A TV Globo cancelou o debate presidencial que ocorreria nesta quinta-feira (1º) depois de o senador Flávio Bolsonaro (PL) desistir de participar da sabatina. O presidente Lula (PT) já havia comunicado a emissora que não iria ao debate e daria entrevista ao Flow Podcast.
A decisão da Globo foi tomada após decisões do Judiciário que interferiram na logística inicial do debate. A ministra do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) Estela Aranha proibiu a exibição do púlpito vazio de candidatos.
Já o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes autorizou a participação de Renan Santos (Missão), que não participaria da sabatina porque seu partido não conta com o mínimo de cinco parlamentares exigido para comparecer. Antes, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, decidiu incluir Zema entre os integrantes do confronto.
Pouco depois, Flávio anunciou a desistência. "Acabo de tomar a decisão de não ir ao debate da Globo em função da censura imposta ao evento pelo TSE. A imprensa tem que ser livre e as eleições limpas", escreveu o congressista em rede social.
Em nota, a TV Globo afirmou que a decisão de Estela Aranha sobre os púlpitos vazios torna inválido item das regras da emissora para o programa, "assinada por todos os partidos, inclusive o PT". Também cita a decisão de Gilmar para autorizar a participação de Renan Santos, afirmando ser contrária à lei estabelecida para convite a debates televisionados.
Para a emissora, as decisões interferem nas regras previamente acordadas, o que levou ao cancelamento do evento. Conforme a nota, foram impetrados recursos contra as duas decisões, mas a direção da Globo considerou não haver tempo hábil para revertê-las.
"Nosso dever é o de promover a democracia, mas as sucessivas decisões judiciais tomadas momentos antes da realização do debate causam insegurança jurídica e representam uma interferência indevida na liberdade que os veículos de imprensa têm de organizar os debates eleitorais", afirmou a emissora.
A Globo transmitiu a novela "Quem Ama Cuida" no lugar do debate entre os candidatos.
Em nota, a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), a Aner (Associação Nacional de Editores de Revistas) e a ANJ (Associação Nacional de Jornais) disseram se solidarizar com a Globo e manifestaram indignação com o que chamaram de invervenção judicial nas regras do evento.
Afirmaram que "os excessos judiciais atropelaram o direito de os cidadãos terem acesso às propostas dos candidatos que, conforme prevê a lei eleitoral, já tinham sido convidados e se dispuseram a participar do debate".
"As entidades entendem que a interferência não se trata apenas de uma imposição de obrigações, sem previsões em lei, contra uma emissora privada. É, sobretudo, uma agressão à liberdade de imprensa ao forçar a condução do debate em desrespeito a regras acordadas há meses entre a emissora e os partidos", concluíram as associações.
Os candidatos à Presidência da República que foram à TV Globo nesta quinta atribuíram a Lula o cancelamento do debate. "Nós estamos vendo a Justiça a serviço do Lula", afirmou Romeu Zema (Novo).
A assessoria do ex-governador de Minas Gerais ainda afirmou em nota lamentar o cancelamento do debate, e disse as decisões da Suprema Corte são "um desrespeito a milhões de brasileiros que esperavam a oportunidade de conhecer e comparar as propostas dos candidatos".
Ronaldo Caiado (PSD) chamou as decisões da Suprema de "uma afronta à democracia brasileira". "O Lula provocou tudo isso. Ele foi provocado pelo Flávio na minha cidade, em Goiânia, dizendo ‘vai lá que eu vou lhe enfrentar’. E bateu em retirada", disse o ex-governador goiano.
Em nota, também afirmou lamentar a falta de debate, chamou o cancelamento de "atentado à democracia" e disse que "o que a Justiça fez hoje representa, nada mais, nada menos, que a destruição do processo eleitoral no país".
"O catalisador desse atentado foi, lamentavelmente, aquele que mais deveria mostrar apreço pelo nosso povo: O atual presidente da República. Luiz Inácio Lula da Silva atuou desde o começo da campanha para interditar o debate e evitar que o Brasil discutisse seu desgoverno", concluiu o ex-governador.
Augusto Cury (Avante) questionou se "o teatro da política precisa de um psiquiatra" assim que chegou à sala de imprensa após o cancelamento do evento.
Renan Santos se uniu a apoiadores em ato em frente à sede do jornalismo da Globo, e fez críticas a Lula e a Flávio. Simpatizantes do candidato do Missão já se reuniam no local desde cedo, e chamaram o senador de "fujão" e "frouxo".
Renan convidou Flávio para participar de debate e prometeu declarar voto ao adversário, se derrotado. "Flávio, tô aqui no Rio perto da tua casa. Bora parar num bar e fazer um debate de boa. Eu não falo de escândalos, tratamos apenas de propostas, xingamos juntos o PT. Se me derrotar eu tiro minha candidatura e declaro apoio a você", disse.
Mais adiante, o candidato chamou Flávio de Judas e Lula, de capeta. "Primeiro a gente tira o traidor, o Judas. Depois, a gente tira o capeta."
Ele criticou a decisão da emissora de não convidá-lo para o debate e disse que, até então, vinha sendo tratado com decência pela TV Globo.
"Eu fui o único a ser excluído do debate. Seria um debate de comadre. O Zema nunca faria uma pergunta difícil ao Flávio. Eles iriam todos, juntos, ficarem falando seus nadas ao redor de nada", afirmou.
Já o petista criticou o formato de debate das televisões para justificar a ausência. A afirmação foi feita em entrevista ao Flow Podcast. A transmissão teve pico de audiência em torno de 1,5 milhão de espectadores.
"Eu há tempos tenho questionado os debates da Globo", declarou o petista, que disse não gostar do tipo do debate promovido pela emissora. "Você não pode levar uma pessoa que tem 49% a debater com o que tem 1%", destacou, citando o seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e o chamando de "desqualificado".
A eleição presidencial de 2026 terá o primeiro turno com menos debates na televisão desde 1998, quando não houve confronto entre candidatos na TV.
Como mostrou a Folha, Lula chegou a considerar a possibilidade de participar do debate na Globo, mas depois prevaleceu a leitura de que ele seria o alvo de todos os demais candidatos, tendo tempo limitado de resposta.


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