Eleito governador de São Paulo ainda em primeiro turno –algo que não acontecia desde a vitória de Geraldo Alckmin, então no PSDB, em 2014, por pouco mais de 57% dos votos–, Tarcísio de Freitas (Republicanos), de 51 anos, será cada vez mais catapultado, de agora em diante, à eleição presidencial de 2030.
Nos bastidores –em São Paulo e Brasília– isso é ou uma unanimidade ou uma expectativa comum.
"Ele sabe bem disso", avalia Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022) e que concorria, até semanas atrás, a uma vaga no Senado por São Paulo pelo Partido Novo, da coalizão do governador.
"Essa vitória o coloca muito forte, sem dúvidas [na corrida pelo Planalto em 2030]", prossegue ele.
"Muitos atores políticos em Brasília já esperam algo nesse sentido", confirma Murilo de Aragão, advogado e cientista político fundador da Arko Advice, uma das principais consultorias políticas da capital do país.
Essa posição se dá não só por causa do resultado (62,85% contra 36,22% de Fernando Haddad, do PT, com 90,02% das urnas apuradas) ou pelo flerte que manteve com a candidatura ao Planalto, já neste ano, nos meses anteriores à campanha, mas também pelo lugar que o segundo mandato em São Paulo lhe dará dentro da dinâmica política do país.
"Não é sempre uma causalidade, mas governar o Estado mais populoso e com os melhores dados econômicos do país é, claro, uma grande vitrine para o cenário nacional", analisa Henrique Curi, cientista político que leciona na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP) e que atua como consultor da Metapolítica.
Tarcísio joga, também, com o histórico comum da relação entre o Palácio dos Bandeirantes, a sede do governo paulista, e a busca pela cadeira presidencial, em Brasília.
Em 2006, José Serra (PSDB) venceu a eleição estadual em primeiro turno, com quase 58% dos votos, o que o levou à indicação do partido para a disputa nacional na eleição de 2010.
Antes dele, o próprio Alckmin havia vencido o pleito paulista de 2002, no segundo turno, somando 58% dos votos.
Governou o Estado em paralelo aos preparativos de sua candidatura presidencial para 2006, em que perdeu para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por uma diferença de 6,6 milhões de votos.
Mas, ao contrário de Serra e Alckmin, Tarcísio de Freitas encontrará as condições ideais para levar essa disputa a cabo, apontam especialistas e fontes ouvidas pela BBC News Brasil.
Em primeiro lugar, porque a vitória logo no primeiro turno em São Paulo sobre o ex-ministro da Fazenda de Lula aponta para a capilaridade que o governador tem entre antigos eleitores do próprio PSDB no Estado —o mais populoso do país, com 44,4 milhões de pessoas, segundo o Censo de 2022, do IBGE. Logo, o maior colégio eleitoral do país.
Para Curi, trata-se de um inequívoco capital político que ele credita à reorganização do PSD, de Gilberto Kassab, no interior paulista.
"Durante três décadas, o PSDB se estruturou por meio de coordenadores posicionados nas regiões administrativas de São Paulo com o objetivo de levar demandas locais ao governo, que as atendia de forma apurada. O partido não era uma grande marca, assim como a identificação partidária não era tão relevante", explica ele, que é autor da dissertação "Ninho dos Tucanos: PSDB em São Paulo (1994-2018)", defendida em 2021 na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
"O que o PSD fez? Se interiorizou muito rápido, entre 2020 e 2024, por meio da migração de prefeitos. O importante era manter a articulação entre deputados estaduais, prefeituras e o fluxo de demandas levadas ao governador. Por tudo isso, o papel de Kassab nessa reeleição em primeiro turno do Tarcísio foi determinante."
Foi assim que ele não precisou conquistar novos eleitores em São Paulo, e tampouco se prendeu ao fato de ter nascido no Rio de Janeiro: ele os herdou "com uma máquina partidária, o PSD, por trás".
Para Aragão, o "fenômeno" Tarcísio em São Paulo sequer se explica somente no voto tucano. "Ele juntou os eleitores do [Paulo] Maluf [ex-governador do Estado entre 1979 e 1982] com os do PSDB contra o PT. O discurso dele encontrou eco na direita, na centro-direita e no centro", observa.
Ou como tentava traduzir o presidente de uma grande entidade empresarial à reportagem, nos dias anteriores à eleição, ele, de um lado, "capturou a força do PSDB, que não está morta, enquanto era puxado pelo bolsonarismo de outro lado que, em São Paulo, se mistura ao forte antipetismo".
É essa, de fato, a sua segunda vantagem para 2030 —e que o levou à reeleição em primeiro turno: a rejeição ainda mais intensa ao PT.
