quarta-feira, 29 de julho de 2026

Brasil financia problemas em vez de fortalecer soluções = FSP

 Fábio Lesbaupin

Consultor em negócios de impacto e filantropia estratégica, finalista do Prêmio Empreendedor Social 2022 e cofundador do fundo de investimento de impacto social Estímulo

Quando comecei a acompanhar Bruno, fundador da Poranduba Amazônia, imaginei que nossas conversas seriam sobre turismo. Não foram.

Falamos sobre fluxo de caixa, custos, indicadores, canais de venda, estratégia comercial e posicionamento. Em outras palavras, conversamos sobre aquilo que normalmente discutimos quando queremos ajudar uma empresa a crescer.

A diferença é que a Poranduba nasceu para enfrentar um problema social: gerar renda para comunidades amazônicas por meio do turismo de base comunitária.

Encontro do rio Cristalino com rio Teles Pires em area de floresta preservada do Cristalino Lodge na divisa em entre Mato Grosso e Pará - Eduardo Knapp - 08.12.2022/Folhapress

Ao longo dos últimos dois anos, acompanhei sua evolução por meio da mentoria da Zunne —programa de investimentos voltada para negócios de impacto socioambiental. Em dois anos, a Poranduba praticamente triplicou o número de turistas atendidos, cresceu 56% em faturamento em 2025 e deve gerar mais de R$ 1 milhão em renda para comunidades amazônicas em 2026.

Mas os números não são o mais importante. Na comunidade de Saracá (PA), por exemplo, uma família que dependia exclusivamente da pesca passou a encontrar no turismo uma fonte de renda mais previsível.

Em outras localidades, atividades ligadas à extração ilegal de madeira deram lugar a oportunidades associadas à hospitalidade, à cultura e ao conhecimento da floresta.

Essas mudanças não aconteceram apenas porque existe uma boa causa. Aconteceram porque existe um negócio ficando cada vez mais forte.

Em uma das nossas conversas, Bruno resumiu esse processo de forma simples: "A maior contribuição da mentoria foi a visão estratégica e financeira. Passamos a enxergar com clareza nossos custos, nossos indicadores, os canais mais rentáveis e os caminhos para crescer com mais segurança."

Essa frase ficou comigo. Quando uma startup desenvolve uma solução tecnológica promissora, mobilizamos investidores, aceleradoras, mentorias e redes de relacionamento para ajudá-la a crescer. Fazemos isso porque acreditamos que boas soluções merecem escala.

Mas, quando alguém cria uma solução para enfrentar desafios como pobreza, geração de renda, educação ou desenvolvimento territorial, nossa lógica costuma ser diferente. Em vez de perguntar como ajudar esse negócio a crescer, perguntamos como ajudá-lo a sobreviver.

Essa diferença de abordagem tem consequências profundas. Ao longo da minha trajetória, conheci centenas de organizações e negócios de impacto com enorme potencial de transformação. O problema raramente era a falta de propósito. Na maioria das vezes, o gargalo estava na gestão, na estratégia, no acesso ao mercado e na sustentabilidade financeira.

Investimos recursos para executar projetos. Investimos muito menos para fortalecer organizações. Essa talvez seja uma das principais fronteiras da filantropia estratégica e do investimento de impacto.

Se acreditamos que determinadas soluções funcionam, por que não investimos nelas com a mesma seriedade com que investimos em empresas inovadoras?

Fortalecer um negócio de impacto não significa apenas aumentar seu faturamento. Significa ampliar sua capacidade de resolver um problema social.

Quando a Poranduba cresce, cresce também a renda das comunidades, aumentam as oportunidades para os jovens permanecerem em seus territórios e se fortalece um modelo de desenvolvimento que combina impacto social e sustentabilidade econômica.

Talvez esteja aí uma mudança de perspectiva que o nosso país precisa. O Brasil não sofre pela falta de soluções para seus problemas sociais. Sofre porque ainda não aprendeu a investir, com a mesma ambição e seriedade, naquelas que já provaram que funcionam.

