segunda-feira, 25 de maio de 2026

EUA e China precisam de um novo Tratado de Tordesilhas, João Pereira Coutinho, FSP

 Xi Jinping sempre gostou da "armadilha de Tucídides". Falou dela quando se encontrou com Barack Obama. Mais recentemente, voltou ao tema com o nosso Donald.

É fácil perceber o porquê. O livro de Graham Allison sobre o assunto —o brilhante "A Caminho da Guerra: Os Estados Unidos e a China conseguirão escapar da Armadilha de Tucídides?"— começa com uma citação de Napoleão Bonaparte, bastante lisonjeira para Pequim. "Deixem a China dormir", dizia o pequeno tirano, "quando ela acordar, abalará o mundo".

A China já acordou. E agora? Agora ecoam as palavras de Tucídides na sua "História da Guerra do Peloponeso": "Foi a ascensão de Atenas e o medo que ela incutiu em Esparta que tornaram a guerra inevitável".

Xi imagina que a China seja Atenas; os Estados Unidos serão Esparta; a possibilidade de conflito é, portanto, elevada. Eis a armadilha.

Ilustração de Angelo Abu para coluna de João Pereira Coutinho de 25.mai.26
Angelo Abu

Graham Allison concorda: nos 16 casos históricos analisados por ele –uma potência ascendente, uma potência dominante alarmada–, houve guerra em 12. Os conflitos mais destrutivos aconteceram no século 20, quando a Alemanha, duas vezes, e o Japão desafiaram a supremacia do Reino Unido, da França e dos Estados Unidos.

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Como defende Allison, a guerra entre os Estados Unidos e a China é bastante provável; mas, cautela, não é inevitável. Houve quatro casos históricos que escaparam à "armadilha de Tucídides", embora não deem o mesmo ibope na arena das relações internacionais.

Um deles é facilmente reconhecível por qualquer amante da história luso-brasileira: a rivalidade entre Portugal e Espanha na passagem do século 15 para o 16. Portugal era a potência dominante graças à exploração marítima iniciada em 1415, com a conquista de Ceuta, no norte da África.

Mas as coisas mudaram em 1469, com o casamento de Isabel de Castela e Fernando de Aragão. Uma Espanha unificada concluiu a Reconquista em 1492 e, com a viagem de Cristóvão Colombo às Américas no mesmo ano, assumiu-se como rival dos portugueses na disputa pelos mares.

A guerra foi evitada por um tratado assinado em Tordesilhas, em 1494, que dividiu entre Portugal e Espanha "as terras descobertas e por descobrir". Traçou-se uma linha imaginária no Atlântico, 370 léguas a oeste de Cabo Verde, que determinava: o que ficasse a leste seria português; o que ficasse a oeste seria castelhano.

Foi assim que a "Garota de Ipanema" acabou cantada em português, e não em castelhano. Foi assim que se compraram décadas de paz.

Os Estados Unidos e a China precisam de um novo Tratado de Tordesilhas. Não em termos literais, como é evidente; Tordesilhas serve aqui como metáfora de contenção entre potências rivais.

Washington e Pequim não precisam dividir o mundo; precisam aceitar que a sua rivalidade só será suportável se for regulada por regras, mediações e reconhecimento mútuo de interesses vitais.

Sem isso, quem arbitra um incidente no mar do Sul da China? Quem impede que Taiwan passe de crise diplomática a guerra aberta? Quem estabelece limites ao armamento nuclear, à inteligência artificial ou aos ataques cibernéticos?

O Tratado de Tordesilhas é, com certeza, expressão de um tempo eurocêntrico e imperialista. Mas, anacronismos à parte, garantiu uma ordem mínima que permitiu a coexistência entre rivais.

Nos restantes três casos de "sucesso" apresentados por Graham Allison, a lição repete-se: a ascensão dos Estados Unidos perante um Reino Unido ainda dominante, no início do século 20; a rivalidade nuclear entre Washington e Moscou durante a Guerra Fria; e o regresso de uma Alemanha reunificada ao centro da Europa depois da queda do Muro de Berlim só não desembocaram em guerra porque houve, respectivamente, apaziguamento, contenção e integração institucional na União Europeia.

Para regressar a Tucídides: mesmo Atenas e Esparta, depois da chamada Primeira Guerra do Peloponeso, conheceram 30 anos de paz antes da destruição total. Como? Pela negociação bilateral –e, quando esta falhava, pela arbitragem do Oráculo de Delfos.

A "armadilha" existe. Mas ela só se fecha quando potências rivais começam a confundir acomodação com rendição –e compromisso com fraqueza.

Quando isso acontece, a guerra é o passo seguinte. E, ao contrário do que talvez pense Xi Jinping, a potência ascendente nem sempre se impõe à potência dominante. Nos 12 conflitos analisados por Allison, isso só aconteceu em metade deles.

Se a China se imagina a nova Atenas, alguém deveria recordar ao presidente Xi Jinping que, na Guerra do Peloponeso, foram os atenienses que perderam.

