terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Agora tem o Dia do Pistache: até onde vai a palhaçada?, Marcos Nogueira, FSP

 Marcos Nogueira

SÃO PAULO

Quarta-feira, 26 de fevereiro, é o Dia Mundial do Pistache, caso você não saiba. Tudo bem, eu também não sabia até a semana passada.

Por que dia do pistache exatamente nessa data? Qual a história da comemoração? Aparentemente não há respostas para essas perguntas. O site National Day Calendar, que arrola homenagens do tipo nos Estados Unidos, informa que a origem é desconhecida.

O 26 de fevereiro também é, por sinal, Dia de Mandar uma Carta para um Idoso, Dia de Dar um Bom Exemplo e Dia de Contar um Conto de Fadas.

Creme de pistache em degustação feita com jornalistas da Folha
Creme de pistache em degustação feita com jornalistas da Folha - Danilo Verpa/Folhapress

Sei que sou repetitivo –já reclamei algumas vezes dessas datas estapafúrdias e da tsunami de pistache–, mas o caso sinaliza uma voracidade comercial tremenda dos americanos, além da passividade ovina dos brasileiros. Algo de que só me dei conta no fim do ano passado, ao ler uma ótima reportagem da BBC (publicada também na Folha).

Os gringos descobriram um jeito de produzir montanhas de pistache na Califórnia e precisam escoar todo o excedente para quem se dispuser a comprar. O Brasil se dispõe.

Segundo o mesmo artigo, entre 2020 e 2022 as importações rondaram a casa das 200 toneladas, com participação significativa do Irã e dos Emirados Árabes, produtores históricos de pistache.

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Em 2023, o volume saltou para cerca de 500 toneladas, 80% oriundas dos EUA. No ano passado, a importação californiana explodiu: o Brasil comprou mais de 900 toneladas só dos americanos.

Que fique claro: eu gosto de pistache. Gosto muito, aliás.

Mas, do jeito que a coisa vai, com pistache até na esfiha do Habib’s, o resultado é o empobrecimento do repertório da confeitaria brasileira –estrago que outros ingredientes alienígenas, como o leite condensado e a Nutella, já fizeram em verões passados.

A culpa não é só do lobby dos plantadores de pistache da Califórnia. É da cambada de paga-pau de gringo que a gente tem por aqui.

EUA agora são inimigos do Ocidente, Martin Wolf FT FSP

 "A liberdade e a independência estão hoje em perigo em todo o mundo. Se as forças de conquista não forem resistidas e derrotadas com sucesso, não haverá liberdade, independência e nem oportunidade de liberdade para qualquer nação." Assim Franklin Delano Roosevelt comemorou o primeiro aniversário da Carta do Atlântico, que havia sido acordada entre ele e Winston Churchill em 14 de agosto de 1941.

Meio século depois, com a queda da União Soviética, era pelo menos razoável esperar que esses ideais pudessem ser realizados em grande parte do globo. Isso não aconteceu. Hoje, não apenas as autocracias estão cada vez mais confiantes. Os EUA estão se movendo para o lado delas.

Essa é a lição das últimas duas semanas. A liberdade não está em tanto perigo quanto estava em 1942. No entanto, os perigos são muito reais.

A imagem mostra dois homens em um encontro, ambos com expressões sérias. À esquerda, um homem com cabelo curto e liso, usando um terno escuro e uma gravata, está estendendo a mão para o outro homem à direita, que tem cabelo loiro e usa um terno escuro com uma gravata clara. O fundo é branco e neutro.
Donald Trump e Vladimir Putin durante reunião do G20 no Japão, em 2019 - Kevin Lamarque - 28.jun.19/Reuters

Três eventos se destacam. O primeiro foi um discurso em 12 de fevereiro do secretário de defesa de Donald Trump, Pete Hegseth, ao Grupo de Contato de Defesa da Ucrânia na Otan, no qual ele disse aos europeus que agora estavam por conta própria. A América estava agora principalmente preocupada com suas próprias fronteiras e com a China.

Em suma: "Salvaguardar a segurança europeia deve ser um imperativo para os membros europeus da Otan. Como parte disso, a Europa deve fornecer a maior parte da ajuda letal e não letal futura à Ucrânia."

O segundo foi um discurso de J.D. Vance, vice-presidente dos EUA, na Conferência de Segurança de Munique em 14 de fevereiro, no qual ele declarou que "o que me preocupa é a ameaça interna, a retirada da Europa de alguns de seus valores mais fundamentais — valores compartilhados com os EUA".

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Um exemplo que ele deu de tal ameaça foi que "o governo romeno acabara de anular uma eleição inteira". A isso, alguém poderia responder que os europeus sabem melhor do que os americanos o que acontece quando os inimigos da liberdade chegam ao poder através de eleições. Mas eles também sabem que seu chefe, o próprio Trump, tentou anular o resultado da eleição presidencial quatro anos atrás. O sujo e o mal-lavado vêm à mente.

O terceiro e mais revelador evento é a negociação sobre o futuro da Ucrânia. Hegseth, é claro, já havia aceitado as condições mais importantes de Putin ao declarar que as fronteiras da Ucrânia não seriam restabelecidas e que ela não poderia se juntar à Otan. Mas isso foi apenas o começo.

As negociações foram conduzidas entre os EUA e a Rússia sobre as cabeças dos europeus, embora estes últimos tenham sido ordenados a garantir qualquer acordo, e, escandalosamente, da própria Ucrânia, cujo povo suportou o peso da agressão de três anos de Vladimir Putin. No entanto, agora, insistem os EUA, a Rússia não foi a agressora. Pelo contrário, a Ucrânia começou a guerra. Para sublinhar a divisão com a Europa, os EUA votaram a favor de uma resolução no Conselho de Segurança da ONU ao lado da Rússia e da China, enquanto França, Reino Unido e outros europeus se abstiveram. O "ocidente" está morto.