Em 2002, o candidato do partido em São Paulo, José Genoíno, era rejeitado por 19% do eleitorado. Na eleição seguinte, em 2006, Aloizio Mercadante chegou ao primeiro turno com 24% de pessoas que diziam não escolhê-lo de jeito nenhum, mesma taxa que sustentou no pleito estadual de 2010.
Em 2022, porém, na primeira corrida entre Haddad e Tarcísio, o candidato do PT somava 50% de taxa de rejeição, contra 30% do então ex-ministro de Jair Bolsonaro. Esses números se repetiram até o final da campanha desse ano.
"Ele teve a tempestade perfeita: um eleitor mais identificado politicamente do que o antigo votante do PSDB, um partido que mantém a coordenação política de antes e uma essa rejeição histórica ao PT", observa Curi.
"Em outras palavras, ele vai passar os próximo quatro anos sentado em uma caixa de dinheiro, administrando um Estado já arrumado e esperando 2030 chegar", disse o diretor de outra entidade empresarial paulista, sediada na avenida Faria Lima, na capital, que preferiu não se identificar por ter uma relação relativamente próxima a ele, à BBC News Brasil.
Há, em terceiro lugar —e principalmente— uma conjuntura específica, histórica, do jogo político: se Tarcísio é um nome certo para a próxima eleição presidencial, principalmente após a sua vitória expressiva deste domingo (4), ninguém sabe ainda com quem ele concorrerá, de fato.
O resultado do segundo turno presidencial, daqui algumas semanas, será definidor das suas possibilidades reais.
"Uma parte expressiva do eleitorado do Flávio já preferia o Tarcísio. Se ele fosse o candidato, acho que estaria liderando as pesquisas com mais folga", reflete Murilo de Aragão, para emendar sua impressão de que "a chapa que Lula mais temia era, justamente, a de Tarcísio com a Michelle [Bolsonaro, ex-primeira-dama e candidata ao Senado pelo PL].
Em 2030, sem Lula na disputa —que não poderá tentar uma segunda reeleição— e com seu padrinho político, Jair Bolsonaro, inelegível até 2060, o governador de São Paulo teria, como único obstáculo, a briga dentro da própria direita sobre seu nome.
"Na verdade, ele só teria o espaço encurtado se um Flávio eleito anistiasse completamente o pai e cedesse a vaga da reeleição para ele", continua o fundador da Arko.
"Mas ainda tem muita água para rolar."
'Poucas polêmicas'
Além de chavões políticos, como "seriedade" e "eficiência", Ricardo Salles acredita em outra explicação para o sucesso de Tarcísio em São Paulo: o seu primeiro governo foi de "poucas polêmicas".
"Mais do que isso", analisa Murilo de Aragão, "é o fato de serem polêmicas de dupla interpretação. A esquerda, por exemplo, o acusa pela Operação Verão, enquanto a direita vê nela, justamente, o empenho em resolver a questão [da segurança pública]".
Operação Verão, originalmente, é o nome que a Polícia Militar paulista dá ao aumento de agentes nas cidades do litoral do Estado durante o fim do ano, quando elas recebem fluxos intensos tanto de municípios de São Paulo quanto de outros estados.
No entanto, em 2024, a PM se valeu dela para estender as ações de uma operação anterior, a Escudo, que vigorou entre julho e setembro de 2023, logo após a morte do soldado Patrick Reis, de 30 anos, das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), o batalhão especial da polícia paulista, no bairro da Vila Zilda, no Guarujá.
No total, 28 pessoas morreram em ações da Operação Escudo em Santos e no Guarujá, segundo a Defensoria Pública do Estado de São Paulo.
Na metade de 2025, o órgão publicou um relatório, ao lado do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni-UFF), apontando, entre outras coisas, que não existe comprovação de que parte significativa (40%) das vítimas fatais disparou contra os agentes —a principal justificativa de Tarcísio e da polícia para os casos que envolveram mortes.
Por outro lado, quase todas as vítimas que morreram sofreram disparos de fuzis.
Depois, em fevereiro de 2024, a morte de outro soldado da Rota, Samuel Wesley Cosmo, no bairro do Bom Retiro, em Santos, chegou a fazer a Secretaria de Segurança Pública (SSP) ser transferida temporariamente para a cidade, ampliando o escopo da Operação Verão daquele ano. Foram mais 58 mortes —sendo 56 civis e dois agentes das forças de segurança.
O governador, que já vinha sendo criticado pela operação, elevou a crise ao dizer, em um evento, que não "estava nem aí" para as denúncias de moradores e funcionários do sistema de saúde locais de que a Polícia Militar levava cadáveres a hospitais da Baixada Santista como se as vítimas ainda estivessem vivas para evitar perícia.
