segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Pesquisadora da polilaminina chama ciência de religião e compara cientistas críticos a ela a Mengele - OESP


Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

A bióloga Tatiana Sampaio, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e responsável pelo desenvolvimento da polilaminina, fez uma série de críticas aos cientistas que vêm questionando a forma com que os estudos iniciais da substância foram conduzidos e apresentados à população.

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Em um vídeo publicado nas redes sociais na quarta-feira, 21, Tatiana disse que “a ciência é a religião do nosso tempo” e que, nessa lógica, “os cientistas são sacerdotes”. Em mais uma fala polêmica, comparou especialistas que defendem o método científico a Josef Mengele, médico do regime nazista que conduziu experimentos desumanos em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

“Hoje, os cientistas ocupam na nossa sociedade um papel muito parecido com aqueles sacerdotes de antigamente. [...] Só eles podem dizer o que é verdade, e somente por meio deles você pode conhecer a verdade. Então a ciência ocupa na nossa sociedade exatamente o mesmo lugar de poder que a religião ocupou no passado”, declarou ela.

A polilaminina é uma molécula desenvolvida na UFRJ e que está sendo estudada para o tratamento de pacientes que ficaram paraplégicos ou tetraplégicos após uma lesão medular espinhal. Por enquanto, ela só teve sua segurança avaliada em um estudo piloto com oito pacientes, dos quais três morreram. A substância ainda não passou pelos estudos clínicos padronizados necessários para a avaliação da eficácia e segurança de novos fármacos.

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A divulgação dos resultados do estudo piloto no ano passado por Tatiana e pela Cristália como supostas evidências de que a substância é segura e efetiva atraiu muitas críticas da comunidade científica, que defende a realização de estudos rigorosos, com grupo controle, para avaliar se a terapia experimental, de fato, tem benefícios.

O grupo controle é um conjunto de participantes de um estudo clínico que, em vez de receber o tratamento em teste, recebe um placebo ou o tratamento padrão existente para aquela doença. O objetivo é comparar os resultados de ambos os grupos ao final do período de acompanhamento para ver se houve desfecho diferente nos que foram tratados com a terapia promissora.

Sem essa comparação, fica difícil saber se uma eventual melhora no grupo que recebeu o novo medicamento foi realmente causada pela substância, por outros cuidados recebidos (como cirurgia ou outros medicamentos) ou pela própria evolução natural da doença. Portanto, o grupo controle é tido como fundamental para estabelecer a relação de causalidade, ou seja, qual fator foi o responsável pelo desfecho observado.

A bióloga Tatiana Sampaio é pesquisadora da UFRJ e líder da equipe que desenvolveu a polilaminina
A bióloga Tatiana Sampaio é pesquisadora da UFRJ e líder da equipe que desenvolveu a polilaminina Foto: Pedro Kirilos/Estadão

Estudos randomizados com grupo controle são considerados o padrão-ouro da pesquisa clínica e praticamente todos os medicamentos novos aprovados por agências regulatórias precisam ter passado por esse processo para obter o registro.

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Mas Tatiana já declarou diversas vezes considerar desnecessária a inclusão de um grupo controle nos estudos da polilaminina por acreditar que já há evidência de eficácia e segurança da substância e por considerar antiético deixar um grupo de participantes do estudo sem acesso a uma terapia que poderia devolver movimentos a quem não tem outras opções terapêuticas. Por essa posição, ela vem sendo criticada. A Anvisa e especialistas destacam que não há dados confiáveis sobre os riscos e benefícios da terapia.

No vídeo desta semana, a bióloga chegou a comparar os cientistas que defendem o método científico à Josef Mengele. “Vocês já ouviram falar do carrasco nazista Josef Mengele? Ele fazia experimentos com seres humanos no campo de concentração de Auschwitz. Ele queria a metodologia científica perfeita. Então, ele selecionava pares de gêmeos idênticos com a mesma constituição genética. E aí ele fazia a mesma maldade com os dois. Depois, ele dava tratamento só para um e não dava para o outro. Então, ele tinha o grupo controle perfeito. Como cientista, ele estava ok. Só que, na ética, ele estava agindo como um monstro”, declarou.

Vale lembrar que Mengele conduzia experimentos eugenistas sem qualquer respaldo de códigos de ética ou protocolos de pesquisa, e, obviamente, sem autorização dos participantes. Usando práticas cruéis e desumanas, ele fazia intervenções cirúrgicas sem anestesia, provocava sofrimento nos prisioneiros para testar hipóteses e ordenava a morte de pessoas doentes ou com deficiências.

As principais normas internacionais que atualmente regem a pesquisa clínica no mundo foram editadas após a Segunda Guerra justamente para resguardar a segurança, a autonomia e o bem-estar de qualquer participante de um estudo clínico. Hoje, todas as pesquisas científicas feitas em humanos precisam passar por avaliação de comitês de ética e seguem regras rígidas.

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Tatiana também atacou diretora da Anvisa

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As falas contrárias a outros cientistas foram feitas em vídeo publicado por Tatiana para criticar as restrições impostas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ao uso compassivo da polilaminina. Nessa modalidade, a agência autoriza, em caráter excepcional, o uso de uma droga ainda em estudos para tratar condições graves para as quais não há outra opção terapêutica.

As restrições ao uso compassivo da polilaminina foram adotadas pela Anvisa em abril, após a agência ser comunicada pela Cristália, laboratório envolvido no estudo, de cinco mortes registradas entre os cerca de 50 pacientes que haviam recebido a droga até então.

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