Luciano Huck e a armadilha do apresentador-empresário, F5 FSP

 Luciano Huck foi vítima de sua própria armadilha. Há anos ele tenta equilibrar os pratos de apresentador de TV, posição que exige neutralidade num país polarizado, e o de empresário amigo de outros empresários.

Em evento no último sábado (23), ele, que já considerou se candidatar à Presidência, reproduziu o velho pensamento da elite de que os beneficiários do Bolsa Família "criam um monte de atalhos para conseguir ficar no programa ad eternum" (em outras palavras, preguiçosos que não querem trabalhar).

Sem olhar os números reais, Huck deu a entender que os programas de mobilidade social produziriam efeito oposto, mantendo os pobres na pobreza. De Gil do Vigor a Ana Paula Renault, a massa de críticas que ele recebeu mostra que foi-se o tempo em que as celebridades ligadas à Globo tinham medo de atacar um dos seus.

Acostumado à sua posição de um dos maiores nomes da emissora, Huck emitiu sua visão de Brasil achando que não teria maiores consequências. Ao ver o tamanho do barulho, postou um vídeo em seus stories dizendo que fez as declarações "num evento fechado, fora do Domingão" e que sua fala "circulou fora de contexto" (ele teria uma opinião diferente na TV?).

Disse que não é contra programas de proteção social, mas defende "que esses programas sejam aperfeiçoados, num mundo com IA muita tecnologia. Que a gente tenha eficiência no resultado! (..) Os recursos precisam chegar a quem realmente precisa, para evitar corrupção e gastos indesejados." (No story seguinte, a primeira-dama Angélica, de costas para o povo, curtia um banho numa banheira de gelo).

Eu gostaria muito que Huck tivesse o mesmo senso crítico e a sanha de diminuir a corrupção no sistema bancário, por exemplo, onde Daniel Vorcaro cometeu uma fraude de bilhões que vai levar anos para ser sanada. Ou com o singelo montante de R$ 1,4 bilhão que nossos deputados terão para gastar no Fundo Partidário neste ano.

Mas não: a corrupção que precisa ser vigiada é a do dinheiro que vai para famílias cujos membros ganham até R$ 218 per capita num mês. A linha de raciocínio é sempre a mesma: se há qualquer tipo de corrupção ou má gestão no Bolsa Família, será que vale a pena manter esses programas?

A ironia maior é que alguns dos maiores quadros de sucesso do Caldeirão do Huck, que ele apresentava aos sábados antes de migrar para os domingos, são assistencialistas. É o caso do Lata Velha, que reformava carros caindo aos pedaços, e do Lar Doce Lar, que promovia a reforma de uma casa carente de renovações. Era uma conta bem mais suave para a Globo do que para o governo federal: o programa promovia algumas poucas ações sociais por mês em troca de audiência e popularidade.

Começou nesses quadros a construção de Huck como um cidadão próximo do povo, que viaja aos rincões do país e tem altos papos com pessoas das mais humildes. É uma imagem que faz inveja a João DoriaJoão Amoedo e outros empresários que amariam ter essa conexão popular para reverter em votos nas suas campanhas.

Foi essa imagem também que levou Huck a considerar se candidatar à Presidência em 2018, ano em que Jair Bolsonaro venceu o pleito. Assim como Silvio Santos, ele entendeu que o movimento não seria bom para os negócios e para sua imagem de apresentador.

Mas não bastou dizer não para a corrida ao Planalto. Desde então, em eventos e entrevistas, ele é instado a falar o que pensa do governo e de suas políticas econômicas e sociais. Não foi a primeira vez, mas no evento do último sábado ele deixou mais claro o seu pensamento de direita passível de mil críticas do lado da esquerda.

A celeuma pode não afetar a audiência do Domingão, já que esses debates costumam passar abaixo do radar do seu público. Mas certamente arranha a sua imagem de apresentador legitimamente preocupado com as causas sociais.

Hello, goodbye, MEIO

 Por Flávia Tavares

Do telhado do teatro Ed Sullivan, em Nova York, Stephen Colbert e David Letterman, ambos de terno e com sorrisos serelepes, atiraram (com a ajuda de homens mais jovens e fortes) duas poltronas ao solo. Depois, eles mesmos jogaram uma cadeira de escritório preta e várias melancias. A mira era um enorme logotipo da CBS, a emissora que abrigava, até a noite de quinta-feira, o programa The Late Show. Letterman foi o apresentador pelos 22 anos iniciais; Colbert, pelos 11 últimos. O canal anunciou o cancelamento do Late Show em julho do ano passado, encerrando a franquia mais bem-sucedida dos programas do tipo em qualquer métrica. Em audiência, com Colbert, o programa ficava à frente dos concorrentes apresentados por Jimmy Kimmel, da ABC, e Jimmy Fallon, da NBC. Em inteligência, sofisticação e prestígio, ainda mais adiante.

