15 de novembro de 1889. O emblema remonta à Proclamação da República e vigorou até 1968.

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Carta de Flávio Bolsonaro usa brasão dos "Estados Unidos do Brazil"
Carta de Flávio Bolsonaro usa brasão dos "Estados Unidos do Brazil" Foto: Reprodução / Estadão

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O manifesto foi enviado pelo blogueiro Paulo Figueiredo. Quinze minutos após distribuir o texto, o influenciador divulgou uma nova versão, atualizando o brasão com nome correto do País. Flávio abrandou o tom em uma terceira versão, publicada no X às 17h51, autointitulando-se “o líder do Brasil”.

“Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil. Antes de mais nada, queria agradecer ao Presidente Milei, pela coragem, senso de justiça e legalidade, ao Presidente Trump e ao maravilhoso povo americano por me acolher. Essa é uma terra de liberdades e irmãos que comungam dos mesmos valores das boas pessoas do meu país. O Presidente Trump é um grande defensor da liberdade de expressão”, escreveu o senador nas duas primeiras versões da carta.

Flávio chamou o resultado do segundo turno de “fraude eleitoral”, sem apresentar provas, repetindo o discurso do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em 2022. O petista foi reeleito com 51,78% dos votos válidos, ante 48,22% de Flávio – por uma diferença de 4,4 milhões de votos.

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Também caracterizou como “atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula” a prorrogação em duas horas do horário de votação definida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin, após pedidos das duas chapas. O senador disse que a decisão acrescentou 10 milhões de votos a Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Tanto a campanha de Lula quanto a de Flávio pediram a prorrogação do segundo turno.

A vitória de Lula foi reconhecida pelo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, na noite do último domingo, 25. O Partido Liberal (PL) e o vice de Flávio na chapa derrotada, o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), também atestaram o resultado das urnas.

“Reconhecemos o resultado presidencial, proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas entendemos que os questionamentos levantados precisam ser devidamente esclarecidos dentro de um debate político equilibrado e democrático. Seguiremos acompanhando os fatos e buscando respostas com responsabilidade, transparência e respeito às instituições”, segundo a nota do partido, assinada pelo presidente da legenda, Valdemar Costa Neto.

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“Nossas bandeiras continuam aí e nós não vamos desistir do Brasil. Nós lutamos até o fim, permanecemos de pé, mantivemos nossos princípios. Têm vitórias que representam derrotas e têm derrotas que são verdadeiras vitórias. Nós ganhamos, permanecemos firmes naquilo que acreditamos. O Brasil, no futuro próximo, vai vencer”, disse Gaspar em pronunciamento nas redes sociais.

Levantamento do Monitor do Debate Político no Meio Digital, da Universidade de São Paulo (USP), aponta que houve 34,7 mil votos após às 17h no segundo turno, até as 19h. O número é menor que os 40 mil registrados em 2022, quando não houve extensão de prazo.

“Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno”, prosseguiu Flávio, na carta.

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No texto, o candidato derrotado se comparou políticos de esquerda e de direita que partiram para o exílio. Entre os nomes, estão o advogado e diplomata Rui Barbosa, o ex-presidente Floriano Peixoto, o líder francês Charles de Gaulle, o mártir da independência de Cuba José Martí, o ex-presidente interino da Venezuela Juan Guaidó, o ex-embaixador da Venezuela na Argentina Edmundo González e a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz María Corina Machado, opositora de Hugo Chavéz.

“Não sou o primeiro a ter que lutar pelo próprio país longe dele. Rui Barbosa foi para o exílio por enfrentar o arbítrio de Floriano Peixoto e de lá seguiu defendendo a lei e a liberdade. Charles de Gaulle liderou a França Livre a partir de Londres, condenado à morte pelo regime de Vichy, e voltou para libertar o seu país. José Martí organizou a luta pela independência de Cuba a partir de Nova York. Na Venezuela, Juan Guaidó e Edmundo González tiveram que deixar o país por enfrentar a ditadura chavista, e María Corina Machado, mesmo perseguida, se recusou a legitimar a fraude e se tornou um símbolo mundial da resistência democrática. Todos eles foram tratados como criminosos pelos regimes que enfrentavam. A história os chamou de outra coisa.”