Trump também declarou que Volodimir Zelenski era um "ditador", termo que ele não usa para Putin, que é um ditador. Sua justificativa para esse abuso é que o presidente da Ucrânia não realizou eleições. Como, alguém se pergunta, seriam realizadas eleições no meio de uma guerra, com partes substanciais do país sob uma ocupação brutal?

Muito caracteristicamente, Trump também propôs um acordo de propriedade. Segundo Zelenski, a proposta original do secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, exigia 50% dos direitos sobre as terras raras e minerais críticos do país em troca de assistência militar passada, e não continha nenhuma oferta de assistência futura.

Argumentavelmente, para Trump, "ditador" pode ser um termo de elogio, não de condenação. Novamente, para ele, possuir um ativo valioso em outro país pode ser a única razão para protegê-lo. Mesmo assim, exigir uma soma enorme de um país pobre que foi vítima de uma agressão não provocada é ultrajante, especialmente quando a Ucrânia precisa se reconstruir. Fica pior quando vemos que o valor das exigências dos EUA representa cerca de quatro vezes sua assistência.

Além disso, de acordo com o Rastreador de Apoio à Ucrânia do Instituto Kiel, os europeus forneceram mais assistência do que os EUA, que cumpriram apenas 31% dos compromissos bilaterais totais e 41% dos compromissos militares com a Ucrânia entre janeiro de 2022 e dezembro de 2024. No entanto, onde estão eles nessas negociações? Em lugar nenhum. Trump está decidindo pela Ucrânia e pela Europa, sozinho.

No total, os EUA gastaram apenas 0,19% do PIB em assistência militar para a Ucrânia. Isso é trivial, especialmente em comparação com o custo de suas guerras anteriores. Em troca, ganhou a humilhação do que antes se pensava ser um inimigo poderoso e a vindicação dos ideais da democracia liberal, pelos quais os ucranianos estão lutando e os EUA já lutaram.

Essas últimas duas semanas deixaram então duas coisas claras. A primeira é que os EUA decidiram abandonar o papel que assumiram no mundo durante a Segunda Guerra Mundial. Com Trump de volta à Casa Branca, país decidiu tornar-se apenas mais uma grande potência, indiferente a qualquer coisa além de seus interesses de curto prazo, especialmente seus interesses materiais.

Isso deixa as causas que defendia em suspenso, incluindo os direitos dos pequenos países e a própria democracia. Isso também se encaixa com o que está acontecendo dentro dos EUA, onde o estado criado pelo New Deal e a sociedade regida pela lei criada pela constituição estão ambos em perigo de destruição.

Em resposta, a Europa ou se levantará para a ocasião ou se desintegrará. Os europeus precisarão criar uma cooperação muito mais forte embutida em um quadro robusto de normas liberais e democráticas. Se não o fizerem, serão despedaçados pelas grandes potências do mundo. Eles devem começar salvando a Ucrânia da malevolência de Putin.

Hélio Schwartsman - Trump está matando a galinha dos ovos de ouro, FSP

 Pelo menos desde o século 7 a.C. fabulistas alertam para o perigo de, com vistas a obter vantagens de curto prazo, destruir para sempre a rentabilidade de um recurso valioso. O mais célebre desses contos morais é a história da gansa dos ovos de ouro, de Esopo.

Em português a gansa virou galinha, mas sem alteração da mensagem central: não importa quais sejam as suas expectativas e objetivos, não mate a ave que lhe fornece regularmente um ovo de ouro por dia; se o fizer, você se arrependerá. Donald Trump, com sua egolatria e mentalidade de mercador de bazar, está eviscerando várias gansas, galinhas e até codornas que garantiam aos EUA enorme poder e riqueza. Um golpe particularmente duro é o que ele está dando contra a ciência americana.

A imagem mostra duas pessoas no Salão Oval da Casa Branca. À esquerda, um homem com um chapéu preto e uma jaqueta escura está gesticulando enquanto fala. À direita, um homem sentado em uma cadeira de couro marrom, com cabelo loiro e terno escuro, observa. Ao fundo, há cortinas amarelas e bandeiras dos Estados Unidos.
O bilionário Elon Musk e o presidente dos EUA, Donald Trump, no Salão Oval da Casa Branca - Kevin Lamarque/Reuters

No afã de combater o que chama de "deep state" e simular ganhos de eficiência, Trump e Elon Musk, seu escudeiro na entropia, não apenas congelaram bilhões de dólares em verbas que seriam destinadas a agências e a programas de pesquisa em universidades como também ameaçam demitir milhares de cientistas que trabalham para o governo.

Como se isso fosse pouco, a administração Trump também está criando um clima de hostilidade para com estrangeiros, que fará com que pesquisadores talentosos de várias partes do globo pensem duas vezes antes completar seu treinamento nos EUA e eventualmente radicar-se no país.

Mesmo que americanos se deem conta de que erraram ao escolher Trump e iniciem uma nova correção de rota, o prejuízo para a ciência será grande. Trata-se, afinal, de uma atividade cujos frutos muitas vezes demoram para maturar, o que exige continuidade nos fluxos de financiamento. É preciso também que os bons cientistas, cuja preparação se conta em décadas, tenham confiança em que terão empregos razoáveis no futuro. Trump e Musk estão violando as duas condições.

E isso é muito ruim para os EUA. Boa parte de seu poderio e prosperidade se devem ao amplo domínio que o país exerce há um século em ciência básica e inovação.