terça-feira, 13 de outubro de 2026

Abram alas para o maestro da rede de distribuição, e rápido- Joisa Dutra - FSP

 O Ministério de Minas e Energia (MME) submeteu à consulta pública o Plano Decenal de Expansão de Energia 2036. A projeção para a micro e minigeração distribuída já nasce defasada: passaria de 50,3 GW ao fim de 2026 para 91,7 GW em 2036.

Isso equivale a crescimento de cerca de 4 GW por ano, metade do instalado só em 2025. É verdade que o mercado desacelerou. Ainda assim, o histórico recomenda a um só tempo humildade e ambição: nas edições recentes do plano, o número previsto para dez anos foi antecipado em até sete anos. O PDE 2029 previa 11,4 GW para 2029; o país passou dessa marca em 2022. O PDE 2031 estimava 37 GW para 2031; a marca foi atingida no início de 2025.

Painéis solares no Bairro da Paz, em Salvador (BA)
Painéis solares no Bairro da Paz, em Salvador (BA) - Rafaela Araújo - 3.mar.24/Folhapress

Não se trata de erro de planilha. As redes são planejadas com base nesses números, e a conta chegou: distribuidoras recusam conexões alegando inversão de fluxo, e o regulador propôs, em setembro, permitir que limitem a injeção de até 33 GW de minigeração. O operador do sistema de distribuição —o DSO, na sigla em inglês— já está chegando. Mas pela porta dos fundos, como gestor de cortes, e não como maestro.

O consumidor hoje já pode produzir, injetar, armazenar e modular seu consumo em benefício próprio e do sistema. Mas mais recursos distribuídos não significam, por si só, mais eficiência. Não basta pôr mais músicos na orquestra se o regente continuar trabalhando como quando havia meia dúzia de instrumentos. Eficiência é questão de desenho do sistema.

O ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) já enxerga, analisa e orquestra o sistema em tempo real. Na distribuição, ocorre quase o inverso: é abaixo das subestações —e, cada vez mais, atrás dos medidores, no jargão do setor— que se multiplicam painéis solares, baterias e carros elétricos. E é justamente ali que a visibilidade é menor. Tão menor que o próprio ONS trabalha com a hipótese de 12 a 15 GW de geração não registrada.

A orquestração desse novo sistema de distribuição de eletricidade exige digitalização: medidores inteligentes que funcionem como sensores da rede, digital twins, automação e inteligência artificial capazes de coordenar o que seria humanamente impossível gerir recurso por recurso. Mas um bom maestro não toca os instrumentos; rege por meio da partitura. Para a distribuidora, isso significa coordenar recursos de terceiros com regras e preços claros, não controlá-los nem competir com eles.

No Brasil, essa transição começa a sair dos PowerPoints. O FlexLab, da Energisa, tem 7 pilotos e 11 planos de trabalho até 2029; em Palmas (TO), uma usina virtual coordena geração solar descentralizada e baterias desde 2024. Mais do que a escala, importa o que esses pilotos testam, sob quais premissas e com que resultados —é isso que revela seu potencial de escalabilidade e transformação. Até aqui, a evidência mostra sobretudo valor privado: baterias atrás do medidor reduziram a conta de clientes comerciais entre 9% e 19%, segundo a empresa. Mas esses ganhos dependem do desenho tarifário atual. A tese mais transformadora —contratar flexibilidade naquele local e horário em vez de construir mais
ede— começa a ser testada agora.

É aí que experimentação encontra regulação. A inovação só ganha escala quando o aprendizado vira regra, sinal econômico e incentivo. Falta reconhecer o valor da flexibilidade para a rede, e não apenas para o cliente, mas com evidência aberta e verificável.

A transição energética não consiste apenas em pôr novos instrumentos na orquestra. É preciso reinventar a regência e escrever a partitura econômica que sinalize a cada músico quando tocar quanto vale sua contribuição e quem paga por ela. O DSO vai chegar de qualquer jeito. Melhor abrir alas —e rápido— do que deixá-lo entrar pela porta dos fundos.

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