quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Ruy Castro - Carnaval bom é o de todos os tempos FSP

 A historiadora Eneida de Moraes dizia que os três inimigos do Carnaval são a chuva, a polícia e os saudosistas. Os piores são os saudosistas, com o discurso de que Carnaval bom era o "do tempo deles". Mas qual seria esse tempo? Na longa história do Carnaval carioca, cada geração teve o seu. Eis exemplos.

1600: surge o entrudo, com os foliões se atirando baldes de água com limão uns nos outros, na atual rua 1º de Março. 1641: mascarados desfilam cantando. 1748: primeiros foliões negros, com a coroação do Rei Congo. 1786: primeiros desfiles com carros alegóricos, no Campo de Santana. 1825: os nobres promovem bailes em seus palácios em Botafogo. 1831: os jornais anunciam a venda de máscaras e fantasias na rua do Ouvidor.

1846: primeiros bailes populares. 1848: primeiros blocos com música e percussão seguindo o bombo do sapateiro José Paredes, o "Zé Pereira". 1866: nascem os Democráticos, os Fenianos e os Tenentes do Diabo, com seus desfiles de luxo. 1887: primeiras ruas decoradas para o Carnaval. 1889: Chiquinha Gonzaga lança "O Abre-Alas", a primeira marchinha. 1892: surgem o confete e a serpentina. 1902: o Carnaval de rua atinge proporções gigantes, com mais de 200 blocos nas ruas.

1906: surge o lança-perfume. 1909: primeiro concurso de fantasias. 1910: o palhaço Benjamin Oliveira cria o Rei Momo. 1914: o corso de automóveis toma a avenida Rio Branco. 1928: nasce a Deixa Falar, primeira escola de samba. 1929: sambas e marchinhas já são compostos às centenas. 1932: a prefeitura oficializa o Carnaval. 1933: começa o desfile das escolas. 1938: os teatros, cassinos e clubes promovem os superbailes. Anos 1940 e 50: o Carnaval se internacionaliza. Etc. etc. e evoé.

O Carnaval sempre foi assim: uma atração sucessivamente se sobrepondo a outras. Em 1965, o Carnaval de rua foi dado como morto e as escolas passaram a reinar. As escolas continuam, mas, de 2000 para cá, os blocos voltaram com toda a força. Como será no futuro? Carnaval bom é o de todos os tempos.

A imagem retrata uma cena vibrante de uma festa de carnaval, onde várias pessoas estão dançando em um ambiente festivo. Os dançarinos estão vestidos com trajes coloridos, incluindo um vestido amarelo e uma fantasia de palhaço. O cenário é decorado com serpentinas e confetes, criando uma atmosfera alegre e animada.
'Baile à fantasia', óleo sobre tela de Rodolpho Chambelland para o Carnaval carioca de 1913 - Reprodução

Designar cartéis de drogas como terroristas não garante sucesso no combate ao tráfico, Lúcia Guimarães - FSP

 Com exceção do francês Jacques Audiard, o cineasta que nos presenteou com a fantasia pseudomexicana "Emília Pérez", é difícil encontrar um adulto sensato cuja imaginação produza a figura do traficante assassino virtuoso.

Mas esta coluna não é sobre ficção, e sim sobre a realidade da qual os mexicanos não serão poupados, nem por um milhão de ONGs piedosas.

Um dos primeiros atos de Donald Trump, no dia da posse, foi designar como terroristas os cartéis de traficantes do México. Na prática, a decisão pode ampliar o uso de sanções e também —esta questão não é clara— envolver as Forças Armadas no combate ao tráfico.

A imagem mostra um homem com cabelo loiro e uma gravata vermelha, sentado em uma mesa. Ele está segurando um documento em uma pasta, exibindo uma assinatura que parece ser sua. Ao fundo, há uma janela com cortinas e bandeiras dos Estados Unidos.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mostra decreto assinado, no Salão Oval da Casa Branca, em Washington - Evelyn Hockstein - 25.fev.25/Reuters

A ideia de narcoterrorismo nos EUA não é nova e é bipartidária. De Ronald Reagan a Hillary Clinton, políticos americanos defenderam alguma forma de envolvimento militar na caça aos cartéis que se aproxima de meio século de fracassos.

No México, o índice de homicídios estava em declínio no começo do milênio, até que o presidente Felipe Calderón, empossado em 2006, implantou a militarização do combate ao tráfico. Desde então, o país acumulou centenas de milhares de homicídios e pelo menos 100 mil casos de desaparecidos.

O presidente americano cita a trágica epidemia de opioides para ameaçar o México e o Canadá com sanções comerciais. Para quem se interessa por fatos, o Canadá é responsável por 0,2% das apreensões de fentanil por autoridades americanas, e a agência canadense responsável pela fronteira confirma que a quantidade de drogas ilegais com origem nos EUA é mais alta e não para de subir.

Mesmo sem incluir os cartéis na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras do Departamento de Estado, o governo federal americano já dispunha de vasta capacidade de coleta de inteligência sobre os traficantes. A questão aqui é de prioridade. Mas a inclusão cria um cenário de incerteza jurídica, além de não trazer garantia de proteção da segurança nacional. Um especialista do think tank Rand Corporation disse acreditar que os traficantes poderiam se transformar em grupos terroristas de fato.