"Pode ir na ONU, na Liga da Justiça, que eu não tô nem aí", afirmou ele, em março daquele ano.
"Sabe qual é a melhor resposta para isso?", questiona Murilo de Aragão, para, então, responder. "O Derrite".
Ele se refere à candidatura de Guilherme Derrite (PP) ao Senado. Na época de ambas as operações, ele era o secretário de Segurança Pública do Estado.
O presidente de uma grande entidade empresarial do Estado revelou à reportagem que, no início do ano, Tarcísio não conseguia esconder sua preocupação com a insegurança pública.
"É uma crise, mas ambígua. Os indicadores de violência caíram enquanto a percepção sobre ela aumentou", explica Aragão.
De fato, só a cidade de São Paulo registrou mais de 154 mil roubos de celulares em 2025. Foram 17 ocorrências desse tipo a cada hora. Quase cinco em cada dez pessoas no Estado (47%) dizem ter medo de ser assaltadas, e 42% temem serem assassinada, de acordo com uma pesquisa de julho do Datafolha.
Publicamente, seus argumentos se concentraram nos projetos de integração de sistemas, como o Muralha Paulista, lançado em 2024, e na queda no número de homicídios (foram 2.438 em 2025), um dos mais baixos da série histórica.
Eles sobrepuseram o que parecia ser, segundo interlocutores da Alesp ouvidos pela reportagem, um ativo eleitoral que Tarcísio acreditava ser mais útil durante a campanha: as ações da Polícia Militar na região da Cracolândia, no centro de São Paulo, em 2024.
A campanha do governador usou imagens da região esvaziada, enquanto ele mesmo chegou a reinaugurar uma praça do bairro, ao lado do prefeito Ricardo Nunes (MDB) e do também candidato ao Senado André do Prado.
Mas, segundo o Programa Redenção, da Prefeitura de São Paulo, o número de pessoas em situação de grave dependência no centro mais do que dobrou, no primeiro semestre desse ano, em comparação ao mesmo período do ano passado: 447 contra 222 casos.
Para Henrique Curi, em todos esses casos, a construção do perfil do governador jogou um papel relevante na avaliação do eleitorado sobre a administração dele nas urnas.
"Essa coisa do 'técnico', que o João Doria também tentou criar, o tornou muito palatável aos eleitores de centro-direita, que é uma das bases dele."
Ausências em reuniões
Se há algo que se repete à exaustão quando se conversa tanto com funcionários da gestão de Tarcísio quanto com quem tentou se aproximar dela é o hábito do governador em desmarcar reuniões em cima da hora.
"Ele ficou de vir aqui por três vezes. Nos preparávamos, chamávamos os conselheiros, que vinham do interior e, faltando uma, duas horas, ele mandava alguém avisar que não viria", conta o presidente da entidade representativa.
"No fim, o primeiro mandato acabou e ele não veio. O pessoal ficou melindrado".
A reportagem ouviu relatos parecidos de aliados na Assembleia Legislativa, de empresários de dois segmentos diferentes, na TV Cultura (onde ele avisou, no mesmo dia, que não compareceria à entrevista ao programa Roda Viva, em agosto) e de funcionários de pastas como a Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp), justamente uma das que tem mais proximidade.
Desde a pós-graduação em Logística, na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), em Deodoro, no Rio de Janeiro, em 2004, que Tarcísio se dedica a estudar engenharia de transportes. Foi o tema do seu Mestrado no Instituto Militar de Engenharia (IME), na Urca, no Rio, cuja dissertação não está acessível publicamente.
Dentro do governo, vez ou outra se ouve que a Artesp foi a pasta que Tarcísio acompanhou mais de perto durante o primeiro governo —e daí a estranheza quando ele desmarcava suas reuniões com a equipe.
A agência, responsável por gerenciar as concessões de projetos de transporte à iniciativa privada, destravou o contrato com a espanhola Acciona em 2020 para retomar as obras da Linha Laranja do Metrô da capital paulista, que ligará, quando finalizada, a Zona Norte à Zona Sul.
O projeto começou em 2010, no governo Alckmin, com o objetivo de ficar pronto até a Copa do Mundo de futebol masculino de 2014, no Brasil.
Foi a agência que também encabeçou o aditivo de R$ 3,7 bilhões, assinado no final de 2025, para acelerar a entrega da linha até julho deste ano —no limite para que Tarcísio inaugurasse a obra ainda dentro da sua primeira gestão.
O hábito não foi realmente um problema no primeiro mandato, mas o diretor de uma entidade da Faria Lima alertava, na véspera da eleição, que ele precisará ser mais atento a esse tipo de demanda a partir de agora. "Se ele quiser mesmo ser presidente, terá que fugir menos dessas reuniões."
Este texto foi publicado originalmente aqui.

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