quarta-feira, 15 de abril de 2026

Ruy Castro - Trump, o Jesus de hospício, FSP

 Quais são os mais populares heróis de hospício? Perdão, quais são as figuras históricas que pessoas mentalmente comprometidas mais são dadas a interpretar nas casas de repouso? Pelos compêndios, os campeões são Napoleão, Sherlock Holmes, Elvis Presley e Jack, o Estripador. Para as mulheres, Cleópatra, a rainha Elizabeth e Marilyn Monroe. Mas há uma figura que supera todas as outras, e que a ciência já nem considera: Jesus Cristo.

O que leva esses infelizes a se julgarem tais mitos? Segundo os especialistas, são desvios de várias categorias, levando à troca de identidade. Não quer dizer que todos os assolados por esses males tenham os ditos delírios. Só mesmo os muito, muito graves, acometidos pelo que tecnicamente se chama "complexo de messias". É como aliviam seu ego do complexo de inferioridade e de insegurança, criando uma identidade de grandeza compensatória. Os personagens heroicos lhes conferem a ilusão de importância e poder em grau máximo.

Estes são textos de psiquiatras que colhi por acaso na literatura médica há alguns dias. Pois não é que, na segunda-feira (13), o mundo foi surpreendido pela chegada do novo messias há tantos séculos esperado? E logo quem! Donald Trump, o homem mais poderoso do mundo em sua condição civil de presidente dos Estados Unidos! Num pôster oficial da Casa Branca, surgiu-nos como ninguém menos que Jesus Cristo, com um facho de luz na mão esquerda, enquanto, com a direita, salva um moribundo. À sua volta, um soldado, uma enfermeira, uma fiel e um homem com um boné do MAGA ("Make America Great Again"), todos abençoados por águias e soldados celestiais e pela bandeira americana.

Não há uma terceira via. Ou são loucos os fiéis a esse Trump senhor do céu e da Terra ou o louco será única e apenas Trump, por acreditar em si próprio. A favor da segunda opção, levantam-se sérios profissionais da medicina nos EUA, para os quais o presidente já é caso de camisa de força e doses triplas de sossega-leão.

Que isso nos previna contra os messias do nosso hospício.

Como reconstruir a democracia após Orbán, Rui Tavares, FSP

 Na manhã de uma segunda-feira de setembro de 2012, entrei no edifício da Assembleia Nacional húngara com os colegas do Parlamento Europeu —de que eu era então relator para o Estado de Direito na Hungria— para uma série de reuniões com os grupos parlamentares.

Com as então recentes alterações à lei da mídia e à composição do poder judicial introduzidas desde o regresso de Viktor Orbán ao poder em 2010, e com uma nova Constituição redigida apenas pelos deputados do Fidesz, o partido do primeiro-ministro, pensávamos ter assunto que chegasse.

Homem de terno cinza segura e posiciona uma bandeira azul da União Europeia ao lado de seis bandeiras da Hungria alinhadas em um palco com fundo azul. Um púlpito com o logo 'TISZA' está à esquerda da cena.
Funcionário coloca bandeira da União Europeia ao lado de bandeiras da Hungria antes de discurso de Péter Magyar, vencedor das eleições, em Budapeste - Attila Kisbenedek - 13.abr.26/AFP

Para nossa surpresa, havia um tema novo em cima da mesa: no fim de semana anterior tinha sido anunciada uma nova lei eleitoral, a introduzir por via expedita e a votar ainda naquela semana, certamente aprovada pela segura maioria de dois terços do Fidesz. Todos os partidos da oposição achavam que a lei iria manipular os círculos eleitorais para produzir maiorias recorrentes de dois terços mesmo com cerca de 40% dos votos. Não estavam errados.

Em 2014, com 44,9% por cento dos votos, o Fidesz arantiu os dois terços; em 2018, com 49,3%, manteve-os; em 2022, com 54,1%, voltou a mantê-los. No último domingo, 53,6% deram ao Tisza de Péter Magyar 138 dos 199 lugares do parlamento. A lei de 2012 virou-se contra o seu autor.

Mas para isso foi preciso que toda a oposição húngara tivesse uma posição de coragem, desistindo inteira em favor do adversário de Orbán com mais possibilidade de vitória. Isso implicou que partidos progressistas, socialistas e verdes, incluindo aquele que governa a capital da Hungria, tenham retirado as suas candidatura em nome da transição de regime.

Em si, esse fato aproxima as eleições húngaras de outras eleições em contexto autoritário, em que o apoio a um candidato oriundo do próprio regime, mas com hipótese de congregar a oposição e os desiludidos do regime num mesmo voto, é uma estratégia comum.