Uma agenda econômica para 2027 - Bernardo Guimarães - FSP

 As convenções partidárias estão definindo os candidatos. Teremos eleições em pouco mais de dois meses. É hora de discutir as propostas dos candidatos ao Executivo e ao Legislativo.

Eu sei, não é bem assim, mas eis meu resumo das questões econômicas que o próximo governo deveria enfrentar.

A questão fiscal é urgente. Temos déficit nas contas públicas, mas o Executivo tem poucos recursos para investir. Precisamos de ajustes substanciais. O déficit precisa diminuir, e a taxa básica de juros precisa despencar.

À esquerda, homem idoso com cabelo e barba grisalhos, vestindo camisa vermelha, fala segurando microfone com a mão direita e gesticulando com a esquerda. À direita, homem de meia-idade com cabelo escuro e óculos, veste terno azul, camisa branca e gravata azul, fala em microfone posicionado à sua frente, gesticulando com a mão direita.
Montagem com imagens do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (à esq.) e o senador Flávio Bolsonaro (à dir.); ambos devem disputar a presidência - Eduardo Anizelli e Danilo Verpa - 13.jan.26 e 27.fev.26/Folhapress

O Legislativo tem sua culpa. O modelo brasileiro de emendas parlamentares dá um enorme poder aos deputados para alocar recursos públicos, muito mais do que nos países desenvolvidos. Muito dinheiro é drenado para redutos eleitorais.

O argumento de que o parlamentar conhece melhor que o Executivo as necessidades de cada região não sobrevive a um mínimo de escrutínio. O Executivo é responsável pelas contas públicas e sabe comparar o valor de um real gasto em diferentes municípios. Precisamos acabar com essas emendas. Algum candidato ao Legislativo vai defender isso?

Sempre que um novo governo toma posse, discutem-se ajustes na Previdência. Em 2003 houve uma grande reforma; em 2007, só discussões; em 2011 e 2012, mudanças menores; e em 2015, mudanças como a tabela 85/95. O governo Temer em 2017 propôs uma reforma que não andou no Congresso, mas em 2019 houve outra grande reforma. 2023 foi uma exceção, não houve discussão sobre Previdência. Vai haver em 2027? Seria bom falarmos sobre isso agora.

O salário mínimo acompanha a inflação e o crescimento do produto. O novo arcabouço fiscal complicou um pouco a regra, mas a ideia é essa. Faria mais sentido o salário mínimo acompanhar a inflação e o crescimento da renda per capita, não da renda total. Assim, o salário mínimo tem valorização real mais compatível com o crescimento da produtividade.

Além disso, o salário mínimo tem sua importância no mercado de trabalho, mas hoje em dia serve como indexador de vários outros gastos do governo. Isso merece discussão.

Nossas regras fiscais têm muitas exceções e furos e mudam demais. O que cada candidato quer fazer com a regra fiscal se for eleito?

Uma redução no déficit fiscal abriria espaço para reduzir a taxa Selic, que está na estratosfera. Uma queda substancial nos juros teria impacto positivo importante nas contas públicas e na economia.

Há questões menos urgentes que a fiscal, mas não menos importantes, que merecem atenção. Uma delas é que a produtividade da economia brasileira tem crescido relativamente pouco. Outra é a sensação de que o Brasil é uma república de privilégios.

As duas questões andam de mãos dadas. Quando o assunto é produtividade, ouvimos pedidos por subsídios e proteção à indústria. Esse não é um bom caminho. Industriais têm razão de reclamar de falta de infraestrutura e de segurança, e é função do governo fornecer condições melhores para o setor produtivo. Essa deve ser parte da agenda, mas a outra parte deve buscar remover barreiras à competição, não proteger os incumbentes.

O que cada candidato pensa sobre produtividade? Quem tem mais condição de enfrentar os lobbies?