
Imagem: Reprodução / Instagram Janjalula
À primeira vista, o vídeo parece banal: Lula, de férias, caminhando pela praia, de sunga, torso nu, em imagens divulgadas no Instagram da primeira-dama. Nada que não se enquadrasse na categoria já banalizada da “humanização” do poder, esse esforço recorrente de mostrar líderes como gente comum, em situações privadas, longe do figurino cerimonial do cargo. Enquanto caminha pela bela Restinga da Marambaia (RJ), com a água do mar fluindo à esquerda e à direita, Lula filosofa sobre tolerância, complementariedade e realismo. A mente afiada e a sabedoria viriam com a experiência e com os anos; o corpo em forma, do autocuidado. Um homem em paz consigo mesmo, em equilíbrio.
Mas, como quase tudo na política contemporânea — sobretudo quando atravessa as redes sociais —, a banalidade é apenas aparente. O vídeo não caiu no vazio. Ele circulou, foi recortado, comentado, celebrado, disputado. E, sobretudo, foi lido politicamente. Convém insistir nesse ponto: a política atual não se define apenas pelo que é dito, mas pelo modo como imagens são recebidas, reinterpretadas e incorporadas por comunidades políticas que já esperam algo delas.
Um vídeo não “significa” por si só. Ele adquire sentido quando encontra uma audiência predisposta a vê-lo como prova, indício, confirmação de uma crença prévia. Foi exatamente isso que ocorreu — e talvez tenha sido pensado justamente para isso.
De todo modo, o primeiro dado relevante não está na imagem em si, mas na sua recepção. Em veículos e perfis claramente engajados no campo lulista, o vídeo foi imediatamente interpretado como prova. Prova de quê? De vigor. De forma física. De disposição. O corpo de Lula — “no shape”, segundo a linguagem corrente — passou a ser celebrado como evidência de que o presidente está bem, ativo, apto. Não se tratava apenas de admiração estética ou curiosidade voyeurística, embora não seja a primeira vez que fotografias das coxas de Lula frequentem redes e imaginários. O corpo do líder foi convertido em argumento.
Essa leitura militante não se esgotou na exaltação. Ela operou, quase automaticamente, por contraste, em posts e memes. De um lado, o corpo saudável, bronzeado, caminhando com desenvoltura na areia. De outro, o corpo do antagonista: mutilado por cirurgias sucessivas, exibido em vídeos hospitalares, marcado por cortes, sondas, vômitos, soluços e imagens de franca morbidez. O mesmo antagonista que, por anos, cultivou a imagem do “passado de atleta” e se gabava da virilidade rude, da potência física e sexual exibida como atributo político. A comparação dispensa formulação explícita: emerge da própria lógica simbólica da circulação das imagens — eis o militar atlético, eis o peão de fábrica pinguço, e vejam no que deu um e outro.
O líder já não é julgado só pelo que promete ou fez, mas pelo que seu corpo parece indicar sobre sua capacidade futura de agir
Esse mecanismo não é novo, mas tornou-se muito mais intenso. O corpo sempre foi parte da política — basta lembrar a iconografia clássica do poder, da estátua equestre ao retrato oficial. A novidade é que, nas redes sociais, o corpo deixou de ser apenas representação simbólica e passou a funcionar como evidência empírica, verificada cotidianamente pela profusão de imagens geradas, editadas e postas em circulação pelos próprios usuários. O líder já não é julgado apenas pelo que promete ou pelo que fez, mas por aquilo que seu corpo parece indicar sobre sua capacidade futura de agir. E, sobretudo, escultores, pintores de retratos e fotógrafos oficiais, outrora sob controle estrito da autoridade, já não determinam o que o público aceitará como representação verdadeira e atual do ator político.
Um dado ainda mais revelador não pode passar despercebido. A empolgação com a imagem de Lula foi tamanha que aliados e perfis oficiais do petismo compartilharam versões adulteradas por inteligência artificial, nas quais o “shape” do presidente aparecia visivelmente melhorado: músculos mais definidos, proporções mais atléticas, um corpo que já não correspondia ao registro original do vídeo.
O ponto aqui não é a fraude deliberada, como se chegou a sugerir. Proponho outro, mais interessante. Quando um campo político sente necessidade urgente de uma prova simbólica, o cuidado com a verificação tende a se tornar secundário. A imagem passa a importar mais do que a fidelidade da imagem. A inteligência artificial entra em cena não como engano consciente, mas como atalho, entregando — de forma exagerada — aquilo que o imaginário político do lulismo já estava pedindo: Lula forte, gostoso, capaz. A adulteração não foi percebida como problema porque o conteúdo simbólico da imagem — vigor, juventude relativa, aptidão — já estava dado. A IA apenas intensificou o que se desejava comunicar. Não houve resistência porque não havia conflito entre a imagem manipulada e a expectativa política do público que a compartilhou.
Tudo isso confirma uma tese mais geral: não estamos diante de uma exibição casual da intimidade presidencial, nem de uma singela aula de filosofia política ao entardecer no mar, mas de um momento de comunicação estratégica por meio da exibição do corpo quase nu do presidente. A questão, então, é: qual estratégia?
Minha tese é que o vídeo importou porque respondeu a uma demanda urgente da política contemporânea diante da desconfiança crescente em relação à capacidade física e mental de líderes muito idosos.
