Você sabia que um dos principais filósofos do estoicismo foi um escravo que não deixou escritos próprios? É o caso de Epicteto (também escrito como Epiteto), pensador nascido no século 1 que influenciou Marco Aurélio e outros muitos nomes importantes da Escola Estoica.
Apesar de não ter escrito livros, as ideias do filósofo foram compilados por um de seus discípulos, Flávio Arriano. Uma dessas coleções deu origem ao Manual do Estoicismo, que acaba de ganhar uma nova edição pela Penguin-Companhia.
Epicteto nasceu por volta do ano 50 na Frígia, região que hoje corresponde à Turquia. Acredita-se que ele morreu já depois dos 80 anos, em Nicópolis, na Grécia. Contudo, viveu a maior parte da vida em Roma, onde chegou como servo de Epafrodito, um funcionário do imperador Nero (37 - 68).

Ainda como um escravo, Epicteto ganhou permissão para frequentar aulas de Caio Musônio Rufo, considerado um dos primeiros filósofos estoicistas. Após a morte de Nero, Epicteto foi libertado sob razões que permanecem pouco conhecidas. A partir daí, ele se dedicou integralmente à filosofia. Já em Nicópolis, fundou uma escola, onde ganhou muitos discípulos, incluindo Flávio Arriano.
Epicteto é tido como um dos grandes pilares do estoicismo, ao lado de Sêneca e Marco Aurélio. A maior parte dos historiadores acredita que o filósofo já estava morto quando o imperador subiu ao poder, mas sabe-se que ele foi uma de suas principais influências. Em Meditações, livro em que Marco Aurélio apresenta suas ideias, ele agradece a seu professor por lhe mostrar o pensamento de Epicteto.
O Manual
Conhecido também como Encheiridion, do grego, o Manual de Epicteto é menos um texto teórico e mais um compilado de lições sobre como viver uma vida plena. A primeira lição do filósofo (veja abaixo) já menciona a importância de diferenciar aquilo que está sob o nosso controle daquilo que está fora do nosso alcance. Epicteto também é conhecido por falar sobre liberdade, caráter e opinião.
A edição do Manual que chega agora às livrarias pela Penguin-Companhia traz também as Diatribes, ensinamentos orais de Epicteto registrados por Flávio Arriano, e os Fragmentos, citações atribuídas ao filósofo cuja principal fonte é Estobeu, homem que ficou conhecido por compilar frases de muitos pensadores gregos.

Todo o material foi traduzido diretamente do grego por Aldo Dinucci e Alfredi Julien. Dinucci, que também assina os textos de introdução e notas, é professor titular de filosofia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e tem dois pós doutorados em filosofia pela Universidade de Kent, no Reino Unido, onde também é pesquisador honorário. Alfredi, atualmente aposentado, é especialista em língua grega, doutor em história social pela USP e pós doutor em educação, artes e história da cultura pelo Mackienzie.
6 lições do ‘Manual do Estoicismo’
- “Das coisas existentes, algumas são encargos nossos, outras não. São encargos nossos o juízo, o impulso, o desejo, a repulsa - em suma: tudo quanto seja ação nossa. Não são encargos nossos o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos - em suma: tudo quanto não seja ação nossa. Por natureza, as coisas que são encargos nossos são livres, desobstruídas, sem entraves. As que não são encargos nossos são débeis, escravas, obstruídas, de outrem. Lembra então que, se pensares livres as coisas escravas por natureza e tuas as de outrem, tu te farás entraves, te te afligirás, tu te inquietarás, censurarás tanto os Deus quanto os humanos” (p. 33)
- “É ação de quem não se educou acusar os outros pelas coisas que ele próprio fez erroneamente. De quem começou a se educar, acusar a si próprio. De quem já se educou, não acusar os outros nem a si próprio” (p. 35)
- “Não busques que os acontecimentos se deem como queres, mas que aconteçam como tiver de ser, e tua vida terá um curso sereno.” (p.36)
- “O senhor de cada um é quem possui o poder de conservar ou afastar as coisas desejadas ou não desejadas por cada um. Então, quem quer que deseje ser livre nem queira, nem evite o que depende de outros. Senão, necessariamente será escravo.” (p. 38)
- Que estejam diante dos teus olhos, a cada dia, a morte, o exílio e todas as coisas que se afiguram terríveis, sobretudo a morte. Assim, jamais ponderarás coisas abjetivas, nem aspirarás s a nada excessivamente." (p. 40)
- “Respeita todas as coisas que foram expostas como se fossem leis, como se cometesses uma impiedade se as transgredisses. E se alguém falar algo de ti, não dês atenção, pois isso não é mais [ação] tua”. (p. 54


Nenhum comentário:
Postar um comentário