sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Hélio Schwartsman - Marmelada fiscal- FSP

 

São Paulo

Numa eleição incerta, uma certeza: nem Lula nem Flávio Bolsonaro estão sendo muito honestos em suas promessas para a economia. E tudo bem que seja assim. O eleitor não espera mesmo que políticos sejam totalmente sinceros. É um pouco como o velho Telecatch, os progra mas de luta livre que faziam sucesso na TV dos anos 1960 e 1970. Era tudo marmelada, os espectadores sabiam disso e mesmo assim participavam do espetáculo, torcendo por seus atletas favoritos como se acreditassem nas encenações.

A inevitabilidade do estelionato eleitoral, qualquer que seja o vencedor do pleito de domingo (25), tem sido objeto de análises e colunas publicadas na imprensa. Ou bem o próximo presidente virá com cortes nos gastos que apontem para a estabilização do crescimento da dívida pública, ou o famoso mercado fará o ajuste por conta própria, via dólar e juros. E a escala dos cortes necessários para começar a corrigir nossos desarranjos fiscais não parece muito compatível com as promessas de ambos os candidatos, que envolvem diferentes combinações de manutenção e melhoria de benefícios sociais, redução de impostos e crédito e subsídios para todos.

À esquerda, homem de terno azul e camisa branca sorri levemente, com mulher ao fundo usando óculos. À direita, homem de cabelos brancos e barba, veste terno preto, camisa branca e gravata listrada verde e amarela, fala em microfone com logo de emissora ao fundo.
Os candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) durante o debate presidencial na Band - Eduardo Knapp - 18.out.26/Folhapress

O paradoxo é que, embora o cidadão precifique algum nível de mentira, não trata todos os estelionatos eleitorais da mesma forma. Há casos em que o custo político do logro sobe dramaticamente. Três variáveis-chave são a rapidez com que o discurso de campanha é desmascarado, o quanto as promessas violadas doem no bolso do eleitor e a habilidade do dirigente em empurrar a culpa para terceiros.

A minha sensação é que Lula tentaria manter as promessas. Ele, afinal, já deu repetidos sinais de que não é um entusiasta da disciplina fiscal e já demonstrou ser bom em responsabilizar "elites" e "heranças malditas" por seus erros. O ajuste seria imposto. O caso de Flávio é pior. Pelo que leio, ele tem prometido uma coisa ao público geral e o exato avesso disso a empresários e banqueiros. O discurso duplo tende a potencializar efeitos adversos de estelionatos eleitorais.

Nenhum comentário: