segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Hélio Schwartsman- O ópio do povo, FSP

 Não sei se dá para dizer que a esquerda apoia a teocracia iraniana, mas me parece seguro afirmar que ela é, de um modo geral, econômica na crítica aos aiatolás. Uma boa medida disso é Lula. Ele é um esquerdista ultralight, mas que não perde oportunidades de alinhar-se a Teerã.

Em 2009, passou pano para a megafraude eleitoral que reconduziu Mahmoud Ahmadinejad à Presidência. Na semana passada, o Irã anunciou que recebeu um telefonema da chancelaria brasileira propondo "estreita cooperação" para condenar a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela.

Múltiplas mãos seguram fotos de líderes religiosos em chamas durante protesto ao ar livre ao entardecer. Pessoas ao fundo observam a ação, com árvores e edifícios visíveis.
Manifestantes queimam imagens do aiatolá Ali Khamenei durante protesto no centro de Londres em solidariedade à revolta iraniana contra a repressão do regime teocrático - Carlos Jasso/AFP

A esquerda deveria ser por princípio contra a religião? Em 1844, Karl Marx escreveu: "O sofrimento religioso é, a um único e mesmo tempo, a expressão do sofrimento real e um protesto contra o sofrimento real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a alma de um estado sem alma. Ela é o ópio do povo".

Marx é um autor que acertou e errou. Errou mais do que acertou, mas penso que a crítica às religiões é um dos campos em que acertou. Basta ver que um efeito que sempre aparece em países que enriquecem é o esvaziamento das religiões.

Na prática, porém, a esquerda nunca foi muito consistente em denunciar religiões como uma ilusão. Um bom exemplo é o pan-arabismo de Nasser, no Egito, e do Partido Baath, na Síria e no Iraque. Embora fossem, no papel, socialistas e seculares, nunca se afastaram muito do islamismo. Mesmo na esquerda não marxista, temos o caso de Foucault, que se deixou encantar pelo aiatolá Khomeini e por algum tempo apoiou a teocracia iraniana.

O antiamericanismo é parte da explicação para a alta tolerância da esquerda para com regimes como o iraniano, mas penso que há também um vínculo mais metafísico. Marxistas e religiosos parecem partilhar a crença num princípio teleológico redentista, tanto faz se o chamamos de Deus ou de materialismo histórico, que levará o homem a um reino de bem-aventurança. É mais fácil acreditar em utopias do que aceitar que vivemos num mundo sem propósito.

Bateu desespero nas férias? Faça um carrossel, Ronaldo Lemos, FSP

 Kyle Chayka é escritor e um dos críticos culturais mais interessantes atualmente. Ele tem uma coluna na prestigiosa revista The New Yorker e dois livros com temas quentes: "Filterworld" ("Mundo-filtro") e "Longing for Less" ("Desejando Menos").

Em setembro de 2024, ele escreveu uma coluna que podemos chamar de premonitória. Seu título era: "O desespero dos photo dumps no Instagram". O termo "photo dump" diz respeito à atividade de pôr múltiplas fotos no Instagram (ou outras redes sociais).

Em vez de fazer uma postagem solitária, a ideia é criar um "carrossel", com várias fotos. O objetivo é transmitir não retratos puros e simples, mas comunicar uma "vibe", um estado de coisas que só um conjunto semialeatório de imagens é capaz de materializar.

Foto ilustrativa mostra logo do Instagram centralizado em tela de smartphone - Yasin Akgul/AFP

No seu artigo, Chayka chega a mencionar que pesquisou com integrantes da geração Z por que tanta gente hoje posta "carrosséis". As razões são inusitadas. Por exemplo, alguns acham que postar uma foto só é "humilhante". Outros afirmam que é um "risco social".

No entanto, a razão maior é algorítmica. O Instagram passou a incentivar ativamente a prática do photo dump, ao permitir até 20 fotos (ou vídeos) em uma única postagem. Não só isso, passou a premiar essas postagens com mais alcance e engajamento.

Uma análise feita pela Hootsuite identificou que posts com "carrossel" têm um alcance em média 1,4 vez maior e levam a até 3,1 vezes mais "engajamento". Esse prêmio faz sentido não só como experiência (de fato, photo dumps aguçam a curiosidade) mas também ajuda a resolver outro problema: a sede por cada vez mais imagens para treinar inteligências artificiais. Nesse sentido, é muito melhor postar 20 imagens de uma vez do que uma só.

O fato é que os meses de janeiro e fevereiro são aqueles em que uma parte das famílias mais abastadas sai de férias no Brasil. E, por essa razão, essa é também a temporada por excelência dos photo dumps e dos carrosséis.

Como Chayka nos lembra, cada photo dump pode ser lido como uma modalidade de desespero. Seja por visibilidade, seja por reconhecimento, seja até pela busca de escape das próprias férias. Na sociedade do cansaço em que vivemos, tirar férias não é fácil! É um momento de reorganização dos laços de convívio, de mudança de ritmo e de ambiente. Isso leva a emoções afloradas, conflitos e até, acredite, desespero. Tudo porque na maior parte do ano é fácil se entorpecer com a rotina de captura constante da nossa atenção. Quando chega a hora de desacelerar e encarar a si mesmo e aos outros, percebemos o quanto estamos sem prática em direcionar nossa atenção com intencionalidade real.

É nesse momento que fazer um carrossel nas férias é terapêutico. Dá um alívio. Você projeta suas vivências fora da rotina e recebe comentários reconfortantes de conhecidos e desconhecidos. Só que essa é uma terapia dos infernos, na verdade. Serve apenas para lembrar que os momentos de intensidade real durante as férias são passageiros. E que logo estaremos capturados novamente pelo cansaço dos algoritmos.

READER

Já era – Postar uma só foto

Já é – Postar carrosséis, especialmente durante as férias

Já vem – Postar imagens "embelezadas" por inteligência artificial