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Com uma derrota desse tamanho, tornou-se impossível a Orbán agarrar-se ao poder. Mas esse não era o seu plano original. Orbán previu desde o início a hipótese de regressar à oposição, deixando apenas o campo ao adversário completamente armadilhado.

Por exemplo: existe na Hungria um Conselho Orçamental de três pessoas, todas nomeadas por Orbán, que têm o direito de vetar o orçamento —e quando o fazem, o Parlamento pode ser dissolvido pelo presidente, que estará no posto até 2029.

Dos 15 juízes do Tribunal Constitucional, 11 são orbánistas, com mandatos de 12 anos. O mesmo se passa no Supremo, na Comissão de Mídia e em tudo o que importa no aparelho de Estado húngaro.

A Hungria tem, porém, uma grande vantagem: todas as derivas de Orbán foram documentadas. O relatório que aprovámos em 2013 no Parlamento Europeu pode ser usado como as migalhas da história infantil que permitem achar o caminho de volta a casa.

Na história, os pássaros comeram as migalhas. Em 2013, fotografamos cuidadosamente a localização de cada uma. Vai ser esse retrato que poderá ajudar a Hungria a regressar ao Estado de Direito democrático.

Deirdre Nansen McCloskey - O neoinstitucionalismo não tem bases históricas, FSP

 Um paradigma predominante na economia hoje é o "neoinstitucionalismo", defendido durante décadas por Douglass North (1920-2015; Prêmio Nobel em 1993) e atualmente a ortodoxia do Banco Mundial. Ele diz, como um livro de receitas: "Adicione instituições e misture". Instituições como a parceria agrícola, a reforma agrária ou os tribunais modernos são vistas como causais.

Grande parte das evidências é histórica. Grande parte delas está equivocada. Um influente artigo científico de 1989, de North e do cientista político Barry Weingast, por exemplo, supõe que o direito inglês foi radicalmente alterado pela chamada Revolução Gloriosa, de 1688. Mas não foi. Weingast afirmou, em outro ensaio, que "o mundo medieval carecia das premissas neoclássicas: padrão de direitos de propriedade seguros, cumprimento de contratos, Estado de Direito e ausência de violência". Poucos historiadores medievais concordariam.

As afirmações de Weingast estão em sintonia com o artigo de 1989 e com livros posteriores de que 1688 representou um "novo dia" nas instituições do direito e da economia. Essa noção é adotada por economistas neoinstitucionalistas que não analisaram as evidências por si mesmos. Mas os historiadores do direito, os sociais e os econômicos da Europa medieval não concordaram com North, Weingast e seus seguidores, como Daron Acemoglu (Nobel de 2024), de que o direito inglês era claramente falho antes da Revolução Gloriosa. Não era. Assim, o mundo moderno não foi, como supõem os neoinstitucionalistas, causado por melhores direitos de propriedade. Eles já eram "melhores".

O argumento associado de North e Weingast em favor do "centralismo jurídico", divulgado em livros estatistas de Acemoglu e James Robinson, também não se justifica pelas evidências históricas. Weingast afirmou que "nenhuma dessas condições [para os mercados] pode existir sem o governo".

O rei Jaime 6° da Escócia (Jaime 1° da Inglaterra)
O rei Jaime 6° da Escócia (Jaime 1° da Inglaterra) - Royal Collection Trus

Até a origem da propriedade fica em questão. Jaime 6° da Escócia, futuro Jaime 1° da Inglaterra, disse em "The True Law of Free Monarchies" [A verdadeira lei das monarquias livres], de 1598, que os reis surgiram "antes de quaisquer propriedades ou classe de homens, antes que quaisquer parlamentos se reunissem ou leis fossem feitas, e por eles a terra foi distribuída, a qual no princípio era inteiramente deles. [...] Assim, segue-se necessariamente que os reis foram os autores e criadores das leis, e não as leis dos reis".

Na verdade, em termos de lógica e história, Jaime 1° —e North e Weingast— estava enganado. Há evidências de que a propriedade privada foi importante desde os primórdios da humanidade, não tendo nada a ver com a suposição de cima para baixo de Jaime 6°. "É preciso uma visão excessivamente estreita da história humana", dizem Kimbrough, Smith e Wilson em artigo de 2010, "para argumentar que não existia propriedade antes da lei e do Estado. Tanto a agricultura como a pecuária são muito anteriores ao Estado." Em livro recente, Bart Wilson mostra de forma convincente que a propriedade é tão antiga quanto a fabricação de ferramentas complexas.

É principalmente a ética —não o direito visto como promulgações institucionais feitas por senhores em tribunais ou parlamentos— que mantém as sociedades unidas. Mudanças na ética impulsionam as sociedades para a frente. Ou para trás.