O historiador mexicano Oswaldo Zavalla, autor de um livro sobre o narcotráfico, lembra que a maioria dos usuários de fentanil são cidadãos americanos, assim como a maioria dos responsáveis pela entrada desta droga nos EUA. Como já acontece com pessoas flagradas em qualquer contato com a Al Qaeda ou com o Estado Islâmico, americanos usuários de opioides poderiam ser investigados por apoio a terrorismo. Empresas e bancos —nos EUA e em outros países— ficariam expostos à Justiça criminal americana por ter inadvertidamente vínculos com empresas ou indivíduos mexicanos apontados como suspeitos.

Num presente de captura de governos por extremistas, é difícil conceber como misturar grupos movidos por religião ou ideologia, inimigos declarados de um país, a criminosos cujo interesse é sobretudo financeiro.

Jason Blazakis, ex-assessor do governo Barack Obama responsável por vetar a classificação de organizações terroristas, explicou recentemente que a decisão de não incluir os cartéis na lista foi tomada sobretudo pelo dano que ela poderia causar às relações bilaterais com o México, um país que não endossa essa classificação. Mas o tempo em que considerações diplomáticas tinham peso em Washington parece hoje distante.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

O recado de Lula para ministros após a demissão de Nísia na Saúde; leia a coluna, OESP

 Por Vera Rosa

Atualização: 

Pouco depois da demissão de Nísia Trindade, nesta terça-feira, 25, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, em conversa reservada com auxiliares, que o Ministério da Saúde precisa mudar. A ordem agora é para que a pasta seja conduzida de forma mais política e entre o mais rápido possível na disputa por uma marca de governo.

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Dois anos se passaram e Lula não vê nada de novo na prateleira para vender, além dos planos já anunciados. Reembalou alguns, como o Farmácia Popular, e vai mudar o nome de outros considerados indecifráveis, como o PMAE – Programa Mais Acesso a Especialistas. Mas o fato é que, até hoje, não encontrou um mote para tirar o governo da crise.

A escolha mais difícil para o presidente, porém, ainda está por vir e será fundamental para a construção das alianças no ano eleitoral de 2026. Apesar da acentuada queda de popularidade, Lula quer que o novo articulador político do governo comece a discutir desde já a montagem dos palanques nos Estados para a campanha do ano que vem.

Lula diz que Ministério da Saúde precisa mudar, entrar na briga política e ter um mote. Nísia Trindade foi demitida da pasta nesta terça-feira, 25
Lula diz que Ministério da Saúde precisa mudar, entrar na briga política e ter um mote. Nísia Trindade foi demitida da pasta nesta terça-feira, 25 Foto: Wilton Junior/Estadão

Sem maioria no Congresso, o presidente procura um nome que transite bem do Centrão à esquerda, passando pelo PL de Jair Bolsonaro, para cumprir essa tarefa. Ele tem sido pressionado a anunciar o sucessor de Alexandre Padilha nas próximas horas.

Até agora comandada por Padilha, que foi transferido para a Saúde, a Secretaria de Relações Institucionais é chamada de “UPA” do Palácio do Planalto. Por lá passam diariamente dezenas de parlamentares, muitos com semblante enfezado. Ali, os sofás de couro preto do quarto andar do Planalto, perto do gabinete do ministro, estão sempre lotados e a maioria dos deputados que bate ponto na “UPA” briga pela liberação do dinheiro das emendas.

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Apesar do desafio de construir uma nova marca para o ministério, após a demissão de Nísia, Padilha não esconde o alívio de deixar o posto com assento no quarto andar. No governo Dilma Rousseff, o ocupante daquela cadeira chegou a ser chamado, pejorativamente, de “garçom” do Planalto. Não sem motivo: só servia para “tirar os pedidos” de deputados e senadores, mas quem resolvia mesmo era a Casa Civil. De lá para cá, tudo só piorou.

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José Múcio Monteiro, hoje ministro da Defesa, esteve à frente da coordenação política do governo de 2007 a 2009, no segundo mandato de Lula. Pernambucano, servia bolo de rolo aos parlamentares. “Aceite um pedaço de bolo porque aqui só tem rolo”, dizia ele.

Pouco antes de Múcio, quem comandou a Secretaria de Relações Institucionais foi Walfrido dos Mares Guia. Empresário, Mares Guia prestigiou a última cerimônia de Nísia no Planalto, nesta terça-feira. Acompanhado pelo ministro da Defesa, ele também conversou com Lula na semana passada.

“Eu disse ao presidente: o novo coordenador político do governo precisa incluir os parlamentares para que todas as flechas sejam atiradas na mesma direção, e não cada uma para um lado”, afirmou Mares Guia. “Na nossa época, as emendas não eram impositivas como agora. Tínhamos como negociar. Hoje, a realidade é outra.”

Múcio resume a situação em uma única frase. “Para se dar bem nesse cargo, você tem que engolir sapo e ainda pedir a receita”, ensina ele. Depois de tanto mal-estar no Planalto, só resta esperar que, na disputa fratricida por uma marca de governo, o próximo articulador político não sofra de azia.