Lula, Flávio e os respectivos partidos ingressaram na Justiça com pedidos de cassação de chapa um contra o outro durante a campanha eleitoral.

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Sem citar o nome do ministro do STF Alexandre de Moraes, o senador o acusou de “sequestrar meus passaportes”.

A Polícia Federal (PF) pediu a suspensão dos passaportes dele no domingo, sete minutos após o resultado do segundo turno. Moraes acatou. A ordem, descumprida por Flávio, se deu em um inquérito que apura suspeitas de lavagem de dinheiro do senador com o advogado Willer Tomaz.

A corporação encontrou registros de e-mail em que o presidenciável derrotado era citado como operador de uma conta no exterior vinculada ao advogado, o que poderia gerar um risco de fuga para uso de recursos no exterior. De acordo com a PF, Tomaz deixou o Brasil e foi para os Estados Unidos após passar a ser investigado.

Como mostrou o Estadão, Flávio, a mulher, a dentista Fernanda Bolsonaro, e as filhas deixaram o Brasil de carro via Foz do Iguaçu na terça-feira, 27. A família embarcou num jato particular no Aeroporto Internacional de Cataratas del Iguazu, na Argentina, e desembarcou em Miami, pouco depois das 10h30, pelo horário de Brasília.

Flávio usou o passaporte italiano para entrar na Argentina e diplomático para os EUA. A PF já havia cancelado os documentos brasileiros, que não poderiam ter sido usados.

“Não era minha intenção deixar minha pátria, mas eu sei exatamente onde isso vai dar. Isso é o manual clássico de qualquer golpe de Estado. A perseguição política que começou com meu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e se espalhou para milhares de outros brasileiros patriotas comuns e até mesmo cidadãos americanos, tem um único objetivo: silenciar qualquer pessoa que não concorde com o regime de exceção instaurado no Brasil, através de uma Suprema Corte aparelhada pela organização criminosa petista.”

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Antes da fuga, o discurso era outro. O senador disse que ia “pedir a anulação” do segundo turno no domingo, em entrevista a jornalistas, e buscar a cassação da chapa de Lula e do vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSB), na segunda-feira.

O irmão dele – o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), cassado pela Câmara por excesso de faltas – também está nos EUA desde o início de 2025. Flávio apelou à comunidade internacional.

O senador disse que comandará a oposição a Lula de fora do País, tentando assumir a postura de um líder político exilado. A fuga deixou em aberto o comando da direita no País e dúvidas sobre o próximo líder.

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Como mostrou o Estadão, Flávio disse a aliados que a ex-primeira-dama e senadora eleita Michelle Bolsonaro (PL-DF) e o irmão e senador eleito Carlos Bolsonaro (PL-SC) não tinham perfil para a tarefa.

O senador também acenou ao senador Rogério Marinho (PL-RN), que coordenou a campanha presidencial dele, ao dizer que o apoia como candidato à presidência do Senado. O parlamentar disse em entrevista a jornalistas que só soube da saída do aliado por meio de notícias.

“Aos senadores, deputados e governadores que ajudei a eleger, e em especial ao meu candidato à presidência do Senado, Rogério Marinho: sei que hoje vocês não têm a liberdade necessária para o pleno exercício da atividade política. Por isso, liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr”, continuou.

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No segundo turno, Flávio contou com o apoio de três candidatos ao Palácio do Planalto: Augusto Cury (Avante), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD). O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), foram aliados de primeira hora.

O senador Sérgio Moro (PL-PR), eleito governador do Paraná, se aliou ao candidato derrotado anos depois de romper publicamente com o pai dele. Além deles, o ex-presidente Michel Temer (MDB), o ex-governador de São Paulo João Doria, o ex-ministro de Assuntos Estratégicos Roberto Mangabeira Unger e o ex-ministro do Esporte Aldo Rebelo também se posicionaram a favor dele durante a campanha.

“Saí do Brasil, mas não abandonei os brasileiros. Esta luta não terminou no dia 25 de outubro. Ela só termina quando o Brasil voltar a ser um país livre. E esse dia vai chegar”, disse Flávio.

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