Octogenários ainda figuram com alguma frequência como chefes de Estado, mas são raros como chefes de governo e mais raros ainda como candidatos eleitoralmente viáveis. Se a memória não falha, o último octogenário a disputar uma eleição presidencial com chances reais de vitória nas Américas e na Europa foi Biden — e o desfecho todos conhecem. Lula terá de superar esse limite se quiser se reeleger justamente quando estiver completando 81 anos.
O chamado “efeito Biden” paira como advertência permanente. Durante meses, Biden liderou pesquisas de intenção de voto até que debates e entrevistas passaram a exibir sinais inequívocos de debilidade: hesitações, confusões, lapsos, um corpo que já não respondia com a agilidade esperada. Bastaram algumas aparições públicas para que a percepção mudasse radicalmente. Não foi a idade em abstrato que o puniu eleitoralmente, mas a exibição pública da decadência física e mental.
Vivemos, hoje, uma situação paradoxal. As democracias parecem aceitar — e até valorizar — líderes maduros, experientes. A maturidade intelectual ainda conta, sobretudo num mundo em convulsão. A biografia pesa. O problema começa quando essa maturidade vem acompanhada de sinais visíveis de declínio físico ou mental. A política das redes sociais é impiedosa com isso. Um tropeço vira prova. Um lapso vira diagnóstico. Um vídeo amador, gravado por qualquer celular na plateia, pode valer mais do que anos de discurso articulado e um par de laudos médicos.
Nesse contexto, o corpo do líder passa a ser escrutinado com intensidade inédita. Não apenas o que ele diz, mas como anda, como se levanta, como respira, como reage. O tempo real da imagem substitui a mediação institucional. A campanha transforma-se também num exame público de fitness.
O corpo sempre fez parte da narrativa de Lula: o operário forte, o sobrevivente, o homem do povo que aguenta o tranco
Não por acaso, Lula insiste reiteradamente em sua rotina de exercícios, em sua disposição física, em sua juventude “de espírito” — e, não raro, também em sua vitalidade sexual. Trata-se de um traço consciente da sua persona pública num país que valoriza esses marcadores de saúde. Lula nunca foi um político ascético. O corpo sempre fez parte da sua narrativa: o operário forte, o sobrevivente, o homem do povo que aguenta o tranco.
Naturalmente, não está sozinho nisso. Bolsonaro explorou até a exaustão o exibicionismo do corpo “atlético”, do capitão viril, do homem que nada, anda de jet ski, faz, em público, flexões de braço e piadas sobre a própria performance sexual. Trump, um septuagenário às portas dos 80, insiste em se apresentar como enérgico, incansável, mentalmente afiado, mesmo quando vídeos e boatos tentam construir a narrativa oposta. À medida que envelhecem os líderes, mais se valoriza a aparência de vigor.
No caso brasileiro, esse pano de fundo é agravado por circunstâncias concretas. Lula sofreu recentemente um acidente doméstico, caiu no banheiro e bateu a cabeça, episódio amplamente noticiado. Desde então, circulam comentários maliciosos — e politicamente interessados — sobre supostos sinais de perda de lucidez. Nada disso precisa ser verdadeiro para produzir efeito. Basta circular. Basta contaminar.
Ao mesmo tempo, o bolsonarismo parece ter ingressado num novo modo de autoapresentação: o “modo coitadinho”. O corpo de Jair Bolsonaro passou a ser exibido sem pudor como corpo sofredor, frágil, exangue, quase sacrificial. Vídeos dormindo, resfolegando, imagens hospitalares e cenas de sofrimento físico são mobilizados emocionalmente. A morbidez virou estratégia. O corpo, mais uma vez, como argumento político — agora no registro da vitimização.
No cenário internacional, proliferam também vídeos e boatos sobre uma suposta degeneração mental de Trump. Diagnósticos de demência viralizam; há quem estabeleça prazos curtos para que deixe de ser funcional. Verdadeiros ou não, esses conteúdos cumprem uma função clara: produzir a ideia de inaptidão. A contaminação simbólica entre figuras da mesma faixa etária é inevitável.
O risco de “bidenizar” ronda todos os líderes idosos, sobretudo no tropel final da corrida eleitoral. No pior cenário, se as hipóteses pessimistas sobre a saúde de Trump se confirmarem, Lula chegaria a outubro precisando evitar também a “trumpização” da própria imagem. Seria um pesadelo.
É nesse ambiente que a imagem de Lula caminhando de sunga na praia ganha pleno sentido político. Não se trata de narcisismo tardio nem de descuido comunicacional. Trata-se de antecipação estratégica. Ao exibir coxas, tórax e costas tonificados; ao insistir na disciplina física cotidiana; ao aceitar — e talvez estimular — a circulação dessas imagens, Lula tenta ocupar o polo oposto da narrativa da decrepitude. Não é irrelevante, ademais, que as imagens tenham sido exibidas orgulhosamente por sua esposa, mais jovem, reforçando um enquadramento de vitalidade e normalidade afetiva.
A reação da militância e do petismo oficial confirma isso. O vídeo foi celebrado porque respondia a uma necessidade latente. Lula precisará se imunizar contra a percepção de perda de vigor físico e agilidade mental — e, para isso, seu corpo precisa contar a história que sua militância está disposta a acolher e a retransmitir. Em 2026, os eleitores podem até aceitar octogenários. Mas apenas aqueles que, diante da câmera, parecerem capazes de dar conta do serviço.


*Wilson Gomes é doutor em filosofia, professor titular da Universidade Federal da Bahia e autor de "Crônica de uma Tragédia Anunciada".