A CBS argumentou que cancelou Colbert porque vinha perdendo US$ 40 milhões por ano, à medida que o público migrou para o streaming. Mas a indústria cultural sabe que o que está por trás do movimento — se não exclusivamente, com muito mais peso — é o desejo da Paramount/Skydance, controladora da CBS, de silenciar Colbert, ferrenho crítico de Donald Trump, e, com isso, abrir caminho na Casa Branca para a aquisição da Warner Bros. Discovery. Colbert havia criticado o pagamento da quantia absurda de US$ 16 milhões pela Paramount a Trump para encerrar um processo sobre o programa 60 Minutes, chamando o acordo de “propina”. A aprovação do acordo pela FCC, o órgão regulador do governo americano para mídia, ocorreu dias após o anúncio do cancelamento.

A piada se virou contra os executivos e Trump. Se pode ser lida como uma decisão financeira da CBS, o cancelamento do Late Show não pode ser compreendido fora da era Trump e de sua desfaçatez ao se imiscuir com o mundo dos negócios, seja para tirar proveito financeiro também, seja para pressionar politicamente — e, no melhor dos mundos para ele, conseguir as duas coisas. Acontece que a tradição da livre expressão nos Estados Unidos transcende, em muito, a vulgaridade de Trump. Então, nos 10 meses em que esteve cancelado, mas no ar, Colbert tripudiou sobre os patrões sem qualquer cerimônia. Seguiu sapateando sobre Trump sem temor, vira e mexe com a sacada “o que vão fazer, me cancelar?”. E, na reta final do programa, convidou o antecessor para “destruir propriedade da CBS” com transmissão pela CBS.

Nesses 10 meses, Colbert também recebeu o apoio fervoroso dos colegas de talk-shows concorrentes. Além de Kimmel e Fallon, Colbert é muito próximo de John Oliver e Seth Meyers. Juntos, os cinco conduziram o podcast Strike Force Five, criado durante a greve de roteiristas de Hollywood em apoio ao movimento. Os quatro também estiveram, de uma tacada só, entre os convidados da última semana de Colbert. Nos últimos dias, alternaram-se entrevistados do naipe de Tom Hanks, Steven Spielberg, Pedro Pascal e Julia Louis-Dreyfus. Na frente mais política, Jake Tapper, da CNN, e uma descontraída entrevista com Barack Obama. Uma síntese bastante adequada do tamanho da deferência dos dois mundos entre os quais Colbert sempre transitou.

Mentores de luxo

Esse trânsito foi uma herança de seus dois mentores. David Letterman foi o apresentador de talk-show que inaugurou o mix das entrevistas jocosas de celebridades com esquetes engraçados e leves pitadas de crítica política. Jon Stewart é o apresentador de talk-show que inventou o formato de bancada satírica de notícia política para além do Saturday Night Live, como um programa em si mesmo, e que, apesar da comicidade — ou por causa dela —, é capaz de gerar alto valor crítico. Colbert foi revelado pelo segundo e sucedeu o primeiro. No meio do caminho, conduziu um show solo, The Colbert Report, em que interpretava um personagem, o de apresentador conservador um tanto sem noção. Trump faz aquele Colbert caricato parecer alguém absolutamente razoável.

Quando assumiu o Late Show e uniu as duas vocações, criou uma identidade própria. Fazia entrevistas sobre o lançamento mais chinfrim de Hollywood com a mesma sagacidade com que pressionava políticos. Sua condução era genuinamente engraçada, imensamente corrosiva e, ainda assim, elegante e terna. Não é uma combinação banal de se obter.

Nos últimos dias, Colbert optou por celebrar seu show em vez de lamentar seu fim. Entregou dignidade em vez de birra. Numa entrevista à revista People, explicou que quem deveria se constranger era Trump por ter gastado tempo, energia e poder com uma figura como ele, Colbert, um mero “palhaço”. “Isso diminui a presidência.” E no grand finale, no episódio terminal, fez seu monólogo de abertura, aquele em que fazia a maior parte das piadas mais ácidas contra Trump, sem mencionar o nome do presidente. Aliás, não mencionou nenhuma vez no show todo. Não era mais sobre ele.

Colbert não precisou sublinhar que o cancelamento de um programa que é uma tradição, ao mesmo tempo, de liberdade de expressão e tolerância só poderia mesmo estar acontecendo sob a atual administração Trump, que censura com apetite sem precedentes, alterando as regras de acesso de jornalistas à Casa Branca, restringindo vistos a jornalistas estrangeiros, reprimindo protestos com tiros em cidadãos americanos, retaliando advogados de casos contra seu governo etc. Colbert passou os últimos 11 anos levando a crônica desses e de outros acontecimentos aos lares americanos dispostos a ouvir e rir da própria desgraça.

O derradeiro convidado foi Paul McCartney. Naquele teatro os Beatles fizeram sua estreia em solo americano, numa apresentação inesquecível. Juntos, acompanhados também de Elvis Costello, Jon Batiste e da banda do Late Show, eles cantaram Hello, Goodbye. No coro, a equipe do programa e os familiares de Colbert subiram ao palco. O apresentador e Paul foram juntos apagar as luzes do lendário teatro. É o fim.